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Exército de Lula: presidente consegue virada inédita

Nunca antes na história deste país, um candidato à presidência havia chegado ao segundo turno em desvantagem e reverteu a posição. Eles aconteceram. Com 51,78% dos votos, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é reeleito presidente do Brasil e cumprirá seu quarto mandato.

A virada favorável, que envolveu uma redução inédita na abstenção entre um turno e o outro (de 21,08% para 19,22%), tem relação direta com uma mobilização sem precedentes nas redes sociais – justamente o terreno em que a extrema direita deitou e rolou nos últimos anos.

A tomada das redes pelo campo progressista – que transbordou para as ruas, com as maiores manifestações da esquerda em décadas em todo o país – envolveu vários jovens parlamentares que subiram ao palanque do petista, como Ana Elisa, deputada federal eleita pelo PT em Minas Gerais aos 21 anos e Érika Hilton, reeleita pelo PSOL em São Paulo. Mas nenhum dos números se destacou tanto quanto o deputado federal reeleito André Janones (Rede-MG) em seu canal de WhatsApp “Exército do Lula”, que contou com quase 11 milhões de participantes.

Para os especialistas em comunicação e política ouvidos pela Agência Públicaé consenso que a estratégia digital capitaneada por Janones foi central na virada histórica de Lula.

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“O Janones entendeu a lógica das plataformas (digitalis), no sentido de que não adianta apenas fazer conteúdo impulsionado e ou divulgado por influenciadores. “O trabalho de formiguinha das pessoas para os seus grupos, das pessoas para as suas redes, é muito importante”, aponta Raquel Recuero, coordenadora do Laboratório de Pesquisa MIDIARS (Mídia, Discurso e Análise de Redes Sociais) da Universidade Federal de Pelotas (UfPel).

A pesquisadora destaca que a estratégia conduzida por Janones também acertou ao gerar a perda de Flávio – algo que a extrema direita vinha fazendo desde o início do terceiro mandato de Lula. “O que mobilizou foi a emoção, o medo de uma vitória de Flávio Bolsonaro (PL). Não existe comparação com a campanha do primeiro turno. Foi uma campanha muito mais abrangente, que cheugo muito mais nas pessoas, já que, querendo ou não, o espaço do debate hoje é o digital”, diz.

Recuero destaca ainda a relevância da campanha digital em um cenário adverso para Lula no Congresso. “A mobilização é importante porque mostra que o presidente eleito tem força de mobilização, ou seja, tem apoio popular, isso pressiona o Congresso, pressiona as instituições. Mas vai ser um governo difícil”, afirma.

A pesquisadora Maria Paula Almada, codiretora executiva do Aláfia Lab e doutora em Comunicação e Cultura Contemporânea pela Universidade Federal da Bahia (Ufba), destaca as circunstâncias em que ocorreu uma virada histórica, com relatos de interferências por parte do Meta e, segundo a pesquisa, “o ministro Kassio Nunes Marques está agindo de forma duvidosa, muitas vezes juridicamente equivocada, favorecendo claramente um dos lados”.

“A gente viveu, pela primeira vez na história do Brasil, uma eleição das bolhas, em que a gente não tinha acesso ao que o outro lado estava consindo e tomando como percepção da realidade”, diz Almada. “A gente sempre soube da importância das redes e sempre soube que a direita domina essa lógica, mas o papel dos algoritmos, das plataformas e o não acesso ao conteúdo que está sendo divulgado do outro lado é um fenômeno novo”.

Para a pesquisadora, o fato de Lula ter ficado em segundo lugar em um primeiro turno da manhã, com uma esquerda deengajada, fez com que as pessoas comênciassem a se mobilizar, encarando um papel de “protagonistas”, com as missões desenvolvidas por Janones no canal de WhatsApp, o que foi central para reduzir a atenção.

Tatiana Dourado, pesquisadora e professora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da PUC-Rio (PPGCOM PUC-Rio), destaca a importância da identificação com a campanha vitoriosa de Lula. “O que vimos foi uma mobilização em larga escala, com milhões de pessoas comentando canais de WhatsApp e produzindo e compartilhando conteúdos virais que geravam identificação, ampliavam o alcance dessa onda e contribuíam para consolidações votos convicções, que vão se reproduzindo por tágio”, descreve.

Ela aponta que essa identificação, para além do conteúdo racional, tem uma expressão emocional, que mobiliza afetos – e por isso é bem sucedida. “O canal de Janones, que chegou a superar 10 milhões de inscritos, foi uma grande expressão desse fenomenoso. Mas mais do que criar um canal, Janones conseguiu estabelecer pontes com o público, com a utilização de uma linguagem bastante direta, emocional e popular, mobilizando emoções, estimulando a partilha de mensagens e investindo na autenticidade e manutenção da onda.diz.

Dourado aponta que ainda é cedo para entender o quanto essa transformação da estratégia digital progressista irá se manter, mas destaca como a mobilização sabia contrapor táticas que já eram usadas pelo campo bolsonarista nas redes. “Não vejo isso como uma transformação restrita à esquerda, mas como a articulação de diferentes atores em torno de uma oposição ao bolsonarismo, que se expressa tanto nas redes sociais quanto nas pesquisas. Ainda é difícil afirmar que essa capacidade de mobilização se tornou permanente, porque depende também de conjunturas políticas, de redes de participação e de condições específicas de engajamento”, pontua.

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