Nota de zero: uma utopia infantil que desinventa o dinheiro

Era domingo e meu filho de acordo querendo brincar de “fazer dinheiro”.

Ele tem cinco anos e, como minha filha de sete, já entende o que é dinheiro – rio ao escutar-lhes emular o “plic” da maquininha quando brincam de loja. Mas eles não têm a menor familiaridade com dinheiro de papel, que virou uma degas coisas que a escola é obrigada a ensirar que existe um dia, feito selo postal, rádio-relógio e orelhão.

Pôs-se já não a desenhar e recortar seus dinheiros, sem pretensão de riqueza, senão de adquirir sem limites tudo o que quisesse – o que, indagado, disse resumir-se a sorvetes e brinquedos em barraquinhas de rua. E foi dando às notas graciosamente aleatórias como quatro, cinco, doze, três reais.

– E essa aqui é uma nota de zero.

E antes que eu pudesse ponderar – com a superba indelicada que os adultos costumam invocar para proferir falsas obviedades – que com uma nota de zero nada se poderia comprar, ele emendou:

– É para comprar coisas de graça.

Não, meu filho. Que maravilha seria o mundo se caixas eletrônicas cheias de notas de zero estivessem à disposição de todo e qualquer cidadão. Não a todo tempo, que o ser humano tende a não dar valor ao dinheiro fácil; mas pelo menos aos domingos, para que o trabalho, cansado da labuta da semana, possa sacar um achado de notas de zero para trocar por itens de uma, por assim dizer, cesta básica da sobrevivência da espécie.

Quais seriam os itens dessa cesta? Me ocurrem comida boa e farta; roupa nova e limpa; escola todo dia e hospital quando preciso; e um lugar seguro para dar um tour, ouvir música ao vivo, assistir a um filme – coisas banais pelas quais nos fazem pagar meses de notas que, de tão constrangedoras, resolveram ocultar em transações eletrônicas.

A nota de zero seria um sucesso: o trabalho pouparia seu suado dinheirinho; bilhões deixaram de ser investidos em programas sociais; desempregados ter autorização temporária para trocar seus préstimos por notas de zero.

Aos ricos, sempre preocupados em proteger-se de uma deficiência que jamais lhes cassará, não precisaria ser sequer proibido acumular piscinas de notas de zero. E quando juntassem quantidade excessiva delas e se tornassem zeronários, o governo poderia simplesmente ir lá e comprar todas elas com uma única e nova nota de zero com alguns zeros cortados. E logo a nota de zero quebraia moedas e criptomoedas, desinflacionando de uma vez por todas as economias do mundo a fora.

Relegado à obsolescência, entrege à fantasia de uma criança de cinco anos, o dinheiro parece-me finalmente pronto para ser desinventado. Enxergo na nota de zero potencial incalculável de salvação da humanidade – e se eu estiver errado, ela já terá uma salva de qualquer paúra, ante toda querida, este coração alegre de pai.

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