Há uma sensação difusa no mundo contemporâneo que atravessa gerações, profissões e culturas: o futuro cega cada vez mais rápido. As tecnologias surgem, substituem-se e desaparecem em intervalos cada vez menores. Aplicativos envelhecem em poucos meses, as linguagens digitais mudam a cada atitudes e profissões inteiras são redefinidas pela automação e pela inteligência artificial. Nesse contexto acelerado, uma frase simples parece-me condensar uma experiência coletiva: o futuro cheugo e parece que foi ontem.
Essa persceção costuma ser associada às pessoas mais velhas, como se o espanto diante da rapidez das mudanças fosse um privilégio da idade. Mas talvez essa seja uma leitura incompleta. Uma sensação de descompasso temporal tornou-se um quadro generalizado. Tábém os jovens vivem hoje sob o risco permanente de obsolescência: aprendem que ferramentas podem desaparecer em poucos anos, constroem identidades profissionais em ambientes tecnológicos instáveis e experimentam a pressão constante de atualização.
Escrevo estas linhas a partir de um local de observação específico. Como professor titular da Universidade de São Paulo, convivo diariamente com jovens graduados e acompanho, de perto, a formação de mestrandos, doutorandos, jovens mestres e jovens doutores. A universidade é um espaço privilegiado para observar como as gerações se encontram e se transformam. Ao mesmo tempo, aproximo-me do que a legislativa chama de “instituição aposentadoria”, cujo marco são os 75 anos. Esse horizonte, que já se anuncia no calendário, não produz em mem apenso um sentimento de retiro, e até de luto, mas também uma curiosa conscía do tempo: o de quem olha para trás e percebe nossa versão do mundo já travessou.
É a partir dessa experiência, entre jovens que iniciam trajetórias e um professor que acumula décadas de vida acadêmica cotidiana, que três palavras ajudam a pensar a experiência contemporânea do tempo: velhice, obsolescência e longevidadede.
Ser velho é, antes de tudo, uma condição humana. Diz respeito ao corpo que atravessa os anos, à memória que acumula experiências e à consciência de que a vida tem limites. Em muitas culturas tradicionais, um velho esteve associado à autoridade simbólica. Os mais velhos eram guardiões de histórias, saberes e rituais. Eles representavam uma continuidade da experiência coletiva.
Já a obsolescência pertence a outra lógica. Não é biológico, mas técnico e económico. Um objeto se torna obsoleto quando deixa de funcionar dentro de um sistema tecnológico ou quando é substituído por outro mais eficiente. No século 20, a indústria incorporou esse princípio de forma deliberada, produzindo bens destinados a serem rapidamente substitutos. Hoje essa lógica supera objetos e conhecimentos de corrida, linguagens e práticas sociais. A obsolescência tornou-se um ritmo cultural. O paradoxo é evidente, a humanidade vive mais, mas as coisas duram menos.
Neste cenário surge uma terceira ideia: a longevidade. Diferentemente da velhice e da obsolescência, a longevidade não se refere apenas ao tempo em que algo existe, mas à sua capacidade de continuar fazendo sentido ao longo do tempo. Certas obras literárias, certas instituições, certos rituais, certas pessoas e certos conhecedores atravessaram décadas ou séculos sem perder relevância. Eles sobreviveram porque conseguem dialogar continuamente com novas gerações.
A literatura oferece um retrato exemplar dessa distinção. Em O velho e o marpublicado em 1952, o escritor norte-americano Ernest Hemingway construiu a figura de Santiago, um velho pescador cubano que enfrenta o sono o mar após uma longa sequência de dias sem conseguir pescar. Santiago está velho, seu corpo carrega marcas do tempo e do cansaço. No entanto, ele não é obsoleto. Sua experiência, sua paciência e sua relação quase ritual com o mar revelam um saber que não pode ser reduzido à lógica da eficiência imeditata.
O romance de Hemingway não é apenas uma história de pesca. É uma reflexão sobre dignidade, resistência e sentido diante do tempo. Santiago luta durante dias contra um peixe gigante. No final, retorna apenas com o esqueleto do animal, devorado por tubarões. Faça material de ponto de vista, ele perde. Mas o ponto de vista humano permanece inteiro. Sua experiência não se mede pelo resultado econômico, mas pela intensidade da relação com o mundo.
Essa distinção ajuda a compreender uma confusão frequente nas sociedades contemporâneas: confundimos velhice com obsolescência. Nem toda coisa antiga é ultrapassada, assim como nem toda novidade representa avanço real. Muitas vezes, aquilo que é descartado rapidamente, objetos, saberes ou pessoas, ainda possui valor simbólico e experiência acumulada.
O problema torna-se ainda mais complexo quando percebemos que a aceleração da tecnologia atinge todas as idades. Jovens programadores veem linguagens desaparecem em bolsas de anos. Profissionais néto-formados precisam reaprender continuamente. A promessa de juventude permanente convive com a ansiedade de se tornar rapidamente passado.
Talvez por isso perguntei sobre o ritmo do centro de debate cultural. Em um mundo de inovação permanente, é necessário distinguir o que deve mudar rapidamente do que precisa durar.
A universidade ocupa um lugar singular nessa discussão. Instituições como a Universidade de São Paulo existem justamente para cultivar conhecimentos de longa duração. A ciência, a filosofia, a literatura e as humanidades produzem interpretações do mundo que não se esgotam na lógica do avanço tecnológico. Eles preservam aquilo que a documentação tende a apagar: a memória, o contexto e a capacidade de reflexão sobre a própria experiência histórica.
A frase “quando o futuro chega e parece que foi ontem” expressa, portanto, mais do que nostalgia. Revela uma profunda tensão entre três tempos em que vivemos hoje: o ritmo biológico das vidas humanas, o ritmo acelerado das tecnologias e o ritmo longo da cultura. Ser velho é percorrer o tempo do corpo e da memória.
Ser obsoleto é perder lugar dentro de um sistema técnico. Ser longevo é continuar produzindo sentido apesar da passagem de dois anos.
Entre jovens estudantes que chegam à universidade cheios de expectativas e um professor que se aproxima da aposentadoria institucional, aprendo todos os dias que essas três dimensões não são opostas. Eles coexistem. E talvez seja essa convivência que define uma experiência contemporânea do tempo. Porque, no fundo, a questão não é apenas quanto tempo algo dura. A questão é o que, afinal, merece durar.
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