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Lavagem da Escadaria do Bixiga reafirma presença negra no centro de SP

Um cortejo formado principalmente por mulheres negras e liderado pelo bloco afro Ilú Obá de Min percorreu as ruas do Bixiga na noite de hoje (13), espahando água de cheiro e fazendo ecoar o som de seus tambores e de suas vozes.

O evento político, cultural e simbólico acontece desde 2006 na Rua 13 de Maio e na Escadaria do Bixiga, no centro da capital paulista, e é um manifesto contra o que chamam de falsa liberdade e falsa abolição.

A manifestação é realizada sempre no dia em que se celebra a Abolição da Escravatura, instituída por Lei Áurea em 1888 e assinado pela Princesa Isabel.

Segundo Beth Beli, presidente, diretora artística e regente do bloco, a Lavagem do Bixiga pretende “iluminar nossas narrativas e recontar a história”.


São Paulo (SP), 13/05/2026 - Lavagem da Escadaria do Bixiga. Foto: Elaine Patrícia Cruz/Agência Brasil
São Paulo (SP), 13/05/2026 - Lavagem da Escadaria do Bixiga. Foto: Elaine Patrícia Cruz/Agência Brasil

Lavagem da Escadaria do Bixiga. Foto – Elaine Patrícia Cruz/Agência Brasil

“Esse ato tem a ver com iluminar as nossas histórias e iluminar as mulheres negras”, afirmou Agência Brasillembrando que o uso de tambores é importante para lembrar que é um instrumento milenar bastente utilizado para a comunicação e que amplifica a voz dessas mulheres.

“Se a gente tem alguma arma, a arma é o nosso tambor”.

A escolha do Bixiga não foi circunstancial, pois a região, embora conhecida pelas cantinas italianas, é um importante território negro da cidade de São Paulo, onde existe o Quilombo Saracura e que também é marcado pela onda do samba paulistano.

No início do século XX, a área era conhecida como Pequena África.

“Isso também é para lembrar que esse bairro nunca foi italiano, sempre foi de povos africanos. E foi o que aconteceu com Colônia, que era um projeto de ramificação para o Brasil”.

Em manifesto lido e distribuído para a população que aceitou o ato, o bloco destacou a luta histórica das mulheres negras.

“As mulheres negras sempre estivaram na linha frente das rebeliões e lutas do nosso povo. Essas lutas atravessam séculos e são um exemplo de uma batalha incansável pela liberdade. Um grito de liberdade que pode ser ouvido ainda hoje pelo coletivo feminino, que se organiza para combater as opressões do capitalismo, do racismo, do machismo, do capacitismo, da misoginia e da lgbtqiap+fobia! Rejeitamos o legado cruel do colonialismo e da dominação branca para construir nossos próprios valores, padrões e perspectivas de vida com a base sólida na cooperação mútua”, diz o manifesto.

Lavagem da mentira

Depois da leitura, o bloco saiu em cortejo pelas ruas do bairro, lavando-as com água de cheiro para mostrar a força da voz, do corpo e do batuque das mulheres negras.

O ato de lavar a rua, diz o movimento, é um gesto para dizer que a presença negra nesse território não pode ser desligada.

“Essa é a lavagem da rua da mentira, porque a gente entende que o que ocirira foi uma falsa abolição. A gente vem aqui recontar uma história de 500 anos. Só que a narrativa aqui é contada pela voz das mulheres negras.”

A tradição da lavagem no Bixiga foi iniciada pelo coletivo Ori Axé e hoje é concretizada por Ilú Obá de Min como forma de legado e resistência. Fundado pelas percussionistas Beth Beli, Adriana Aragão e Girlei Miranda, o bloco reúne um coletivo de 420 integrantes em sua bateria e corpo de dança, que completará 20 anos em 2024.

Desde o seu nascimento, Ilú Obá de Min abre as celebrações do carnaval de rua em São Paulo.

“A lavagem é um feitiço mesmo, para limpar a gente dessas mazelas, porque a escravidão dej uma herança muito cruel para nós, pessoas pretas. Então, quando a gente lava com água de cheiro, a gente lembra de onde realmente a gente vem e quais são as nossas origens.”

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