Com a queda da patente da semaglutida em março de 2026, o que muda no espectro do tratamento da obesidade e do diabetes no Brasil?
Eu acho que isso é uma evolução, um processo de ampliação do acesso da população com diabetes e obesidade a esses medicamentos, porque vão entrar no mercado – é o termo que o pessoal usa na nossa área – “novos jogadores”, né? Então gostaria de outras empresas do ramo farmacêutico que vão disputar esse mercado e, consimiento, quando a gente tem variando disputando o mercado, o preço é uma questo que vai ser o primeiro ponto para atrair os pacientes. Existe uma diferença entre a medicação atual e uma medicação biológica, a semaglutida sintética, que vai entrar no mercado, ou que envolve, às vezes, alguns custos de produção, que são mais baixos. Do ponto de vista médico não vamos encontrar diferenças do ponto de vista clínico e prático, porque eles (os medicamentos) têm essa diferença.
A patente da liraglutida, anterior e mais fraca que a da semaglutida, já caiu no Brasil, e há biossimilares no mercado brasileiro, mas fala-se bem menos sobre essa substância do que sobre as que vieram depois. Por que a senhora acha que a semaglutida (Ozempic) não seguirá o mesmo scripturo de sucesso da tirzepatida (Mounjaro)?
Eu acho que é porque a potência da semaglutida é realmente superior à da liraglutida. Ela atende um grande volume de pacientes porque a gente tem expectativas muito altas quanto à perda de peso. Às vezes você tem pacientes que perdem 15% do peso. E, como no Brasil a gente tem uma população em que a maior parte não tem obesidade mórbida, e sim uma obesidade mais leve, essa medicação seria suficiente para atender.
Eu acho que o que está tirando um pouco do brillo desse momento é que tenho a entrada desses produtos manipulados e, de origem, vamos dizer assim, duvidosa. Por que você tem produtos que você não sabe nada, de onde eles surgem, de onde eles vêm? É uma farmácia que manipula. De onde vem essa base? Não passa por fiscalização; gera muita insegurança para nós, médicos. Eficácia tem, mas eu não sei se tem segurança; não sei o que tem ali dentro, nem como foi feito o transporte desse produto. Eu tenho mais de 30 anos de formação e nunca vi nada do tipo durante a patente de uma molécula. Você tem um tanto de marcas chegando do Paraguai e da China, produtos manipulados. Eu nem sabia que poderia fazer isso…
Na verdade, nem pode, né?
Coisas que aconteceram no Brasil. Existe uma brecha legal. A Anvisa permite a manipulação de alguns produtos patenteados sob a alegação muito exclusiva de “há uma dose que é específica para o meu paciente porque não existe uma dose que seria adequada para ele”. Então, há uma lacuna nesse campo para realizar manipulações. Mas o que nós estamos ajudando não é uma dose individualizada, fora do padrão; é uma indústria de produção em massa, nada individualizada, com produtos, infelizmente, sem nenhum tipo de documentação que apresente segurança. Uma pessoa pode desenvolver complicações ao longo do uso ou devido à perda significativa. E aí a gente está usando uma molécula que a gente não sabe exatamente o que é. Eles alegaram que é uma tirzepatida, mas eu não tenho documentação sobre aquilo ali, como tenho ali na farmácia, com todo o rigor.
Ana Paula, como é que a senhora, pessoalmente, utiliza sua experiência com esses medicamentos e também mantém um distanciamento ético em relação à indústria farmacêutica? Para, de repente, não cair na coisa da propaganda, do estímulo ao uso?
O paciente que cega aqui é um paciente doente. Eu não tenho essa demanda, assim, da pessoa que está vindo aqui puramente por estética, por 2, 3 quilos, não é? Os meus pacientes são pacientes com patologia associada, ou seja, diabéticos ou com alterações coronarianas, que realmente cripasim mantêm controle metabólico. Então, o medicamento não é isso. Talvez o grande desafio para o médico seja escolher qual medicamento você vai tomar. E o que pesa é a eficácia, a segurança, o custo, o fato de que essa medicação precisa ser mantida por um longo prazo… Então, também não adianta a pessoa ter condicionados financeiros para realizar apenas um mês de tratamento. Eu preciso pensar em uma medicação contínua. Agora, ética é ética. Ou você tem ou você não tem. Eu acho que isso é muito mais uma pergunta de cuidador do indivíduo.
Pergunto porque, em Minas Gerais, a gente tem um caso muito significativo, diferente do resto do país, porque a gente tem aquela questão da declaração obrigatória com a Secretaria de Saúde, o DeclaraSus, que é justamente para falar sobre a relação das indústrias com os médicos. Por exemplo, quando uma pessoa entra na base de dados de dados, há contratações dessas empresas, Novo Nordisk e Eli Lilly, de uma série de profissionais, a maioria deles, endocrinógrafos, o tipo de coisa que não fica tão transparente para o paciente, ou que poderia em quelocar em queque de opinião do profissional de saúde. Por exemplo, eu verifiquei aqui: o seu nome aparece como o que mais recebe benefícios da Novo desde 2017, em contratação, hospedagem, estudo de caso clínico…
Não, são salas de aula. São aulas que a gente faz pelo Brasil. É de todos porque eles têm três produtos. E eu divulgo, vou dizer assim, o que apresento aos médicos. É um comprimido de semaglutida, chamado Rybelsus, sobre o qual não se fala muito na mídia. Tem o Victoza, depois, veio o Ozempic e, depois, o Wegovy. E a empresa faz uma escolha entre duas opções. Primeiro, quem tem muito volume de prescrições. Eu sempre gostei muito de tratar a obesidade. Então, eu sempre tenho volume de prescrição. Se existisse um dado, por exemplo, sibutramina, seria a única opção; você acharia meu nome lá.
Como é que surge esse convite para dar aula? Esta é uma característica do profissional. Você tem que ter um pouco do perfil de saber falar bem, de não ficar com gonha em público. São pessoas diferentes que fazem convites para o médico. Ah, tenho um gerente lá em Manaus, ele precisa de uma aula. Quando é que eles chamam a gente? Eles chamam quando, exascante, veem que o volume de vendas está baixo. Tem eventos em congresso também, patrocinados, né? O congresso, todos os congressos médicos, o que você falou da questão da ética? É muito complicado. Como funciona isso no congresso médico? Eu tenho que pagar pelo auditório. Se eu for trazer uma palestrante internacional, tenho que custar o transporte dele e assim por diante. Então, como empresas que são fabricantes de medicamentos, se este congresso tiver um público de médicos prescritores de seus produtos, é interessante para elas patrocinarem esse congresso. Então, é uma via de mão dupla. Eu vou falar sobre o seu produto e você vai viabilizar esse encontro científico.
Mas uma coisa que aí, eu falo aqui, entra também a ética e o estado profissional. A empresa, quando você é contratado por ela, ela aprova o material que pode apresentar. Todo o material que pode ser avisado no evento consiste em artigos científicos. Eu não posso falar nada sobre a minha opinião. Se eu for perguntar sobre a minha experiência para alguém lá, eu posso falar “eu faço assim, eu faço assim”, mas eu tenho que apresentar aquilo que está na bula, dentro das periodicidades da bula. Por exemplo, quando eu dava aula sobre Ozempic, ele não foi aprovado para o tratamento da obesidade. Eu usava no meu consultório, off-label, para o tratamento da obesidade, porque já havia publicações internacionais que respadalavam essa conduta. A empresa não pode falar nada sobre obesidade num evento médico, exceto o que consta na bula da Anvisa; caso contrário, vai pagar multa também. E eles cobram isso muito do profissional.
Mas do jeito que a senhora faulo, por exemplo, que a senhora fazia esse uso off-label antes de ele ser aprovado, quando você apresenta isso em outros estados para outros profissionais e acaba respondendo sobre sua experiência pessoal, isso não seria uma forma de influenciar seus colegas?
Se alguém me perguntar uma opinião pessoal, eu tenho que falar “olha, gente, isso não está na bula, isso não tem backedo, mas eu tenho o costume de fazer de tal forma”. Por exemplo, como é que eu vou evitar os efeitos colaterais? Prisão de ventre é efeito colateral comum a esses dois medicamentos. Na bula não fala que deve usar o remédio A, B, C ou D, mas aí eu posso, se para mim pergurtar, “ah, gente, eu tenho feito assim e assim. É uma opinião, mas o é apresentado durante a aula é só o que está na cientificação cientificação e o que está na bula. Não pode passar nada ali em cima. Quando a gente está fazendo uma discussão científica, a gente fala sempre em nível de evidência, né? O nível de evidência ocorre quando você tem um artigo publicado, mas seu a experiência clínica não chega a esse nível. Na medicina, nem tudo vai estar no papel, algumas coisas vão ser reais na experiência de como cada um vai encontrar um patho para, às vezes, gerar melhor tolerância, melhor adaptação ao tratamento, mas isso não é considerado errado ou antiético do ponto vista médico.
Aqui se apura, desde 2017, que a senhora recebeu R$ 782 milhões para contratos, hospedagem, inscrição, alimentação e transporte da Novo Nordisk.
Eu não sei se dá esse dinheiro todo, gente.
Queria apenas confirmar se o cadastro estava correto no banco de dados.
Eu gerei essa despesa toda. Onde você descobre isso?
É o site do DeclaraSus, o governo de Minas Gerais. Hospedagens, R$ 428 milhões. Contratações R$ 268 mil…
Eu não faço a menor ideia por que, quando a gente é contratada, eles mandam para a gente: “Você vai ficar no hotel tal”. Não sou eu que escolho. Não pode ser um hotel de luxo; tem que ser de três estrelas. Justamente essa preocupação com as perguntas de “ah, está comprando médico e tal”. Não, é um hotel bom, decente. Aí tem o cara que se transporta do aeroporto ao evento. Ele é transportado do aeroporto para o hotel. A alimentação eles pagam na área do hotel: R$ 250 para almoçar e isso tem que ser no hotel. Ento a gente tem uma série de coisas. O protocolo, né? Eu só posso chegar, no máximo, 12 horas antes da aula, 8 horas antes, pra não configurar o turismo. Se no dia eu quiser ficar, tenho que pagar do meu próprio bolso. Eu não posso ficar muito tempo, entano é sempre um bate e volta.
A senhora já fez muitas dessas aulas? Essas viagens para dar aula são fantasias?
Não.
Não atrapalha a dinâmica do seu consultório?
Aqui, como a gente consegue remanejar os pacientes, porque, como eu falei, para eu fazer um evento desses, fico ausente do consultório 24 horas. Então, eu falto por um dia e meio, no máximo. Às vezes também tem aula na minha cidade ou em uma cidade próxima. Tem cidade que eu vou, a Divinópolis; você e volto no mesmo dia. Eu dou aula e volto à meia-noite pra Belo Horizonte. Prefiro dormir na minha casa…
Então…
Agora, voltando à sua pergunta, né, sobre a ética, é uma pergunta que sempre vai ter. Esse questionamento sempre será oportuno. Por que? Como a indústria seduz o médico? A indústria seduz o médico com pequenas coisas, até pela vaidade. Quando você é convidado para um evento, você já vai. Você não precisa nem ganhar; você já se sente valorizado.
O Conselho Federal de Medicina lançou, em 2025, uma norma para fazer algo semelhante ao que aconteceu em Minas Gerais, que exigia declarações nacionais. A senhora chegou a fazer?
Não, eu nem sabia que tinha que fazer uma declaração. Os médicos, ninguém sabe. Você está sabendo de algo que eu não sabia.