O regime iraniano executou, nesta terça-feira (16), Javad Zamani e Abolfazl Saedi, dois homens condenados por participação nos protestos antigoverno que atingiram seu auge em janeiro de 2026. A informação foi divulgada pelo site oficial do Poder Judiciário iraniano, Mizan Online. As execuções ocorreram no condado de Shahrud, na província de Semnan.
Os dois foram acusados de “guerra contra Deus” (moharebeh) e “corrupção na terra” – ambos crimes capitais na República Islâmica –, além de “destruição deliberada de bens públicos e privados com a intenção de enfrentar o sistema da República Islâmica do Irã”, segundo o Mizan.
O chefe do Poder Judiciário da província de Semnan, Mohammad-Sadegh Akbari, acusou os homens de terem participado de distúrbios, danificado agências bancárias, gerado desordem em frente à sede do governo provincial, virado e queimado um veículo policial, e atacado residências e automóveis. As acusações também incluíram incitar a população a participar dos protestos e conspirar contra a segurança interna e externa do país.
Confissões sob coação e críticas de direitos humanos
O Mizan publicou um vídeo de 50 segundos descrito como a confissão dos condenados, com os rostos desfocados. Organizações de direitos humanos e ex-detentos têm denunciado repetidamente o uso de confissões forçadas mediante pressão, tortura e condições de detenção desumanas nas prisões iranianas.
A repressão aos protestos e a escalada das execuções
Os protestos de janeiro de 2026 abalaram o Irã nas semanas anteriores ao início do conflito armado com os Estados Unidos e Israel. As autoridades iranianas classificaram as manifestações como “distúrbios instigados do exterior” e as vincularam sistematicamente a atores externos. Grupos opositores afirmam que a repressão custou dezenas de milhares de vidas e incluiu o uso de fogo real contra as multidões.
Desde os ataques de EUA e Israel em 28 de fevereiro – que desencadearam a guerra no Oriente Médio –, o Irã intensificou as execuções. Entre os condenados estão pessoas acusadas de colaborar com o inimigo, além de opositores e participantes dos protestos de dezembro e janeiro.
Na segunda-feira (15), a ONU afirmou que o Irã já executou ao menos 40 pessoas, incluindo 18 manifestantes, desde o início de 2026. No início de junho, o regime já havia executado Mehrdad Mohammadinia e Ashkan Maleki, dois manifestantes de janeiro acusados de terem incendiado uma mesquita em Teerã.
Irã tem o segundo maior número de execuções no mundo
Segundo organizações de direitos humanos, o Irã é o país que mais executa pessoas anualmente, atrás apenas da China. As condenações à morte por acusações como moharebeh e “corrupção na terra” têm sido amplamente criticadas por organismos internacionais, que apontam que elas são aplicadas de forma sistemática para silenciar a dissidência política.
O caso de Zamani e Saedi segue um padrão documentado: pessoas detidas durante protestos são submetidas a processos judiciais sob acusações capitais, em procedimentos que frequentemente incluem confissões obtidas sob coação. A ONU e diversas organizações internacionais têm instado o Irã a interromper as execuções vinculadas aos protestos e a garantir o direito a um julgamento justo. Até o momento, o governo iraniano não modificou sua política em relação ao que considera atos de sedição instigados do exterior.