A menopausa não é apenas uma mudança ginecológica. Ela também leva a uma reorganização cerebral. Nessa fase, uma em cada dez mulheres deixam o emprego, e muitas delas relatam falta de concentração, redução de energia e dificuldade para realizar tarefas como faziam antes.
Essa percepção pode afetar a produtividade no trabalho e a capacidade de se manter socialmente ativa. A diminuição na produção de hormônios, como estrogênio e progesterona, interfere no funcionamento de diversas áreas do cérebro e explica a sensação de “baixa mental”.
A falta que o estrogênio faz para o cérebro
O hipocampo, por exemplo, é uma parte do cérebro ligada à memória e ao aprendizado. Como o estrogênio age nessa região ajudando a formar novas conexões neurais, a sua diminuição pode resultar em esquecimentos, dificuldade para lembrar palavras e sensação de névoa mental (como se o pensamento ficasse mais devagar).
Já no córtex pré-frontal, responsável pelo foco, tomada de decisão e planejamento, as oscilações hormonais impactam na atenção e na velocidade de processamento do raciocínio.
O hipotálamo, por sua vez, regula a temperatura, o sono e o relógio biológico. Com a desregulação dos hormônios, surgem os fogachos e a insônia. Como consequência, a mulher dorme mal e acorda mais cansada e irritada no dia seguinte.
O impacto no humor, motivação e resposta ao estresse também têm a ver com a queda do estrogênio, que atua na modulação de neurotransmissores como serotonina, dopamina e noradrenalina. É também nesse período que o risco de transtornos de ansiedade e depressão aumenta.
“Não estamos falando de perda de capacidade, mas de um cérebro que está operando em um novo contexto neurobiológico. A mulher não perde a competência na menopausa; ela atravessa uma fase em que o cérebro precisa se adaptar por conta dessa mudança e da flutuação dos hormônios. Muda a forma como ela pensa, sente e reage ao mundo. O que ela precisa mesmo é entender que isso tem nome e que essa transição hormonal pode ser acompanhada e tratada”, explica Alessandra Rascovski, endocrinologista e diretora da clínica Atma Soma.
Menopausa ou burnout?
No contexto do trabalho, em que o valor da mulher é medido pela performance constante, qualquer oscilação intensa de humor pode ser questionada. Os sintomas da menopausa, como fadiga, insônia, irritabilidade, palpitação, queda de concentração e sensação de esgotamento, são confundidos com frequência com a síndrome de burnout.
Segundo um estudo da Mayo Clinic, cerca de 1,8 bilhão de dólares é perdido por ano devido aos sintomas da menopausa. Muitas mulheres deixam de buscar promoção, diminuem a ambição e decidem sair do mercado nesse período da vida.
“O risco não é como nomeamos, o risco é tratar só a superfície e não investigar a base hormonal. Não lembrar que essa mulher está vivendo uma alteração metabólica, uma alteração do sono, e que isso afeta muito a autoconfiança. A mulher começa a pensar: ‘Será que eu não vou mais dar conta?’. Na verdade, ela está atravessando uma fase fisiológica que é esperada e é tratável”, tranquiliza Rascovski.
Como melhorar a cognição na menopausa
Para as mulheres que optam pela terapia de reposição hormonal (TRH), o período ideal para começar é até dez anos após a última menstruação ou antes dos 60 anos de idade. A chamada “janela de oportunidade” maximiza os benefícios da TRH para a saúde cardiovascular e óssea e pode ainda levar a uma melhora neurocognitiva.
Manter o cérebro ativo através de palavras-cruzadas, jogos da memória, leitura, aprendizado de um novo idioma, entre outras atividades de estimulação mental também ajuda. Pequenas mudanças no dia a dia, como priorizar atividades físicas e praticar meditação, são mais algumas das estratégias que funcionam.
“É um novo mapa biológico, mas a mulher precisa se ajustar. Ela precisa entender o próprio corpo e como ele está funcionando agora”, finaliza a médica.
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