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Moto no trânsito: rotina intensa pode cobrar um preço alto do corpo e da mente.

A motocicleta tornou-se uma das ferramentas mais eficientes de mobilidade nas grandes cidades brasileiras. Ágil, econômica e capaz de reduzir significativamente o tempo de deslocamento, ela ganhou ainda mais importância nos centros urbanos. Mas existe uma diferença importante entre pilotar por lazer e permanecer várias horas por dia enfrentando congestionamentos, calor, ruído, irregularidades do pavimento e situações permanentes de risco. Nesse cenário, os efeitos da rotina podem ultrapassar o desgaste da máquina e atingir também o motociclista.

Pilotar uma motocicleta em uma estrada aberta, durante um passeio ou viagem, não produz necessariamente os mesmos estímulos de atravessar diariamente corredores congestionados de uma metrópole.

Estudos citados no material analisado, atribuídos à UCLA, nos Estados Unidos, e à Universidade de Tohoku, no Japão, relacionam a condução recreativa de motocicletas a estados de maior concentração e relaxamento. O cenário muda, entretanto, quando a pilotagem acontece sob pressão constante, em um ambiente de elevado nível de atenção e imprevisibilidade.

No trânsito pesado, o motociclista precisa interpretar continuamente movimentos de automóveis, ônibus, caminhões, ciclistas e pedestres, além de monitorar buracos, mudanças de faixa, cruzamentos e frenagens inesperadas. É uma carga cognitiva muito diferente daquela encontrada em uma estrada livre.

O grande problema das jornadas prolongadas está justamente na necessidade de permanecer atento praticamente o tempo inteiro.

Pesquisas atribuídas à Universidade de São Paulo no material original destacam que situações prolongadas de estresse podem provocar respostas fisiológicas relacionadas à liberação de hormônios como adrenalina e cortisol.

Na prática, isso significa que o motociclista submetido durante horas a um ambiente de tensão pode apresentar aumento da fadiga, irritabilidade e dificuldade de concentração. Para quem trabalha sobre duas rodas, esse aspecto merece atenção especial: conforme o cansaço aumenta, pode diminuir a capacidade de interpretar rapidamente aquilo que acontece ao redor.

Em uma motocicleta, onde equilíbrio, percepção espacial e tempo de reação são fundamentais, poucos segundos de desatenção podem fazer diferença.

Nem todo desgaste é psicológico.

Horas sobre a motocicleta significam exposição contínua às vibrações produzidas pelo motor, às imperfeições do pavimento e às transferências de carga provocadas por acelerações e frenagens. Somam-se a isso a posição de pilotagem, o peso do capacete e a repetição diária dos mesmos movimentos.

O material apresentado relaciona estudos da Unicamp a problemas envolvendo pressão arterial e também chama atenção para os efeitos que vibrações e impactos repetitivos podem exercer sobre a região lombar.

Isso não significa que andar de motocicleta provoque automaticamente doenças cardiovasculares ou lesões de coluna. O risco depende de fatores como frequência de utilização, jornada diária, ergonomia da motocicleta, condições das vias, histórico individual e períodos de recuperação.

Ainda assim, dores recorrentes nas costas, punhos, pescoço ou ombros não devem ser encaradas simplesmente como consequência inevitável da profissão.

Esse talvez seja um dos pontos mais importantes dessa discussão.

O motociclista que utiliza a moto durante uma ou duas horas para deslocamentos cotidianos está submetido a uma realidade bastante diferente daquela enfrentada por entregadores, mototaxistas e outros profissionais capazes de permanecer oito, dez ou até 12 horas por dia circulando.

Quanto maior a jornada, menor tende a ser o intervalo disponível para recuperação física e mental.

Calor intenso, desidratação, alimentação inadequada, pressão por produtividade e poucas pausas podem ampliar esse desgaste. Para o profissional, portanto, cuidar da saúde passa a fazer parte da própria segurança no trabalho.

Outro dado citado no conteúdo original chama atenção para aquilo que acontece depois de um acidente grave.

Pesquisa atribuída ao Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP avaliou motociclistas hospitalizados e apontou consequências importantes sobre sua capacidade de retornar ao trabalho, incluindo casos de sequelas permanentes.

Esses números precisam ser interpretados dentro da população específica estudada — motociclistas que chegaram a necessitar de internação hospitalar — e não como retrato de todos aqueles que circulam de moto.

Ainda assim, reforçam um aspecto frequentemente esquecido no debate sobre segurança viária: um acidente não termina quando o motociclista recebe alta. Recuperação física, afastamento profissional, perda de renda e sequelas podem permanecer durante meses ou anos.

Para quem depende diariamente da motocicleta, pequenas mudanças podem contribuir para reduzir a exposição prolongada ao cansaço: fazer pausas durante jornadas extensas, manter hidratação adequada, respeitar os períodos de descanso, utilizar equipamentos de proteção e evitar continuar pilotando quando a fadiga começa a comprometer a concentração.

A ergonomia também merece atenção. Guidão, posição dos comandos, banco, suspensão e postura influenciam diretamente o esforço realizado pelo corpo. Pneus calibrados corretamente e suspensões em boas condições ajudam ainda a diminuir impactos desnecessários transmitidos ao piloto.

Sintomas recorrentes, como dores persistentes, palpitações, tonturas ou alterações significativas do sono e da concentração, justificam avaliação profissional de saúde.

Para milhões de motociclistas, pilotar continua associado a liberdade, prazer, praticidade e até qualidade de vida. O problema começa quando essa atividade se transforma em uma jornada prolongada de tensão, sem descanso suficiente e sob condições urbanas adversas.

Por isso, colocar motociclistas ocasionais e profissionais na mesma análise seria um erro. Quem percorre uma estrada no fim de semana enfrenta condições completamente diferentes de quem passa dez horas atravessando congestionamentos para trabalhar.

O debate, portanto, não deve ser sobre se “andar de moto faz bem ou faz mal”, mas sobre como, onde e por quanto tempo se pilota.

Para o motociclista profissional, especialmente, saúde, descanso e prevenção devem ser encarados com a mesma importância de pneus, freios e manutenção mecânica. Afinal, preservar a máquina é fundamental — mas preservar quem está sobre ela é ainda mais importante.

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