Por: Kátia Muniz
Quando se fala em adaptações de obras clássicas da literatura para o cinema, é possível trilhar dois caminhos: o primeiro é manter fidelidade ao livro. Nesse caso, tem-se um trabalho rigoroso, que evita interferências externas. Ele possui seus méritos, pois oferece a quem nunca leu a obra a oportunidade de compreender sua essência, ampliando o horizonte cultural e fornecendo embasamento para a formação de uma opinião.
A segunda via é mais ousada. E convenhamos: a ousadia não é território confortável. A inspiração parte do texto original, mas há liberdade criativa e, com ela, podem ocorrer mudanças de cenário, redesenho de personagens e reorganização de conflitos; ou seja, cumpre-se o propósito de criar algo novo a partir do que já está consolidado e dotado de apelo mercadológico.
É nesse ponto que surgem as patrulhas dos defensores das versões originais, alegando desrespeito e disseminando indignação diante de qualquer releitura. Está tudo certo em discordar, mas talvez seja mais sensato reconhecer que filme é filme; livro é livro. São linguagens distintas, que podem, e devem, dialogar. Agradar ou não já nos conduz ao terreno da subjetividade.
No centro das atenções está o filme “O Morro dos Ventos Uivantes”. Admiradores do romance homônimo têm manifestado, sobretudo nas redes sociais, seu descontentamento pelo fato de a diretora Emerald Fennell, responsável também por “Bela Vingança” e “Saltburn”, não seguir à risca a narrativa concebida em 1847 por Emily Brontë, publicada sob o pseudônimo masculino Ellis Bell, estratégia adotada para driblar o preconceito enfrentado por escritoras à época.
Mas afinal, como Fennell reagiu? Fez o que artistas fazem quando acreditam em sua visão: ignorou as pressões, enfrentou a enxurrada de críticas e utilizou aspas no título como recurso para expressar a história que habitava seu próprio imaginário. O resultado? Alçou um voo bonito. As aspas viraram asas.
O processo criativo é livre. Ver uma arte inspirando outra é uma das belezas da vida. Se você chegou até aqui, na leitura desta crônica, é possível que já tenha assimilado informações que até então não integravam seu repertório cultural. É justamente isso que precisa prevalecer.
Os burburinhos despertam curiosidade; é importante aproveitar esse gancho para compartilhar aprendizados. Além do mais, quando um clássico ganha adaptação, não movimenta apenas as salas de exibição, mas também impulsiona as vendas do livro que lhe deu origem, neste caso específico, 179 anos após sua publicação. Isso é fantástico!
Se Emily Brontë estiver se revirando no túmulo por causa da nova versão, que seja de euforia. Dona de intensidade e brilhantismo, concentrou sua genialidade em um romance que se tornou uma obra prima mundial.
Talvez, enfim, possa suspirar ao ver surgir na direção do longa outra figura feminina que não se acanhou em projetar na tela os desejos contidos e reprimidos da personagem Catherine, sentimentos historicamente silenciados pelo simples fato de ter nascido mulher.