entre mitos e uma realidade complexa

Em artigo exclusivo para Futuro da Saúde, o diretor-executivo da FenaSaúde, Bruno Sobral, aborda o cenário complexo da saúde suplementar no Brasil

Todo problema complicado tem uma solução simples. E completamente errada. A máxima de H.L. Mencken se aplica com perfeição à saúde suplementar, um dos mais complexos setores da atividade econômica, por envolver riscos e, sobretudo, vidas.

Quem usa os serviços dos planos manifesta elevados índices de satisfação, na casa de 80% a 90%, de acordo com repetidas pesquisas de opinião. Mas quem os vê de longe costuma enxergar mais defeitos que qualidades. Olhando de perto, no entanto, fica evidente o seguinte: o que os planos de saúde brasileiros entregam encontra poucos paralelos no mundo.

São mais de 53 milhões de pessoas cuidadas, o equivalente a uma Espanha, que realiza, em média, 5,3 milhões de procedimentos médicos por dia. De cada R$ 100 que as operadoras recebem de seus clientes, atualmente R$ 84 são repassados a prestadores por procedimentos feitos pelos pacientes – de consultas a exames, de cirurgias a internações e terapias. Com esses recursos as operadoras remuneram 200 mil estabelecimentos de saúde, cerca de 470 mil médicos e nada menos do que 5 milhões de empregados em toda a cadeia de saúde privada.

Há quem pense que a saúde suplementar é formada por um grupo restrito de grandes e lucrativas empresas. Isso não é verdade. Das quase 700 operadoras médico-hospitalares em atividade no país, apenas 25 têm mais de 500 mil beneficiários. A maioria é, pois, de pequeno e médio portes, muitas vezes de atuação localizada em rincões do país. Em 40% delas, as mensalidades sequer cobrem as despesas operacionais.

A ideia de que o setor de saúde suplementar tem ganhos astronômicos também está longe da realidade. Operadoras de planos de saúde são, por natureza, prestadoras de serviços de intermediação. Ficam, portanto, com pouco do total de dinheiro que movimentam. Apesar dos bons resultados do ano de 2025, historicamente, a margem de lucro das operadoras gira em torno de apenas 4%. Entre 2022 e 2024 as margens operacionais foram negativas.

Em um cenário de margens historicamente apertadas, qualquer custo fora do planejado acaba sendo repassado às famílias e empresas contratantes. A parcela do bolso do consumidor usada para pagar planos de saúde vem aumentando a cada ano. Parte desse aumento é característico do setor de saúde no mundo todo e está diretamente relacionado a melhoras relevantes da qualidade dos serviços de saúde no Brasil. Comparada a 20 anos atrás, hoje temos melhores hospitais e laboratórios, dispositivos médicos e medicamentos mais resolutivos e, consequentemente, resultados em saúde na saúde suplementar comparáveis à de países da OCDE.

No outro lado da moeda temos infelizmente também, parte dos aumentos de preços diretamente ligados à desperdícios e incertezas. Um deles, a judicialização, impactou as despesas assistenciais em R$ 18 bilhões desde 2019. Há ainda os desperdícios oriundos do uso incorreto de insumos em toda a cadeia, de tratamentos feitos desnecessariamente e da utilização de tecnologias com custos exorbitantes com poucos benefícios a oferecer.

Com tantos desafios e diante de tamanha responsabilidade é essencial que entremos no ano de 2026 sem a tentação de propor mudanças bruscas e populistas na regulação que possam afetar ainda mais custos e engessar o livre funcionamento do mercado. Previsibilidade e segurança jurídica contam muito para quem vende saúde, mas precisa precificar riscos com adequação. Nesse sentido, precisamos valorizar cada vez mais o papel de independência técnica das agências do setor (ANS e ANVISA), dar tempo para que quaisquer alterações sejam discutidas e amadurecidas e evitar que soluções “simples e erradas” sejam discutidas no calor do debate eleitoral.

*Os artigos publicados pelo Futuro da Saúde expressam a visão de seus autores e não representam, necessariamente, a posição do veículo. O objetivo é ampliar a reflexão e promover um debate qualificado sobre temas relevantes para a saúde.

Clique aqui para acessar a Fonte da Notícia

VEJA MAIS

Troféu Dom Quixote presta homenagem a ministros do STJ e ao relator geral da Constituição de 1988

​O Plenário do Superior Tribunal de Justiça (STJ) sediou, na noite desta quarta-feira (7), o…

Chamamento Público nº 07/2026 – Secretaria Executiva (SE)

O Ministério da Saúde, por intermédio do Departamento de Cooperação Técnica e Desenvolvimento em Saúde…