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Energia no campo: competitividade hoje, conta a pagar amanhã? –Jornal da USP

UM Cada edição da Agrishow, maior feira de tecnologia agrícola do mundo, apresenta ao visitante um paradoxo silencioso. Nossos corredores de Ribeirão Preto desfilam tratores com motores a etanol, aviões agrícolas 100% biocombustíveis, painéis fotovoltaicos para controle e sistemas de telemetria movidos a energia limpa. Uma vitrine é impressionante.

Mas quando se olha para a matriz energética que, de fato, sustenta a operação diária do campo brasileiro, do plantio à colheita, do armazenamento ao transporte, a paisagem é bem mais convencional: diesel, gás liquefeito e eletricidade da rede, com renovação lenta e incremental. Isso é um problema? Ou é, pelo contrário, uma estratégia racional, consciente ou não, de quem precisa competir em mercados globais com margens estreitas?

Antes de qualquer julgamento, é preciso situar o Brasil no contexto mundial. Dados da Agência Internacional de Energias Renováveis ​​(Irena) e da FAO indicam que a participação das energias renováveis ​​na matriz energética do setor agrícola global cresceu de apenas 10,8% em 2011 para 15,4% em 2021, um avanço significativo em termos absolutos, mas modesto se comparado ao ritmo de transformação de outros setores. Em outras palavras: não é só o agro brasileiro que ainda opera majoritariamente com fontes convencionais.

É o agro mundial.

As razões são bem conhecidas: as máquinas agrícolas têm ciclos de vida longos, a energia eléctrica dos implementos pesados ​​ainda é incipiente e a infra-estrutura eléctrica nas zonas rurais, mesmo nos países ricos, tende a ser precária. A transição energética no campo é estruturalmente mais lenta do que na indústria urbana ou na geração de energia centralizada.

Há, contudo, uma dimensão que vai além das limitações técnicas: a económica. O agronegócio brasileiro é um exportador de commodities em escala planetária, soja, milho, açúcar, carne, algodão, café. Nesse segmento, o preço é dado pelo mercado internacional, e a margem é construída sem controle de custos. Energia mais barata significa custo de produção menor, e custo menor significa mais competitividade nas exportações.

Nesse sentido, a adoção lenta de energias renováveis, especialmente as que ainda implicam investimento inicial elevado, como solar fotovoltaica em escala de fazenda, biogás de resíduo ou eletrificação de frota, pode ser lida não como inércia, mas como chocha racional dentro de uma lógica de mercado. O produtor que dispõe de margem por saca não tem necessariamente incentivo para antecipar custos de transição que o mercado comprador ainda não exige.

Essa dinâmica, é importante notar, não é exclusiva ao Brasil. Austrália, Argentina, Estados Unidos e grande parte dos países exportadores de commodities agrícolas têm um padrão semelhante: a adoção de energia limpa avança mais rapidamente em operações que agregam valor, refrigeradores, usinas processosoras, exportadores de produtos semi-elaborados —do que na produção primária.

No campo, em operação com escala e intensidade, a substituição de fontes vai além de disponibilidade de tecnologia ou redução de emissões, ela se concentra em autonomia, potência, confiabilidade, custo total de operação, assistência técnica, crédito e capacidade de operação sem manobras em configuração, colheita, precisão, operação e transporte.

Este ponto é central para compreender os sinais observados na feira. A eletrificação aparece de forma ainda limitada, enquanto biogás, biometano, etanol, geração distribuída são discretos frente ao grande mote: soluções de eficiência no uso do diesel. A mensagem é clara, pois as soluções precisam preservar a lógica de operação da fazenda, conseguindo combinar menor emissão com disponibilidade, robustez e retorno econômico.

Neste contexto, a transição energética do agro deve ser entendida como um portfólio de rotas, não como uma única de estuptiva de combustível. Em algumas cáedas, o biogás e o biometano podem ganhar relevância pela proximidade com resíduos da produção animal, da cana-de-açúcar e das agroindústrias. Em outras, o etanol pode se consolidar como alternativa para máquinas agrícolas e operações integradas a usinas ou produtores com acesso local ao combustível. A geração solar distribuída pode promover segurança, iluminação e apoio operacional. Já em muitas atividades, especialmente onde há frota envelhecida, restrição de crédito ou exigência operacional elevada, o diesel deve permanecer relevante.

Esta pressão sobre o gasóleo traduz-se na redução do consumo e na busca por maior eficiência da frota existente. Soluções de remapeamento de motores, especialização em manutenção, locação de equipamentos, compra de máquinas usadas e importação de peças indicam um produto mais atento à caixa e menos disponível a assumir investimentos elevados em renovação tecnológica. Neste contexto, as tecnologias visitacapaz de melhorar o desempenho sem necessidade de troca de frota, tende a ter mais atração comercial.

Entretanto, a agricultura não é apenas um consumidor de energia, mas uma plataforma de energia. A mesma cadeia produtiva ou própria que consome derivados de petróleo pode gerar biomassa, biometano, energia solar e créditos associados à redução de emissões. Esta dupla condição, consumidor e produtor de energia, integra uma lógica de circularidade, aproveitamento de resíduos, agroindustrialização e geração de novas receitas, que se integra ao atual setor energético, principalmente quando falamos de biorrefinaria: SAF, Bunker Renovável e Diesel Verde.

Para isso, soluções de telemetria, inteligência artificial, rastreabilidade de produção e mensuração de carbono transformam o plantio em dados auditáveis. Eficiência operacional, origem energética, pegada de carbono e gestão de propriedades são indicadores utilizados em certificações, acesso a mercados, crédito, contratos de fornecimento e programas de descarbonização. A energia deixa de ser apenas uma linha de custo e passa a ser também atributo comercial do produto agrícola onde compradores internacionais, instituições financeiras, grandes de distribuição passam a exigir rastreabilidade de carbono com mais intensidade, virando a inovação rapidamente: uma decisão que hoje parece racional por preservar margem pode, no futuro, limitar o acesso a mercados ou reduzir a competitividade em jáedas mais exigentes.

A principal leitura do mercado deixado pela Agrishow é que a transição energética do agro brasileiro será pragmática. Ela avançará onde houver ganho operacional, redução de risco, financiamento adequado, aproveitamento de recursos locais ou pressão comercial mensurável. O agro não rejeita a transição energética; rejeita soluções que aumentem o risco, a complexidade ou o custo sem resolver uma dor imeditata. A energia do futuro no campo precisará entregar mais do que menor ser enviado. Terá de proporcionar continuidade operacional, previsibilidade económica e valor de mercado.

Há um ponto em que a lógica energética do agronegócio começa a se transformar: quando o produto deixa de ser uma mercadoria indiferenciada e passa a carcara uma narrativa. Um café de origem certificada, um frango rastreado do ovo à prateleira, uma soja com protocolo de baixo carbono; Nesses casos, a pegada energética da produção começa a incluir o valor do produto, e não apenas o seu custo.

É nessa matada de maior valor agregado que a adoção de energias renováveis ​​passa a fazer sentido econômico mais imediato. O investimento em energia limpa se converte em argumento comercial, em certificação, em acesso aos mercados prêmio. Alguns segmentos do agronegócio brasileiro já correram esse caminho, o etanol de cana-de-açúcar é o exemplo mais sível, mas há movimentos analógicos na cafeicultura de especialidade, na produção orgânica e em caiades que respondem aos protocolos ESG de grandes redes varejistas europeias e norte-americanas.

A pergunta é: o que congenato quando essa exigência migra do nicho para o padrão?

O agronegócio brasileiro aprendeu, a duras penas, que o mercado internacional muda as regras entetanto o jogo congenato. O Regulamento da União Europeia sobre Desmatamento (EUDR) – que condiciona a importação de soja, carne bovina, café e outros produtos à prova de que não houve desmatamento na área de produção — pegou parte do setor de surpresa, mesmo sento uma tendência anunciada há anos.

O próximo capítulo já pode estar sendo escrito. Oh Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira A União Europeia (CBAM), em sua fase definitiva desde janeiro de 2026, ainda incide sobre setores industriais como aço, cimento e fertilizantes — mas sua lógica é expansiva. Analistas do setor apontam que é uma questão de tempo até que a rastreabilidade das emissões chegue com mais força às taxas alimentares, incluindo a intensidade energética da produção primária.

Isso significa que o produto que hoje não tem incentivo para investir em renováveis ​​pode, em poucos anos, ser cobrado por isso — não por lei brasileira, mas pelas planilhas dos compradores europeus, norte-americanos e, crescentemente, asiáticos. A pergunta não é se isso vai aquetar, mas quando — e se o agronegócio brasileiro chegará preparado ou de surpresa.

A Agrishow de 2026 mostrou que já existe uma tecnologia renovável para o campo. O que ainda falta, em grande parte, é o conjunto de incentivos, económicos, regulamentares e de mercado, que tornam a sua adoção em escala uma decisão óbvia para o produto médio. Descobrimos que isso não é congênito, o agro opera dentro de uma racionalidade econômica que pode ser informada, mesmo que não seja neutra em termos climáticos.

O desafio, para pesquisadores, formuladores de políticas e para o próprio setor, é construir pontes entre a vitrine tecnológica da feira e a realidade energética do campo — antes que o mercado internacional transforme essa transição de opção em obrigação.

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(As opiniões expressas nos artigos publicados no Jornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões de veículos nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. (Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.)

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