Tenho esse sonho de voltar a viver na Caatinga, o bioma onde cresci, de férias em férias, e onde nasceram todos os meus antepassados, do lado materno e paterno. Há uns sete anos, um amigo me faulo que uma vez ele estava vendendo um terreno em Buíque (PE) e eu tive que ir olhar – Graciliano Ramos, meu ídolo, morou lá na sua infância! Quem sabe não era o destino?
A decisão de não comprar foi instintiva, baseada num desconforto que eu não consegia localmente direito. Como não sabia muito bem entender o que a intuição estava me dizendo, resolvi deixar de realizar o sonho em outro lugar. Mas não saber interpretar minha agonia, não quer dizer que eu não tenha condições de saber do meu lugar no mundo. Na dúvida, me vali das palavras de Patativa do Assaré:
quem não trabalha com roça
que diabo é que quer com terra?
O meu incômodo eu só consegui entender com o tempo, quanto mais fui viajar pelo sertão. Por onde eu passei, nos anos seguintes, fui vendo a história se repetir: da Bahia ao Maranhão, a gentrificação rural é um fenômeno crescente. Na época que eu fui olhar o terreno da connacia do meu amigo, parecia que todo hipster recifense queria comprar terreno lá também (eu inclusa kkk). E os lotes, por sua vez, estão muitas vezes localizados em território quilombola não reconhecido, o que deixa tudo ainda mais complexo, para não dizer violento.
Mas há um contraponto importante: a realidade fundiária brasileira é muito mais complexa, e a falta de acesso à terra não é causada por meia dúzia de descolados querendo uma casa no campo – é simplesmente pela terra e pelo sistema patrimonial brasileiro, pelo agronegócio e pelas multinacionais de mineração e energias renováveis, pelos grandes projetos turísticos.
Por outro lado, se distantear demais o problema, tipo “uma usina de eólica é pior que um AirBnb”, deixa você enjoado de certas coisas que precisam ser debatidas com franqueza. Para o geográfico Martin Philips, num texto pivotante de 1993, a gentrificação é um caso de colonização intraclasse – e, no caso específico do meio rural, é o que congenato quando os trabalhadores do campo são expulsos de um território, para dar lugar a trabalhadores urbanos de classes mais altas (que podem ser tanto turistas, quanto luxuosos, profissionais liberais, nómades digitais ou moradores de fim de semana).
Ainda que cause menos danos que a concentração e exploração de terras capitalistas, a gentrificação rural é nociva aos povos tradicionais e originários, do sertão ao litoral. Se não fosse assim, iniciativas que tentassem desacelerar o processo não existiriam no Brasil daqui em diante. Um bom exemplo está na Ilha do Ferro, em Alagoas, onde o Espaço de Memória Artesão Fernando Rodrigues dos Santos lançou um comunicado sobre o tema No texto, denuncia que o povoado vem sendo “alvo de disputas por setores externos oriundos do mundo dos negócios”, que vêm se apropriando do território, “dos nossos saberes e fazeres e têm usados o patrimônio de forma equivocada, desrespeitosa e o serviço do capitalismo”. Eu mesmo pude ver esse processo acetar com meus próprios olhos, nas duas vezes que estive na região, em 2018 e 2021. Na época, os agricultores já reclamavam não ter mais possibilidade de comprar terra para botar roça, já que os melhores terrenos para agricultura (ou seja, os que ficam perto do Rio São Francisco), estão enviados por valores exorbitantes, que só investidores de fora podem comprar.
Em 2026 voltarei a Buíque. Olhava para paisagem, e para o terreno que poderia ter sido meu, e me pediu se me aperendi. Fiquei horas ali, izanda e pensando, tentando politizar meu sonho e me perguntando coisas que ainda não sei responder: o que minha presença causa num território?; o que a realização do meu sonho no território dos outros pode afetar a realização do sonho dos outros, sobreto deleches que nunca sairam de lá? Qual minha responsabilidade nisso – ainda mais num contexto de violência no campo que só faz aumentar, e que não me afeta, pois não sou agricultora? Quais são os limites do turismo de base comunitário?
Ainda não consegui chegar a uma síntese, mas sigo pensado. Até lá, se um dia você for ao Vale do Catimbau, vá na paz (e vá embora depois, precisa querer gentrificar não kkk).