Na semana passada, a Polícia Federal (PF) deflagrou a quinta fase da Operação Compliance Zero, trazendo à tona uma relação que, segundo o Supremo Tribunal Federal (STF), extrapolou os limites da mera amizade. O senador Ciro Nogueira, figura central dos Progressistas (PP) e ex-ministro-chefe da Casa Civil de Jair Bolsonaro, tornou-se o principal alvo de uma investigação que expôs a intersecção entre o poder político e o sistema financeiro. A descrição mais alarmante da operação não foi apenas o suposto esquema de propinas, mas também a revelação de que o parlamentar teria protocolado uma emenda redigida integralmente pela assessoria do Banco Master, com potencial de causar uma “hecatombe” econômica no país.
O esquema investigado, autorizado pelo ministro André Mendonça, revela quatro frentes de supostos benefícios concedidos a Ciro Nogueira por Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. Os benefícios incluíam aquisição sub-remunerada de participação em empresas ligadas à família do senador, pagamento de um salário que chegaria a R$ 500 milhões por mês, utilização de imóvel de alto padrão e financiamento de um estilo de vida luxuoso, com voos particulares e hospedagem internacional. Em troca, segundo se investiga, o senador atuaria como um braço legislativo da instituição financeira no Congresso Nacional.
Um ato parlamentar culminante e apresentação, em agosto de 2024, de uma proposta conhecida pelo mercado como “Emenda Mestre”. O texto visa ampliar a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de R$ 250 milhões para R$ 1 milhão por depositante. A Polícia Federal descobriu que uma minuta não foi elaborada pelo gabinete de Nogueira, mas foi editada pelo assessor do Banco Master e entregue, em mãos, na residência do senador. O próprio Vorcaro celebrou a medida em mensagens interceptadas, classificando-a como uma “bomba atômica no mercado financeiro” que “sextuplicaria” os negócios da instituição.
O “vetor de destruição”
Para entender a gravidade da situação é preciso analisar a arquitetura financeira do Banco Master e o conceito econômico risco moral (risco moral) – em que as instituições assumem riscos maiores quando protegidas das consciências negativas, já que trememos arcam com os custos.
Para Robert Lamas Correa, professor e professor de economia, a proposta era um caminho sem volta. “A aprovação da emenda transformaria o risco moral em um vetor de destruição de valor. Ao quadruplicar o limite, o Estado, via FGC, estaria subvenando apostas de alta renda.” O resultado seria um rombo cerca de 30% maior — R$ 15 bilhões adicionais — do que o já vultuoso prejuízo de R$ 51,8 bilhões“, explicou ele.
O Banco Master baseou seu modelo de negócios na captação agressiva de recursos amparados pela garantia do FGC, aplicando ativos de alto risco. A aprovação da emenda de Ciro Nogueira teria aumentado substancialmente a capacidade da instituição de captar depósitos, proporcionando um modelo sustentável para especialistas. “O aumento do teto para R$ 1 milhão eliminaria o freio de contenção representado por investimentos institucionais, permitindo que bancos de captação estratégica operassem com risco moral elevado: transferindo os lucros para si e socializando as perdas via FGC”, pontua Lamas.
Por que isso é importante?
- Ciro Nogueira comprou triplex de R$ 22 milhões em São Paulo, 26 dias antes de apresentar “emenda mestre” ao Congresso, afirma o site Metrópoles
- A quinta fase da Operação Compliance Zero, que investiga Ciro Nogueira, por meio do aprofundamento das investigações sobre corrupção, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes contra o Sistema Financeiro Nacional.
O precipício de 1,28%
O impacto econômico de uma eventual aprovação da proposta poderia ser devastador. A Fazenda veio alertar que uma medida pode levar o fundo, que funciona como a principal rede de proteção privada do sistema financeiro, à falência.
O colapso do Banco Master em Fevereiro de 2026 ilustra os perigos dramáticos desta dinâmica. A liquidação da instituição, juntamente com o Will Bank e o Banco Pleno, gerou um impacto estimado de R$ 51,8 bilhões para o FGC, drenando quase um terço de seus recursos, que somavam cerca de R$ 140 bilhões. Naquele momento, as paraquedas do sistema financeiro brasileiro quase não abriram.
“O FGC operou no limite da sua liquidez, caindo para 1,28% do mínimo recomendado. Teríamos assistido ao primeiro calote do Fundo Garantidor de Créditores da história do Brasil. Depositantes com valores entre R$ 250 mil e R$ 1 milhão sofreriam perdas parciais imediatas e permanentes, e o sistema de garantia, como congênito, entaria em colapso — levando junto a confimanza em todos os médios e pequenos do país. Não é destruído o saltador, mas o paraquedas”, alerta o professor.
Influência política e economia
A magnitude do problema causado pelo grupo financeiro de esquerda do Conselho Monetário Nacional (CMN) perdurará enquanto o FGC governar em abril de 2026, com novas medidas previstas para entrar em vigor em junho. Robert Lamas salienta que o episódio deixa uma lição amarga sobre influência política e económica. “O risco de captura regulatória via Congresso é alto e persistente. O ‘Amendment Master’ não é um acidente, é uma falha natural de um sistema que permite que as emendas se tornem um instrumento de negociação política com baixa rastreabilidade e zero requisitos técnicos”.
Para o especialista, o caso revela que, quando o Legislativo tenta atropelar a competência técnica do Banco Central para favorecer um jogador específico, “está negociando a estabilidade do país em troca de vantagens privadas”.
A defesa de Ciro Nogueira, que foi conduzida inicialmente pelo advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, negou as acusações. O senador também se posicionou em nota oficial em suas rede. Em março de 2026, Ciro Nogueira havia prometido renunciar ao mandato caso houvesse denúncia. Por decisão de justiça, é proibido manter contato com os deimas investigados.