O que mais se ouve no mercado de automóveis é “espera estas chinesas começarem a produzir aqui para que logo percam o fôlego”.
Se fábricas (mais) e concessionárias (menos) estão preocupadas com a invasão chinesa, elas ainda não viram nada: diz Rogelio Golfarb (atual consultoria Zag Work, ex vice-presidente da Ford e ex-presidente da Anfavea), que os chineses emplacaram 10% das vendas de veículos no Brasil em 2025, mas a previsão dele é chegarem a 20% em 2030 e 35% em 2035.
Num encontro recente com jornalistas, Golfarb ponderou que as chinesas levam enorme vantagem sobre outras marcas, menos por incentivos e subsídios governamentais, mais (quase 90%) pela verticalização (só não fabricam pneus e vidros) e escala: tem fábrica na China que produz mais que todas nossas vendas de 2,6 milhões de unidades anuais, enquanto o mercado chinês supera 25 milhões de carros por ano.
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Cai por terra o raciocínio de que as chinesas perderão grande parte de sua competitividade quando passarem a produzir localmente. Rogelio exemplificou com as baterias: quando nossas fábricas tradicionais vierem a produzir eletrificados no Brasil terão de adquiri-las na China, com custo evidentemente maior. O mesmo raciocínio para chips e outros eletrônicos.
Ele afirma que as marcas chinesas que desembarcaram aqui estão entre as maiores de seu país. E que, mesmo com nosso mercado sem registrar crescimento, vão aumentar sua participação tomando fatias das atuais, pois “são empresas de peso”.
As chamadas “montadoras tradicionais” já perceberam e por isso estão se associando com as chinesas. Stellantis com a Leapmotor e Volkwagen com XPeng, por exemplo, e outras demonstram que a disruptura do mercado é permanente. Prova disso é que “no passado – disse ele -marca nova vindo para o Brasil saía atrás de concessionárias. Hoje, são elas que correm atrás das chinesas que desembarcam por aqui”.
Tsunami global
Mas está enganado quem pensa que as chinesas só provocaram este tsunami no mercado brasileiro. A Honda anunciou seu primeiro prejuízo liquido desde 1957. E seu CEO, Toshihiro Mibe, declarou a incapacidade de sua empresa em concorrer com os carros elétricos das chinesas, produzidos em fábricas sem operadores humanos. Vai cortar etapas na fabricação de seus modelos para reduzir custos e acelerar o desenvolvimento de elétricos.
Aliás, toda a indústria japonesa está preocupada com seus resultados nos últimos meses. A Nissan numa fase de completa reestruturação comercial e industrial. Atrasada em seu projeto de eletrificação e anunciou estar fechando sete fábricas até 2028.
As japonesas perderam mercado na China e seu desempenho com a eletrificação veicular não é dos melhores. A Toyota é a única a se sair melhor neste panorama com seus híbridos, onde foi pioneira com o Prius.

Na Europa, até marcas tradicionais como a Porsche anunciam prejuízos milionários com seus carros elétricos: vendas fracas dos atuais e engavetando projetos onde já investiu bilhões de euros. Nos EUA, dezenas de bilhões de dólares de prejuízo da Ford, GM e Stellantis com a queda na demanda de elétricos e barreiras tarifárias.
A indústria automobilística chinesa deu a mais significativa virada de chave dos últimos tempos: de “Xing-Ling” há pouco mais de dez anos, ela se destaca hoje pela tecnologia (principalmente a elétrica), qualidade, preço e design de seus modelos.
A Ford Brasil tinha quase vergonha de explicar que o SUV Territory vinha pronto da China, quando começou a importá-lo, há seis anos. Hoje, só falta argumentar “pode comprar pois é todo chinês”.