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Entre o descaso e o perigo constante

Um ano após o acidente com incêndio que transformou o Morro dos Cavalos, na BR-101, em um cenário de caos e destruição, a pergunta que permanece é incômoda: o que, de fato, mudou?

A resposta, infelizmente, é quase nada. O episódio de abril de 2025 não foi apenas uma tragédia isolada, mas a evidência brutal de um problema antigo, conhecido e negligenciado pelo Poder Público.

A ausência de acostamento em um dos trechos mais críticos da BR-101 não é um detalhe técnico, é uma falha estrutural grave, que amplia riscos, dificulta o socorro e potencializa tragédias.

Não por acaso, o próprio atendimento à ocorrência foi comprometido, com equipes de resgate impedidas de avançar em meio a quilômetros de veículos parados. Quando o acesso de socorro depende de improvisos, como a remoção de barreiras e desvios por áreas não planejadas, o que se vê é ineficiência e abandono.

O histórico do trecho escancara o problema. A decisão de entregar a duplicação da rodovia sem acostamento, ainda nos anos 1990, cobra seu preço até hoje, e com juros altos. Some-se a isso a fragilidade geológica da região, com encostas instáveis e alto risco de deslizamentos, e tem-se um cenário onde qualquer incidente ganha proporções descontroladas. Não se trata de fatalidade, mas de previsibilidade ignorada.

É verdade que houve redução no número de acidentes nos últimos anos, reflexo de ações de fiscalização e conscientização. Mas os números, por si só, não resolvem o problema central.

Sete acidentes e uma morte apenas nos primeiros meses deste ano são suficientes para lembrar que o risco segue presente, e ativo. Celebrar a queda estatística sem enfrentar a raiz da vulnerabilidade é, no mínimo, complacente.

O mais alarmante é a naturalização desse quadro. Motoristas continuam expostos diariamente a um trecho que combina falhas de engenharia, limitações operacionais e riscos ambientais elevados.

E, ainda assim, a solução definitiva segue fora do horizonte, como se a repetição de tragédias fosse aceitável dentro de uma lógica burocrática que avança em ritmo incompatível com a urgência do problema.

O Morro dos Cavalos não precisa de mais diagnósticos, eles já foram feitos, repetidas vezes. Precisa de decisão política, investimento e prioridade. Enquanto isso não ocorre, cada viagem pelo trecho carrega consigo um risco que poderia, e deveria, ter sido evitado.

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