Nem só de críticas, entretanto, viveu Losango Cáqui. E, para além das polêmicas, Gênese vê alguns caminhos interessantes para pesquisadores contemporâneos interessados em estudar a obra. Ela destaca, por exemplo, as possibilidades comparativas entre o livro e Há Uma Gota de Sangue em Cada Poema. Gênese retoma um comentário de Carlos Drummond de Andrade em carta enviada a Mário em 31 de janeiro de 1926, incluída em Carlos e Mário: Correspondência entre Carlos Drummond de Andrade – Inédita – e Mário de Andrade: 1924-1945 (organização de Lélia Coelho Frota, Bem-Te-Vi, 2002), na qual o mineiro, apesar de criticar pontualmente alguns poemas, classificando-os como “saudades do parnasianismo”, fez elogios rasgados ao conjunto do volume, como estes:
páginas que a inteligência não encomendou e que são apenas a reação duma sensibilidade apuradíssima sobre os fatos banais da vida militar. Digo banais, mas acrescento também: às vezes dolorosos, às vezes alegres e sempre utilíssimos para um espírito como o de você que trabalha com todos os materiais. Não vejo nenhum poeta brasileiro dagora que fosse capaz de fazer o mesmo que você com esse mês de exercícios militares.
“Um bom cronista poderia pegar esse gancho para revisitar o livro”, indica Gênese, “sem desconsiderar, inclusive, que a amizade entre Mário e Oswald se inicia quando este ouve um discurso de Mário de saudação a Elói Chaves, secretário estadual de Justiça e Segurança Pública, no Conservatório Dramático e Musical, em 21 de novembro de 1917, no contexto de uma campanha de esclarecimento à opinião pública, referente à declaração de guerra à Alemanha pelo Brasil.” Na ocasião, Oswald teria se encantado com o texto, disputando com outro jornalista o direito de publicá-lo.
A professora aponta que tanto nesse discurso quanto em Losango Cáqui e em Há Uma Gota de Sangue em Cada Poema, Mário trata da questão bélica, do nacionalismo e da disciplina. Assunto que Drummond destaca na mesma carta: “Sua disciplina é um caso sério. Disciplina mesmo sentimental, sem coação, sem violência, sem nenhum vexame ou limitação”.
“Mas Mário é antibelicista, sem dúvida, e também contrário ao falso patriotismo, o que ele evidencia em vários momentos, inclusive em um artigo também de 1926, intitulado Clara Argentina, publicado em outubro no jornal carioca A Manhã”, sublinha a professora.
Para Gênese, reside ainda nas palavras de Drummond uma possível chave para todas as polêmicas em torno do livro. E também para a falta de atenção à obra ao longo dos anos e todo o seu potencial ainda inexplorado. Trata-se de um comentário dirigido pelo mineiro a Mário na mesma carta de janeiro de 1926, na qual comenta justamente Losango Cáqui:
Você é inestimável, e o valor de sua influência no nosso movimento e mesmo na vida intelectual e até moral de nós todos ninguém o poderá avaliar senão daqui a cem anos. Às vezes fico pensando: como é que o Mário consegue repartir-se tanto e cada vez continua mais ele mesmo? Não sei, Mário; só sei que esse milagre você o realiza intensamente e diariamente, com as riquezas inumeráveis do seu imenso imenso [sic] coração brasileiro.