Nos últimos anos, o lançamento de diversos medicamentos análogos de GLP-1 impulsionou um mercado bilionário. O movimento ampliou a busca por tratamentos contra obesidade e diabetes, mas também favoreceu o crescimento de um mercado paralelo e irregular. Apreensões de canetas emagrecedoras falsificadas foram realizadas pela Polícia Federal para tentar coibir essa prática. Até o início de abril, a Operação Heavy Pen tinha emitido 45 mandatos de busca e apreensão, além de 24 ações de fiscalização em 12 estados brasileiros, do Sul ao Norte do país.
Essa situação preocupa as autoridades. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) reconheceu que há um risco sanitário no país. No diagnóstico da agência, no território brasileiro coexistem produtos irregulares e sem registro sanitário, medicamentos falsificados, além de problemas na importação e na comercialização de produtos sem registro e de origem desconhecida. A manipulação é outro desafio, com empresas atuando em desacordo com as normas de boas práticas, com problemas no armazenamento e transporte e falhas de controle de qualidade e esterilidade, o que leva a risco de contaminação microbiológica.
Hoje, as principais moléculas agonistas de GLP-1 autorizados para uso e comercialização no Brasil são a semaglutida, a liraglutida e a tirzepatida, vendidas sob nomes comerciais como Ozempic, Wegovy, Poviztra, Saxenda, Mounjaro, Rybelsus e, mais recentemente, o Olire. Todos exigem prescrição médica para uso. Já nomes como TG, Tirzec, Slimex, Tirzedral, Lipoless e Retatrutida não estão autorizados no país, mas são encontrados em sites digitais e têm sido utilizados pela população sem garantia de qualidade, eficácia e segurança.
“Isso coloca a saúde do paciente em risco. Como é obtido de maneira ilegal, quem está prescrevendo não é, na maioria das vezes, o médico que acompanha o paciente, indicando a situação correta. O medicamento é muito bom quando usado de forma adequada”, alerta Flávia Coimbra, diretora da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).
No início de abril, a Anvisa apresentou um plano de combate a irregularidades desses produtos. Ao todo, são seis eixos de ação, com iniciativas voltadas ao aumento do monitoramento e da fiscalização, à articulação institucional, federativa e internacional, além da ampliação de oferta de produtos registrados, do fortalecimento da comunicação com a sociedade e do aprimoramento da governança.
Em paralelo, a agência avança na regulação da importação de Insumos Farmacêuticos Ativos (IFAs) agonistas e co‑agonistas do receptor GLP‑1/GIP destinados à manipulação magistral. A proposta que está sendo discutida pela diretoria prevê regras para a qualificação de fornecedores, realização de ensaios de controle de qualidade, estabilidade, armazenamento e transporte, entre outros pontos.
A Anvisa também começou a implantação do Plano de Ação de Farmacovigilância Ativa, considerando os riscos relacionados à aquisição de produtos pela internet e redes sociais, que podem ser falsificados ou de procedência duvidosa. Ela se diferencia da farmacovigilância feita até agora de forma espontânea. No formato tradicional, a maior parte das notificações é feita pelas empresas detentoras de registro e a agência reconhece as limitações desse processo, uma vez que tem baixa participação direta dos serviços de saúde e dificuldade de estabelecer causalidade e precisão das análises de segurança. Agora, na visão da agência, a farmacovigilância ativa em hospitais deve reunir um maior número de notificações com qualidade. Para o início da implantação do plano, a Anvisa reuniu cerca de 120 representantes de hospitais e serviços de saúde para contribuírem na identificação e investigação qualificada de eventos adversos. O piloto acontecerá em hospitais da Rede Sentinela, em hospitais universitários federais e demais instituições interessadas. O critério é ter capacidade assistencial e experiência em vigilância e segurança do paciente.
Esse pacote de ações aponta que a agência está atenta ao contexto do consumo irregular de GLP-1. Contudo, para fontes ouvidas pelo Futuro da Saúde, a fiscalização e competência no combate a essas irregularidades ainda deixam a desejar. “Infelizmente, essa capacidade é declaradamente insuficiente, considerando nosso território nacional ser extenso e a quantidade de pessoas para fazer esse tipo de análise”, comenta Bruno Leandro de Souza, presidente do Conselho Regional de Medicina da Paraíba e Conselheiro do Conselho Federal de Medicina (CFM). A diretora da SBEM vai na mesma linha ao afirmar que a entrada ilegal de produtos continua acontecendo, apesar das apreensões da PF.
Para o diretor médico da Eli Lilly no Brasil, Luiz André Magno, os produtos irregulares que entram no país não conseguem ser facilmente rastreados para entender como o produto foi fabricado. Ele conta que a farmacêutica já capturou alguns desses produtos e os submeteu para análise. Nelas, foi encontrada uma diversidade de substâncias, desde produtos rotulados como tirzepatida contendo semaglutida, até produtos com insulina e outros contaminados por diferentes bactérias e substâncias.
O caminho do mercado paralelo de GLP-1
A entrada de produtos irregulares no Brasil ocorre por diferentes meios. Para Fernando Aith, diretor do Centro de Pesquisas em Direito Sanitário da Universidade de São Paulo (USP), lacunas na regulação sanitária e na capacidade de fiscalização favorecem essa prática. Ele explica que outros países com regulação mais flexível conseguem copiar com facilidade produtos desenvolvidos por grandes farmacêuticas e vender a outras localidades.
No Brasil, uma brecha regulatória pode contribuir para esse cenário. De acordo Aith, a RDC nº 81/2008 da Anvisa, que traz definições sobre Produtos Importados para fins de Vigilância Sanitária, permite que indivíduos realizem a importação de produtos para uso pessoal mediante prescrição médica. “Sempre houve entrada de produtos que não são autorizados no Brasil. Com tirzepatida está acontecendo a mesma coisa”, pontua.
Essa regulação serve para atender uma necessidade específica de pacientes, mas é utilizada para alimentar um mercado paralelo, afirma o diretor. Ele considera o controle da Anvisa limitado nesses casos. Por mais que uma parte dos produtos importados seja analisada, estima-se que uma proporção muito maior esteja entrando no território sem passar por essa fiscalização. O resultado se reverte em riscos ao consumidor, adverte Aith.
Para ele, a alternativa é reforçar a capacidade de controle de importações irregulares, identificando a fonte e fazendo um combate disso junto às autoridades sanitárias de outros países. O trabalho envolve vigilâncias locais, municípios e estados. Ele explica que a ação na ponta, junto da atuação da Polícia Federal, precisa estar articulada para identificar os caminhos que esses produtos têm feito para chegar até a população. “Uma vez que passou a fronteira, a Polícia Federal e a Anvisa já perdem a sua capacidade. Quem fiscaliza é a vigilância sanitária do estado ou do município, que é bem descentralizado e que nem sempre vai ter capacidade de entender se aquela caneta é original ou falsificada”, comenta.
Contatada, a Anvisa afirma que “a única hipótese admitida de importação de um medicamento não aprovado no Brasil é a importação excepcional, por pessoa física, para fins de tratamento da própria saúde. Porém para medicamentos com proibição específica publicada pela Anvisa, fica vedada automaticamente qualquer forma de entrada”. É o que tem ocorrido, segundo a agência, com canetas antiobesidade sem registro no país.
A ação da Anvisa também tem sido impactada por pressão política. No Congresso Nacional, tramitam projetos que visam flexibilizar e até quebrar a patente de medicamentos de GLP-1. É o exemplo do Projeto de Lei nº 160, de 2026, que dispõe sobre a adoção de licenciamento compulsório da tirzepatida, sua produção no Brasil e medidas de acesso ao tratamento da obesidade. O projeto aguarda despacho no Senado. De autoria da senadora Eudócia (PL/AL), o texto prevê a exploração da patente pelo poder público e por terceiros autorizados, adotando a licença compulsória como um instrumento para permitir a produção local, baixar o preço e ampliar o acesso à população que necessita do medicamento. A justificativa, segundo o texto da senadora, é que esse instrumento é legítimo em caso de insuficiência de oferta, altos preços e impacto relevante na saúde pública. Segundo Aith, em vista desse cenário político, a solução encontrada pela Anvisa foi a de atualizar a regulação em torno da manipulação como uma forma de gerir um acesso ao produto, mas ainda garantindo segurança sanitária.
O contrabando de GLP-1 e novos produtos do Paraguai
Outro elo de entrada dos produtos no país é o contrabando que surge de diferentes rotas, entre elas, o Paraguai. Naquele país, uma série de produtos têm sido vendidos como agonistas de GLP-1 para tratamento de obesidade. Um deles é a retatrutida, um agonista triplo dos receptores hormonais GIP, GLP-1 e glucagon, o primeiro de sua classe, para uso de adultos com obesidade ou sobrepeso e osteoartrite do joelho, sem diabetes. A substância se encontra em estudo clínico de Fase 3 pela Eli Lilly (TRIUMPH-4) e não está licenciada em nenhuma parte do mundo, devido ao seu caráter preliminar nos estudos.
Segundo os resultados já divulgados pela empresa farmacêutica norte-americana, em um estudo global de registro, 84% dos participantes atingiram os objetivos primários e secundários principais do uso, com perda de peso significativa e melhorias na dor e na função física em 68 semanas. Como um desfecho coprimário, a retatrutida reduziu o peso em até uma média de 28,7%, além de redução de dores. O produto é avaliado em doses de 9 e 12mg.
Para comercialização do medicamento, é necessário ainda todo o processo de conclusão dos estudos, registros sanitários e afins. Contudo, no Paraguai, produtos rotulados como retatrutida já foram anunciados. Em fevereiro, o laboratório paraguaio Eticos lançou um produto chamado ReduFast, em evento com a presença de diversos influenciadores digitais brasileiros. Após polêmica sobre o evento, em comunicado oficial, o laboratório alega que tem como compromisso oferecer acesso a tratamentos inovadores à população paraguaia e afirma que nenhum produto farmacêutico será lançado no mercado sem antes obter a aprovação das autoridades regulatórias internacionais competentes. Ressalta, ainda, que todos os produtos passam por processo de pesquisa, desenvolvimento e controle de qualidade. No site oficial da empresa, atualmente não há indicação de desenvolvimento do medicamento. O laboratório também produz o Lipoless e o Slimex.
Outros tipos de produto rotulados como retatrutida surgem nesse cenário. De marca Synedica, o Alluvi Retatrutide é vendido na internet em quatro canetas pré-preenchidas com doses de 10mg. Os valores são a partir de R$ 2 mil. Segundo o site, o estoque vem da Europa e América do Norte, e chega por meio dos correios de forma totalmente rastreável e “segura”.
O diretor médico da Eli Lilly esclarece que a farmacêutica não iniciou a produção do medicamento a nível industrial e não fez submissão regulatória em nenhum país do mundo até o momento. “Qualquer retatrutida que está sendo trazida hoje, com certeza não tem nenhuma forma de dizer que é o produto investigado pela Lilly nesse momento”, declara.
A agência reguladora do Paraguai, a Dinavisa (Dirección Nacional de Vigilancia Sanitaria), tem emitido alertas de risco sanitário. O órgão aconselha que a população verifique se os medicamentos ou tratamentos possuem registro sanitário autorizado pela Dinavisa, visível na embalagem dos produtos. Também, que sejam consultados os profissionais de saúde qualificados para tratar condições como obesidade ou distúrbios metabólicos.
A reportagem tentou contato com os Laboratórios Catedral e Éticos e com a agência sanitária do Paraguai, a Dinavisa, para mais esclarecimentos. Nenhum deles retornou ao contato até a publicação deste texto.
Em nota, a Polícia Federal afirma que tem desenvolvido ações que compreendem atividades de inteligência, fiscalização, repressão qualificada e investigação criminal, com especial atenção às rotas fronteiriças, portos, aeroportos e centros de distribuição, frequentemente utilizados para a internalização irregular de medicamentos sem autorização dos órgãos competentes. A instituição também reconhece o aumento expressivo de apreensões de canetas emagrecedoras.
De acordo com os dados da PF, as apreensões de medicamentos de uso humano, classificados como emagrecedores, apresentaram um salto entre 2024 e 2025. Em 2024, 609 unidades foram apreendidas. No ano seguinte, foram mais de 60 mil unidades. Até o final de abril de 2026, haviam sido apreendidas 79.168 unidades, incluindo produtos contendo tirzepatida e outros medicamentos emagrecedores.
Plataformas digitais, anúncios e prescrição indevida
Em plataformas digitais como o Facebook e o WhatsApp, se multiplicam os anúncios de produtos não registrados com a promessa de perda de peso. Em grupos de WhatsApp, a venda pode ser presencialmente ou pelo envio dos produtos pelo território. Indivíduos utilizam as plataformas para compartilhar os efeitos obtidos pelos produtos e pedir orientações de outros usuários para o uso desses produtos rotulados como semaglutida, tirzepatida e, até mesmo, retatrutida.
Por meio de grupos privados e públicos no Facebook, usuários compartilham a experiência com medicamentos como TG, Tirzec e Lipoless. Um usuário do Facebook alega tomar, de maneira intercalada, TG e Lipoless. Outros discutem que preferem uma formulação à outra.
Para a diretora da SBEM, os medicamentos de GLP-1 têm alimentado um desejo de grande parte da população pela redução de peso. Essas pessoas geralmente não possuem acesso ao medicamento registrado, que apresenta valores alto de cerca de R$ 1 a 2 mil. Por isso, muitas buscam formas alternativas de adquirir esses medicamentos por vias não autorizadas. Pessoas compartilham nos grupos o contato de fornecedores enquanto outros relatam que têm ido até outros países fronteiriços para obtenção dos medicamentos.
Neste contexto, a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) emitiu um comunicado advertindo os riscos da compra de produtos por canais não oficiais. Segundo a organização, esses produtos podem conter doses incorretas, princípios ativos diferentes ou ingredientes não declarados, o que pode resultar em falha terapêutica, reações adversas graves e outras complicações, além de gerar custos adicionais para os pacientes e os sistemas de saúde. “O uso com fins exclusivamente estéticos, sem uma avaliação clínica integral nem indicação médica, pode expor as pessoas a riscos desnecessários e desviar recursos destinados àquelas que apresentam indicações médicas claras”, pontua.
A Anvisa reforça que, para a manipulação de produtos injetáveis, como as canetas, a garantia de padrões rígidos de esterilidade e pureza do insumo é fundamental para garantir a segurança desses produtos para as pessoas. A agência adverte, ainda, para riscos sanitários quanto à qualidade desses produtos e a utilização de insumos farmacêuticos sem identificação de origem e composição.
O uso off-label de medicamentos de GLP-1 também tem preocupado a autoridade sanitária, que alerta para o risco de eventos adversos graves como pancreatite aguda, que pode evoluir para um quadro necrotizante e fatal. Segundo a Anvisa, entre 2020 e dezembro de 2025, cerca de 150 notificações de suspeitas de eventos adversos foram registradas no país. Entre elas, estão seis suspeitas de casos com desfecho de óbito.
No ano passado, a agência europeia EMA (European Medicines Agency), junto da Heads of Medicines Agencies (HMA), emitiu um alerta sobre a crescente ameaça de medicamentos ilegais anunciados e vendidos online. Segundo as autoridades, os sites e anúncios em redes sociais são monitorados e passam por medida de fiscalização, incluindo o recolhimento de produtos, o bloqueio de sites e a colaboração transfronteiriça com agentes da lei e outros parceiros internacionais. Como maneira de garantir compras online seguras, a EMA introduziu um logotipo comum que aparece nos sites de todas as farmácias e vendedores online registados. Ao clicar no desenho, os compradores são redirecionados a um registro nacional de vendedores autorizados de medicamentos legítimos da região.
Nos Estados Unidos, a estratégia foi semelhante. Em comunicado, a FDA recomenda que a população obtenha medicamentos somente em farmácias licenciadas pelo estado.
Além de anúncios de produtos, há também a divulgação de serviços, como a venda de prescrição médica nesses meios digitais. A situação tem preocupado as autoridades responsáveis pela prática médica. Segundo Bruno Leandro de Souza, conselheiro do CFM pelo estado da Paraíba, já foram registrados casos de prescrição médica da retatrutida. “Com o advento das mídias sociais, é mais comum que enxergamos indícios de infração e isso tem, sim, ampliado”, expõe. Segundo ele, todas as denúncias são avaliadas pelos respectivos conselhos regionais. Já infrações éticas ficam a cargo do CFM, como um recurso de última instância. Nas sindicâncias, caso seja verificado algum erro na prática profissional, se aplicam penalidades, que podem variar da advertência, suspensão até a cassação do registro médico.
Entre as práticas incorretas, o médico não pode estimular uma produção industrial de medicamentos manipulados para armazenar na sua clínica e essa medicação manipulada ser distribuída para pacientes distintos. “Se o médico está prescrevendo fora do que é recomendável, canetas que não são legalizadas ou produtos manipulados em escala industrial, esse médico precisa ser investigado através de um processo de sindicância para ser penalizado”, pontua Souza, que fala que uma iniciativa entre o conselho e a Anvisa foi iniciada para verificar prescrições indevidas.
Todo indivíduo que deseja realizar uma denúncia de conduta médica indevida pode fazer por meio dos canais oficiais do CFM. Para isso, é necessário apresentar elementos que comprovem a má prática. Segundo o conselheiro, esse tem se mostrado um dos desafios para o prosseguimento da análise dos casos.
A manipulação de GLP-1
O mercado de GLP-1 também se desenvolve a partir da manipulação. Em agosto de 2025, a Anvisa proibiu a manipulação da semaglutida, mas continua a permitir a da tirzepatida. A atuação dessas farmácias é regulamentada pela RDC nº 67, de 2007, que dispõe sobre boas práticas de manipulação de preparações magistrais. O processo envolve um pedido via prescrição de profissional habilitado, destinada a um paciente individualizado, e que estabeleça em detalhes sua composição, forma farmacêutica, posologia e modo de usar.
Nas normas, está descrito que, caso comprovada a inexistência de um produto no mercado e justificada tecnicamente a necessidade da manipulação, a farmácia poderá ser contratada por estabelecimentos hospitalares e congêneres. Nesse caso, o atendimento não individualizado seria autorizado para atender requisições de profissionais habilitados, de preparações utilizadas na atividade clínica para uso exclusivo do estabelecimento.
Para Luiz André Magno, da Lilly, essa normativa tem sido utilizada para criar um mercado de produto manipulado irregular. Nos últimos anos, houve um aumento expressivo da importação do Insumo Farmacêutico Ativo (IFA) de GLP-1. A tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, por exemplo, teve mais de 100 kg importados de novembro de 2025 a abril de 2026. Essa quantidade é o equivalente para uma produção de cerca de 20 milhões de doses de 5 mg do medicamento. Em março, 14 pedidos de importação foram negados por falhas no controle de qualidade pela Anvisa. “Claramente não está atendendo a uma necessidade específica. Esse mercado tem se aproveitando e importado o insumo pelos canais regulares”, pontua.
O diretor médico também critica clínicas que exploram esse ambiente como um modelo de negócio para a venda de medicamentos de GLP-1 manipulados. Ele defende que o composto não deveria ser trabalhado dentro do ambiente magistral por conta da tecnologia que está por trás da produção do medicamento. “Está claro que temos à frente um risco sanitário gigantesco. Além dos problemas agudos, porque não tem rastreabilidade, não sabemos quem está tomando o quê, de onde vem, temos problemas que aparecerão daqui a um tempo”, comenta. Segundo ele, existe um risco desses produtos desconhecidos gerarem respostas imunológicas não previstas.
Para a diretora da SBEM, a bioequivalência é algo que preocupa pois não há estudos com as substâncias manipuladas para assegurar a eficácia e segurança das doses. “É um problema, essa brecha analítica acontece porque foi uma lei anterior a esse tipo de produto. Hoje isso precisa ser revisto pela Anvisa, para que se consiga entender como isso poderia ser feito de uma maneira legal, garantindo a eficácia, a qualidade do produto e tudo mais.”
A gerência-geral de Medicamentos (GGMED) da Anvisa já reconheceu formalmente que peptídeos – a composição da tirzepatida – têm requisitos específicos mais complexos que outros medicamentos sintéticos. Em nota enviada em resposta à Eli Lilly, a gerência descreve que, no caso de peptídeos, é esperado que sejam enviados dados “de caracterização da estrutura primária (sequência de aminoácidos), secundária (como a molécula se organiza no espaço tridimensional), definição de estado de oligômeros e agregados (devido a este fenômeno característico de peptídeos) e atividade biológica (por estudos in vitro ou em animais)”. Hoje, a minuta em discussão pela Anvisa não prevê a exigência de todas essas etapas de caracterização, limitando-se apenas à primeira. Uma possível alteração também não foi mencionada até o momento pela diretoria.
A manipulação tem se estabelecido como uma prática para acesso até em prefeituras municipais. Em Urupês, no interior de São Paulo, um pregão eletrônico foi aberto para a compra de 12 mil unidades de tirzepatida manipulada. De acordo com o documento, por cada dose seria pago o valor de R$ 17,20. No total, seria mais de R$ 200 mil gastos do orçamento público. O medicamento faz parte de um protocolo municipal para dispensação, autorização e acompanhamento do uso da tirzepatida no tratamento da obesidade pelo SUS. A iniciativa foi iniciada em fevereiro de 2026. “As pessoas acham normal fazer compra pública de um produto que não foi registrado, submeter uma população a uma política de saúde de um produto que não teve avaliação da agência de segurança sanitária”, pontua o diretor médico da Eli Lilly.
Contatada, a prefeitura de Urupês afirma que, no referido pregão, as duas primeiras empresas colocadas desistiram das propostas oferecidas e a terceira ofereceu um preço maior do que a estimativa aferida, não sendo permitida a contratação. Com isso, o processo foi considerado fracassado. Agora, a prefeitura abriu um chamamento público para credenciamento de pessoas jurídicas para prestação de serviços especializados de manipulação farmacêutica, compreendendo a preparação e o fornecimento de medicamentos à base de tirzepatida, mediante prescrição médica individualizada, visando atender às demandas da rede pública municipal de saúde.
“A aplicação do fármaco é realizada de acordo com receitas individualizadas, por profissionais de saúde, diretamente na unidade de saúde, como parte de um acompanhamento médico multidisciplinar que envolve nutricionista, psicólogo, educador físico e endocrinologista”, diz a prefeitura. Em nota, detalha que o tratamento no município é destinado a pessoas em situação de vulnerabilidade social, que não possuem condições de adquirir o fármaco e o tratamento médico complementar pela rede privada. A prefeitura de Urupês também comenta que os pacientes precisam atender a requisitos de idade e/ou de Índice de Massa Corpórea (IMC) elevado igual ou superior a 30 kg/m² e, inicialmente, apenas pessoas inclusas em lista de espera por cirurgia bariátrica que estão recebendo o tratamento.
Em nota, a Associação Nacional de Farmacêuticos Magistrais (Anfarmag) reforça o compromisso das farmácias magistrais com a legalidade e a saúde pública, e não compactua com eventuais irregularidades que coloquem a sociedade em risco ou que não beneficiem a população. A associação informa que as farmácias de manipulação são estabelecimentos de saúde legalmente autorizados a preparar fórmulas personalizadas para atender às necessidades específicas de cada paciente e, por isso, são manipuladas uma a uma, sob medida e de forma individualizada, sempre a partir de uma prescrição de um profissional de saúde. Produtos vendidos como “manipulados”, mas que são preparados em escala, não podem ser considerados medicamentos manipulados, aponta. A Anfarmag destaca, ainda, a importância dos órgãos de fiscalização na identificação de desvios para coibir práticas indevidas.
As ações em discussão pela Anvisa
Em maio, a Anvisa realizou as primeiras reuniões para debater a instrução normativa para regular a importação de IFAs de agonistas e co‑agonistas do receptor GLP‑1/GIP destinados à manipulação magistral. A norma começou a ser apreciada em reunião ordinária da diretoria no dia 6 de maio, com pedido de vista do processo por um dos diretores. O tema deve voltar em breve nas reuniões da agência.
A maior preocupação de parte do setor é devido à complexidade desses medicamentos e à manipulação de substâncias complexas que exigem controle de qualidade, estabilidade, rastreabilidade e farmacovigilância ao longo de toda a cadeia. Hoje, a minuta em discussão prevê que a manipulação de GLP-1 deve passar por uma análise dos insumos, bem como retenção dos lotes importados até liberação técnica, a exigência de certificados de boas práticas para fabricantes e importadores, a realização de ensaios laboratoriais e monitoramento obrigatório de eventos adversos. Para essa parcela do setor, ainda são necessárias regras mais rígidas para garantir a proteção dos pacientes.
De outro lado, representantes do setor magistral e de farmácia se mostram favoráveis à manutenção da manipulação, porém ainda possuem críticas quanto à minuta apresentada, defendendo que a área já possui critérios muito rígidos de controle de qualidade da produção. De acordo com representantes, essas regras podem restringir o mercado de manipulação e favorecer a vinda de medicamentos falsificados do Paraguai.
Em abril, a FDA anunciou uma proposta para excluir a semaglutida, tirzepatida e liraglutida da lista de substâncias controladas do país. Ser considerado dentro da lista de substâncias controladas significa que, devido a uma necessidade clínica, a produção pode ser terceirizada a partir de suas matérias-primas. Segundo o comissário da FDA, não há necessidade de terceirização da produção desses compostos e, por isso, sua manipulação fica proibida. A medida está em consulta pública até junho.
No Brasil, a Anvisa deve continuar com o plano de combate a irregularidades no mercado de GLP-1. Junto da apreciação do tema de manipulação de GLP-1 no país, o calendário divulgado pela agência contempla o lançamento de novos instrumentos para avaliação mais precisa e aumento de fiscalização das farmácias e de importadoras.
Em nota, entidades representativas da indústria, dos distribuidores e do varejo farmacêuticos manifestaram apoio à ação da Anvisa e da Polícia Federal no combate à produção, importação e comercialização irregular de medicamentos agonistas do receptor do GLP-1. “Não se trata de ‘sufocar’ ou ‘retaliar’ nenhum setor. Trata-se de proteger vidas”, diz a nota, assinada pela Abafarma, Abcfarma, Abifina, Abiquifi, Abifisa, Abradilan, Abradimex, Abrasp, Abrafarma, Acessa, Alanac, Febrafar, Grupo FarmaBrasil, Interfarma, PróGenéricos, Sindicis, Sindifargo, Sindusfarma e Sinfar-RJ. E acrescenta: “Quem opera dentro da legalidade não tem o que temer da fiscalização; ao contrário, deveria exigi-la.”