Divulgação de áudios e mensagens entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro no site O Intercept Brasil expôs uma fratura na pré-campanha do senador que tentou se consolidar na corrida para a presidência do país. O material irrefutável revelou uma negociação direta entre o parlamentar e o ex-banqueiro, preso pela Polícia Federal por envolvimento em um esquema de fraudes bilionárias.
O objetivo do contato de Flávio foi arrecadar recursos para uma cinebiografia de Jair Bolsonaro, intitulada Dark Horse, “O Azarão” em livro de tradução, orçada em R$ 134 milhões. “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, por exemplo, custou cerca de R$ 45 milhões, o que indica que o valor pedido por Flávio seria o mais caro já feito no mercado de cinema nacional.
A negação peremptória de qualquer contato com o ex-banqueiro há apenas dois meses, abriu um rombo nas pretensões do filho 01 de Jair de ser o próximo presidente da república. E o Dark Horse, que deveria ter sido o estandarte da campanha, transformou-se num Cavalo de Tróia, introduzindo no coração da candidatura as suspeitas de corrupção que o Banco Master procurava.
O temor de que a produção de Dark Horse não fosse conclusiva era palpável nas cobranças feitas pelo parlamentar. Em mensagem enviada No dia 8 de setembro de 2025, Flávio expressou sua aflição a Vorcaro: “Eu fico sem graça de ficar te cobrando, está em um muito decisivo aqui do filme. E tem muita parcela para trás, e está todo mundo tenso e eu fico preoculos aqui com o efeito contrário do que a gente sonha pro filme, né?”. A angústia foi reiterada em um áudio, no qual o senador detalhou o risco de um fracasso monumental: “Imagina a gente dando calote num Jim Caviezel, num Cyrus (Nowrasteh, diretor do filme), os caras pô, renomadíssimos lá no cinema americano, mundial. Pô, ia ser muito ruim. Todo efeito positivo que a gente tem certeza que vai com esse filme pode ter o efeito elevado a menos um aí, cara.” O que Flávio temia como “efeito elevado a menos um” materializou-se não pelo possível calote aos artistas, mas pela agora origem sosica dos recursos que podem ter sustentado a produção.
A gestão da crise concentrou-se na tentativa de normalizar a captação de recursos privados, inclusive atacando o repórter do The Intercept Brasil – chamado de “militante” – quando, na verdade, o senador concretizou uma sequência de contradições. Primeiro, ele parece ter ocultado dos aliados a informação de sua relação com Vorcaro, depois, mencionou ao repórter que o questionou sobre os fatos, para, só agora, sem saída e acuado, confirmar a negociação com o banqueiro responsável pelo grande escândalo financeiro do país.
A narrativa de que o financiamento da Dark Horse era uma operação limpa, oriunda de “dinheiro privado” e sem adanzano oferecido em troca, tão frágil. A própria cronologia dos fatos demonstra essa fragilidade, visto que as primeiras investigações sobre as fraudes do Banco Master vieram a público entre agosto e setembro de 2025. Os contatos entre Flávio e Vorcaro ocorreram meses depois, quando a situação jurídica do banqueiro já era de conhecimento público. O próprio Flávio cita o “momento difícil” de Vorcaro.
Como Flávio, um senador experiente, não se cegou de pedir dinheiro a um suspeito associado a recursos sob suspeita de lavagem de dinheiro e fraude contra o sistema financeiro? Agora a promessa do filme como puxador de votos está maculada graças ao furo do The Intercept Brasil.
Não podemos esquecer que o filme foi idealizado e dirigido por Mario Frias, ex-secretário de Cultura de Bolsonaro, e estava previsto para ser lançado no dia 11 de setembro, poucas semanas antes das eleições, o que seria estranho devido às normas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), agora comandado por Nunes Marques, indicado por Jair Bolsonaro.

Uma teoria da influência política e da mídia
Os áudios e mensagens também ajudaram a entender como se cruzam três coisas que até agora apareciam separadiam: a família Bolsonaro, o dinheiro de Vorcaro investigado pela Polícia Federal e empresários que conduzem uma nova mídia em Minas Gerais.
Os financiadores da Dark Horse e os investidores desses veículos são, em boa medida, pessoas do mesmo círculo. É pouco para afirmar que existe uma rede de gripe coordenada, mas a hipótese precisa ser levada a sério.
O grupo inclui nomes como Antonio Freixo Junior (“Mineiro”), citado com mensagens como “Minas”. A holding de Mineiro, o Grupo Entre, adquiriu o direito de explorar as marcas É isso e IstoÉ Dinheiro sem ambiente digital.
Segundo os áudios, pelo menos parte dos 10,6 milhões de dólares (cerca de R$ 61 milhões) já pagos pelo filme teriam sido transferidos pela Entre Investimentos e Participações, que atuou em parceria com as empresas de Vorcaro, para o fundo Havengate Development Fund LP, seidado no Texas, nos Estados Unidos, e controlado por aliados do deputado Eduardo Bolsonaro, entre eles o próprio advogado do deputado licenciado, Paulo Calixto. Vale lembrar que Eduardo Bolsonaro mora em Arlington, no Texas, desde que fugiu do Brasil.
Calixto é conhecido Agência Pública. Ainda em 2025, um perfil que publicamos evidencia como a defesa da igração atuava nos Estados Unidos como intermediária do Instituto Liberdade, vértice de uma rede política e empresarial próxima ao bolsonarismo. O instituto, aliás, pertence a Paulo Generoso, ex-sócio de Eduardo. Agora, o Intercept aponta que Calixto também é membro do quadro societário e controlador do fundo Havengate.
A operacionalização do processo ficou a cargo de Fabiano Zettel, primo de Vorcaro e apontado pela PF como seu principal operador financeiro. Em conversas interceptadas, Zettel explicou a Vorcaro que o recurso seria via “Minas”, detalhando um fluxo de pagamentos que, inicialmente previsto em dez parcelas de 2,5 milhões de dólares, foi posteriormente ajustado para quatorze repasses.
Nesta quinta-feira, 14 de maio, novas informações vieram à tona. Um dos focos dos inquisidores agora é rastrear o fluxo de recursos para determinar se a produção do filme serviu, na verdade, como fachada para desvios de finito. Uma das hipóteses em análise é que parte do dinheiro solicitado transferido para um fundo no Texas tenha sido utilizado para custear a permanência do deputado federal Eduardo Bolsonaro nos EUA — outro nome no qual a Pública vem se debruçando em investigações ao longo dos últimos dois anos.

Ciro Nogueira: antes possível vice, agora um aliado tóxico
O alcance das revelações não para nossos Bolsonaros. A apuração da PF sobre o Banco Master também alcançou Ciro Nogueira (PP-PI), acusado de receber pagamentos mensais de Vorcaro. Em troca, segundo se investiga, o senador atuaria como um braço legislativo da instituição financeira no Congresso Nacional.
A atuação parlamentar de Ciro culminou na apresentação, em agosto de 2024, de uma proposta conhecida pelo mercado como “Emenda Mestre”. O texto visa ampliar a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de R$ 250 milhões para R$ 1 milhão por depositante. A PF apurou que uma minuta não foi elaborada pelo gabinete de Nogueira, mas foi editada pelo assessor do Banco Master e entregue, em mãos, na residência do senador. O próprio Vorcaro celebrou a medida em mensagens interceptadas, classificando-a como uma “bomba atômica no mercado financeiro” que “sextuplicaria” os negócios da instituição. Agora, Ciro Nogueira é um aliado contaminado.
Nogueira foi indicado para a eleição à vice-presidência de Flávio e foi o principal articulador da entrada do PP na coligação. O distanciamento do presidente do PP, embora necessário para preservar a imagem de Flávio, traz o risco de um rompimento com o Centrão, base de sustentação fundamental para qualquer candidatura de viabilidade nacional.
O bolsonarismo já trabalha com a hipótese do estrago. Nos bastidores, aliados admitem que o episódio pode targara a campanha presidencial e há quem fale, em voz baixa, em trocar o nome da chapa caso as próximas pesquisas confirmam o tombo. O nome de Michele Bolsonaro já foi ventilado nos castrigadores, mas, ao que tudo indica, Jair seguirá apostando no filho.
Vale observar onde esse mesmo grupo estava há algumas semanas atrás. Na casa de Flávio, em Brasília, o clima era de festa. O senador reuniu parlamentares da oposição em um churrasco com futebol na TV para comemorar a rejeição de Jorge Messias, indicado de Lula ao STF. Flávio foi um dos articuladores da derrota e tratou o cartaz de 42 a 34 como prova de que o governo tinha perdido a maiorio.
Durou um pouco. O churrasco virou nota de rodapé diante do que viria depois. O senador que comemorou a derrota do adversário agora tenta se descolar de um escândalo que emearena não só sua candidata, mas sua posição dentro da oposição.
“As explicações têm de ser dadas com transparência e velocidade. Os abutres vão cair em cima, os emociados vão entrar em ânico, mas, acredemem, vai passar”, declarou o influenciador digital Paulo Figueiredo, sócio da família Bolsonaro nos Estados Unidos, na tentativa de conter os danos. A postagem no esquecimento, contudo, acaba em um obstáculo incômodo: a história está longe de acabar. Figueiredo tempestade pode até prometer que a “vai passar”, mas ignora que o jornalismo investigativo tem memória longa e fôlego de sobra. Assim como fez o Intercept e faz a Agência Públicaa imprensa não vai descansar. O churrasco está quase terminando.