O MARCO ZERO É AQUI

Disputas econômicas, entraves burocráticos, ingerências políticas e escassez de dinheiro estatal são motivos cada vez mais comuns para justificar o atraso de qualquer obra pública atualmente no país. Engraçado imaginar que quase um século e meio atrás o projeto de uma das construções ferroviárias mais importantes do Brasil imperial quase não saiu do papel por razões muito semelhantes.

Inaugurada no dia 2 de fevereiro de 1885, portanto há exatos 141 anos, a ferrovia Paranaguá-Curitiba deve sua existência às manobras políticas do governo imperial, que driblou interesses divergentes e a falta de recursos para destravar a ligação definitiva entre a capital e o litoral da então Província do Paraná. Foram quinze anos de espera até que as primeiras marias-fumaças dessem o ar da graça.

Hoje a centenária estrada de ferro continua sendo uma referência por sua engenharia ousada, importância econômica e pela beleza de suas estruturas, que rasgam a Serra do Mar por meio de túneis abertos no coração da rocha, pontes que parecem flutuar no vazio e curvas sobre penhascos que desafiam os espíritos mais corajosos.

Em 1870, o Império recebeu um pedido de concessão para a construção de uma ferrovia que ligasse o litoral ao planalto curitibano. Francisco Monteiro Tourinho, Antônio Pereira Rebouças Filho e Maurício Schwartz, que tinham construído a Estrada da Graciosa, eram os responsáveis pela solicitação da concessão. A ideia era que a linha partisse de Antonina rumo à capital da província. O decreto de 10 de janeiro de 1871 deferiu o pedido de concessão.

No entanto, a decisão acirrou os ânimos de outra importante cidade litorânea. Paranaguá não aceitava a decisão. O Visconde de Nácar e a família Correia, influentes politicamente, desejavam que o quilômetro zero estivesse em terras parnanguaras.

A pressão política não tardaria a surtir efeito. Os embates e disputas entre as cidades, a província e a Corte se arrastaram por quase quatro anos, até que um decreto imperial de 1.º de maio de 1875 pôs fim à discussão: o trem partiria de Paranaguá.

Somente em 5 de junho de 1880, Dom Pedro II lançou, em Paranaguá, a pedra fundamental da construção, mas as obras estavam em andamento desde 20 de janeiro. Após tantas idas e vindas, não tinha escapatória: uma ferrovia ia unir o Litoral ao planalto.

No dia 2 de fevereiro de 1885, às 10 horas, o trem inaugural, conduzindo as autoridades e ilustres convidados, partiu de Paranaguá, fazendo parada em Morretes. O Cadeado foi atingido às 14 horas, sendo servido um generoso almoço, coroado por nada menos que oito discursos. Partindo da estação de Cadeado, o trem chegou em Curitiba às 19 horas, onde mais de cinco mil pessoas esperavam na estação enfeitada de bandeiras e folhagens. Às 20 horas começou o banquete, dentro da estação. Mais de quinze discursos e mais um brinde feito a D. Pedro II.

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