A guerra no Oriente Médio tornou-se o laboratório para o que o especialista Fernando Barra, autor de “Inteligência Artificial Ampliada”, define como a “amplificação de sistemas de decisão”. “Longe de ser uma substituta para o comando humano, a IA atua como um catalisador de velocidade operacional e inteligência tática, redefinindo o front através de três dimensões críticas: a análise massiva de dados de sensores e drones para reconhecimento em tempo real, a automação de sistemas de defesa e a precisão estratégica sem precedentes”, explica.
De acordo com Barra, em um cenário onde milissegundos determinam a sobrevivência, a tecnologia não está apenas mudando as armas, mas alterando a própria lógica da soberania militar e do processamento de informações no campo de batalha. “O impacto principal não é apenas tecnológico, mas estrutural: a IA está reduzindo o tempo entre informação e decisão. Em um ambiente de guerra, essa diferença de minutos ou segundos pode redefinir estratégias inteiras.”
“O caso recente envolvendo OpenAI e Anthropic e o governo dos EUA mostra exatamente esse dilema. Algumas empresas tentam impor limites éticos ao uso militar da tecnologia, enquanto governos defendem que essas capacidades são essenciais para segurança nacional.”
Forbes Brasil – Qual o impacto da inteligência artificial na guerra?
Fernando Barra – A inteligência artificial está mudando a escala e a velocidade da guerra. Tradicionalmente, decisões militares dependiam de análise humana de dados de satélite, inteligência e comunicação de campo. Hoje, as novas plataformas de IA conseguem processar volumes massivos de informação em tempo real. Isso permite identificar alvos, prever movimentos logísticos, analisar imagens de satélite e até coordenar sistemas de ataque e bombas autônomos com muito mais rapidez do que qualquer equipe humana conseguiria. O impacto principal não é apenas tecnológico, mas estrutural: a IA está reduzindo o tempo entre informação e decisão. Em um ambiente de guerra, essa diferença de minutos ou segundos pode redefinir estratégias inteiras.
FB – No que a tecnologia já influenciou nas dinâmicas de guerras?
Barra – A tecnologia está influenciando três dimensões importantes. A primeira é inteligência e reconhecimento. A IA está sendo usada para analisar imagens de drones, satélites e sensores, identificando movimentações militares e padrões que seriam impossíveis de detectar manualmente. A segunda é automação de sistemas de combate, como drones semiautônomos e sistemas de defesa que tomam decisões muito rapidamente. A terceira é guerra informacional. Algoritmos podem monitorar populações inteiras e amplificar propaganda, desinformação e operações psicológicas em escala massiva. O que ainda pode mudar de forma mais profunda são dois fatores: armas totalmente autônomas, capazes de selecionar e atacar alvos sem intervenção humana direta, e IA estratégica, usada para simular cenários de guerra e orientar decisões geopolíticas. Se isso avançar, veremos um deslocamento do poder militar não apenas para quem tem mais armas, mas para quem tem melhores sistemas de decisão baseados em dados.
“O impacto principal não é apenas tecnológico, mas estrutural: a IA está reduzindo o tempo entre informação e decisão. Em um ambiente de guerra, essa diferença de minutos ou segundos pode redefinir estratégias inteiras”
Fernando Barra
FB – Seria essa a primeira guerra onde começamos a entender em amplitude o papel das novas tecnologias?
Barra – Eu diria que esta é a primeira guerra que conseguimos entender o impacto dos dados e da inteligência artificial. Outras guerras também foram marcadas por tecnologias decisivas como o radar na Segunda Guerra Mundial, a energia nuclear na Guerra Fria e a internet e os satélites nas guerras do início do século XXI. Mas a IA é diferente porque ela atua sobre o próprio processo de decisão. Não é apenas uma nova arma ou ferramenta. É uma tecnologia que influencia análise, planejamento, logística, comunicação e execução ao mesmo tempo. Por isso, estamos começando a perceber que a IA pode se tornar uma infraestrutura estratégica, comparável a energia, telecomunicações ou satélites.
“O caso recente envolvendo OpenAI e Anthropic e o governo dos EUA mostra exatamente esse dilema. Algumas empresas tentam impor limites éticos ao uso militar da tecnologia, enquanto governos defendem que essas capacidades são essenciais para segurança nacional”
Fernando Barra
FB – Qual o papel das Big Techs neste contexto, haja vista os acontecimentos recentes com OpenAI e Antrophic relacionadas ao governo americano?
Barra – O papel das big techs é central porque grande parte da capacidade de desenvolvimento de IA hoje está concentrada nessas empresas, elas são os grandes fornecedores de dados e IA. Isso cria uma situação inédita na história da guerra: tecnologias estratégicas sendo desenvolvidas inicialmente no setor privado e depois incorporadas por governos. O caso recente envolvendo OpenAI e Anthropic e o governo dos EUA mostra exatamente esse dilema. Algumas empresas tentam impor limites éticos ao uso militar da tecnologia, enquanto governos defendem que essas capacidades são essenciais para segurança nacional. A grande questão é que a IA está se tornando uma infraestrutura de poder geopolítico. Isso levanta uma discussão complexa: até que ponto as big techs podem ou devem definir limites éticos para tecnologias que impactam segurança global? Provavelmente veremos, nos próximos anos, a necessidade de algum tipo de governança internacional sobre IA militar, semelhante ao que já existe para armas nucleares ou químicas. Talvez a pergunta mais importante sobre inteligência artificial na guerra não seja o que a tecnologia consegue fazer, mas quem controla os sistemas que ela está amplificando.