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Estresse tóxico na infância aumenta o risco de doenças crônicas e transtornos mentais no futuro

Os primeiros anos de uma criança impactam a sua vida por décadas. É nessa fase que acontece o desenvolvimento físico, cognitivo e emocional, e crescer em um ambiente saudável, seguro e acolhedor é fundamental para que isso ocorra de forma adequada. 

Por outro lado, situações de estresse extremo vivenciadas na primeira infância afetam diretamente o desenvolvimento e tornam a criança mais vulnerável ao aparecimento de diversas doenças ao longo da vida — é o chamado estresse tóxico.

“No estresse tóxico, ocorre uma ativação persistente dos sistemas biológicos de resposta ao estresse, com manutenção de níveis elevados de cortisol e de outros mediadores hormonais. Esse processo interfere na formação das conexões neurais e no desenvolvimento normal do cérebro, especialmente quando ocorre nos primeiros anos de vida”, explica Fernando Lamano Ferreira, pediatra e presidente do Núcleo de Estudos de Saúde Mental da Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP).

 

Quando o estresse é tóxico?

Nem todo estresse é ruim. O estresse na infância pode ser classificado como positivo, tolerável ou tóxico. Entenda as diferenças: 

 

Estresse positivo

É normal e necessário para um desenvolvimento saudável. Esse tipo está associado a situações de baixa intensidade e/ou curta duração, causando um aumento transitório da frequência cardíaca e pequenas alterações hormonais que ajudam a criança a desenvolver habilidades de adaptação e resiliência. 

Exemplos: pequenas frustrações do dia a dia; adaptação bem sucedida à escola; momento em que os pais soltam a mão no aprendizado da natação; aplicação de vacinas.

 

Estresse tolerável

É um estresse mais intenso ou prolongado, que ativa de maneira mais importante os sistemas de alerta do organismo e pode representar risco para o desenvolvimento cerebral. Porém, quando a criança conta com relacionamentos seguros, estáveis e afetivos, o suporte reduz significativamente os impactos negativos do estresse. 

Exemplos: doença de um familiar; separação dos pais (conduzida de forma respeitosa e sem conflitos intensos); vivenciar um desastre natural; se machucar de forma mais severa. 

 

Estresse tóxico

O estresse tóxico acontece quando a criança passa por adversidades intensas, frequentes e/ou prolongadas sem o suporte de um adulto cuidador. Nesse caso, podem ocorrer alterações significativas no desenvolvimento neuropsicomotor, além de aumento do risco de doenças físicas e transtornos mentais ao longo da vida. 

Exemplos: maus-tratos; abuso físico, emocional ou sexual; negligência crônica; violência doméstica; bullying; dependência química na família; pobreza extrema.

 

“Vale destacar que essa classificação se refere muito mais à forma como a criança responde ao estresse do que propriamente ao evento estressor em si. O mesmo acontecimento pode ser vivido como um estresse tolerável por uma criança e como um estresse tóxico por outra, dependendo da intensidade da exposição, da duração e, principalmente, da qualidade do suporte oferecido pelos adultos”, afirma o médico. 

Veja também: Quais são os impactos da violência física na infância?

 

Consequências do estresse tóxico

Segundo Arianne Angelelli, psiquiatra infantil e da adolescência e vice-presidente do mesmo Núcleo de Estudos de Saúde Mental da SPSP, as principais consequências do estresse tóxico decorrem da ativação prolongada dos sistemas de resposta ao estresse da criança e das alterações epigenéticas ligadas a essa ativação. 

“Quando ocorre o estresse tóxico, tanto o sistema neuroendócrino quanto o sistema imunológico, que atuam em sinergia para garantir o equilíbrio do organismo, passam a apresentar sinais de sobrecarga ou descompensação, o que aumenta o risco de várias doenças tanto na infância quanto no futuro”, detalha.

Crianças expostas a isso apresentam maior vulnerabilidade ao desenvolvimento de doenças crônicas como hipertensão arterial, obesidade, diabetes, doenças pulmonares, cardiopatia isquêmica, acidente vascular cerebral (AVC) e doenças autoimunes.

Mas os efeitos vão além da saúde física. 

“O estresse tóxico [também] é um fator de risco para várias doenças psiquiátricas, inclusive a depressão e o abuso de substâncias na vida adulta, e pode prejudicar o desenvolvimento cerebral, a memória, a aprendizagem e o comportamento ao longo da vida”, afirma Angelelli.

Há ainda maior risco de transtornos de ansiedade, transtornos de personalidade, transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) e transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH).

 

O que os pais e cuidadores podem fazer?

O principal fator de proteção contra o estresse tóxico é a presença de pelo menos um adulto capaz de oferecer uma relação estável, segura, afetiva e responsiva. “Pais e cuidadores devem proporcionar acolhimento emocional, escuta ativa, previsibilidade na rotina e um ambiente em que a criança se sinta protegida. Também é importante validar seus sentimentos, ajudá-la a compreender situações difíceis de maneira compatível com sua idade e evitar exposição contínua a conflitos familiares, violência e outras experiências adversas”, explica Ferreira.

A atitude dos cuidadores pode ser determinante no sentido de amenizar ou agravar os efeitos do estresse tóxico. 

“Se viver com pais abusivos, violentos ou negligentes pode levar a alterações perenes do desenvolvimento, quando a criança conta com um ambiente estável e adultos protetores, ela recebe um bom modelo para o enfrentamento do estresse e adquire a capacidade de lidar com as emoções durante a vida adulta”, destaca Angelelli.

Outro ponto importante é observar os sinais de sofrimento emocional. Embora não existam manifestações específicas do estresse tóxico, mudanças importantes de comportamento podem servir de alerta para buscar avaliação profissional. Os sinais que merecem atenção incluem: 

  • aumento da agressividade;
  • isolamento;
  • alterações do sono e do apetite;
  • enurese noturna (perda involuntário de xixi durante o sono);
  • queda do rendimento escolar;
  • perda da autoestima;
  • sensação de incapacidade. 

“Também é importante lembrar que cuidar da saúde mental dos próprios pais e cuidadores é uma forma de proteger a criança, já que o equilíbrio emocional dos adultos influencia diretamente sua capacidade de oferecer suporte adequado”, orienta o pediatra. 

 

Políticas públicas para a prevenção do estresse tóxico

“A prevenção do estresse tóxico na infância exige uma abordagem sistêmica, pois é comum que crianças expostas vivam em ambientes de relativo desamparo em que os próprios pais ou cuidadores podem estar contribuindo direta ou indiretamente para essa situação”, afirma a psiquiatra.

Por isso, na visão dela, toda estratégia social que envolva o combate às desigualdades estruturais e à violência, o fortalecimento dos vínculos familiares e a promoção de redes de suporte psicossocial tende a proteger os mais vulneráveis das situações de abuso ou negligência.

O pediatra vai na mesma linha e destaca que a prevenção exige uma atuação integrada entre saúde, educação, assistência social e justiça. 

Entre as principais estratégias mencionadas pelos especialistas, estão: 

  • fortalecimento da atenção primária à saúde e da atenção à primeira infância (período considerado especialmente sensível às influências ambientais e às modificações epigenéticas);
  • promoção da parentalidade positiva desde a gestação;
  • programas de visitas domiciliares para famílias em situação de vulnerabilidade;
  • identificação precoce de violência, negligência e sofrimento psíquico;
  • garantia de acesso aos serviços de saúde mental;
  • capacitação dos profissionais de saúde — especialmente pediatras, educadores e pessoas que lidam diretamente com crianças.

Ele destaca que também são fundamentais políticas públicas voltadas para a redução da pobreza, da insegurança alimentar e das desigualdades sociais, bem como ações de prevenção da violência doméstica, do abuso infantil e do bullying.

“Investir na primeira infância é uma das estratégias com maior impacto na promoção da saúde ao longo da vida e na redução de doenças físicas, transtornos mentais e desigualdades futuras. A prevenção do estresse tóxico não é responsabilidade exclusiva da família, mas de toda a sociedade”, conclui Ferreira.

Veja também: Por que as crianças precisam brincar?

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