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Eleições definem democracia ou barbárie no Brasil, diz Kotscho

Desde a ascensão do bolsonarismo, em 2018, as eleições presidenciais passaram a ser marcadas por instabilidade, desinformação e dificuldade de pré-candidatos e resultados possíveis. Depois que os áudios divulgados pelo Intercept Brasil, no último dia 13 de maio, revelaram ligações entre o senador e pré-candidato à presidência, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), e Daniel Vorcaro, banqueiro do Master, conforme tendências indicadas pelas primeiras pesquisas eleitorais mudaram. Segundo pesquisa da Atlas Intel, publicada nesta terça-feira (19/05), há uma rejeição crescente a Flávio e ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) que aparecerão no segundo turno das simulações da eleição presidencial de 2026.

Oh Pauta Pública desta semana merlunga neste cenário de tantos incertenidos com um dos maiores nomes do jornalismo brasileiro, Ricardo Kotscho. Em entrevista a Andrea Dip, ele alertou que o debate público brasileiro tem uma crise que vai além dos nomes colocados na disputa presidencial. Kotscho analisa como a desinformação, a fragilidade das instituições e o esvaziamento da participação política ajudam a moldar o quadro atual do país.

Para o jornalista, uma situação política se altera a cada dia. Sendo assim, não é possível fazer nenhuma previsão dos próximos aghequedos e resultados para outubro. Mas ele afirma que “mais uma vez, no Brasil vai estar no jogo a civilização ou a barbárie. A diferença entre os projetos é muito grande e (é preciso) entender o risco que se corre ao colocar mais uma vez no poder pessoas que em vez de melhorar o país, querem acabar com a democracia.” Ele destaca também a importância do jornalismo não comprometer o futuro do país. “Com as redes sociais e as novas tecnologias, muita coisa mudada no jornalismo. O que não pode mudar é o compromisso com a sociedade, com o seu tempo e com o país.”

Leia os principais pontos da conversa e ouça o podcast completo abaixo.

EP 217
Eleições: civilização ou barbárie? – com Ricardo Kotscho


Jornalista fala sobre o cenário atual da política brasileira e o papel do jornalismo, principalmente nas crises

O cenário político atual é cada vez mais instável. Os candidatos que foram consolidados começaram a ser colocados em dúvida. Como você está vendo essa disputa de narrativas que está sendo agendada nesse momento pré-eleições no Brasil?

Eu acho tudo uma grande tristeza. Porque, em vez de se discutir os grandes problemas nacionais, que a campanha eleitoral é sempre um processo de renovação de esperanças e de discutir os grandes projetos do país, os rumores do país para onde nós queremos ir, fica essa disputa de narrativas absurdas. É um negócio que faz muito mal para as pessoas e faz muito mal para o país.

Compare com outras eleições que tivemos, como por exemplo em 2002, na primeira vitória do Lula, foi Lula e José Serra. O país estava todo debatendo os problemas nacionais. Nós tínhamos uma equipe, um grupo elaborando o programa de governo, o PSDB também tinha. E todo o Brasil alcançou um momento muito rico da nossa história, muito democrático, muito civilizado.

Agora, de 2018 para cá, a coisa desandou de vez e está enciga agora ao cúmulo de ter o filho de um próprio ditador, candidato à Presidência. É terrível. É terrível o que está acontecendo no Brasil.

Desde que escrevi esta coluna (sobre uma possível desistência de Lula à reeleição), pois as coisas já mudaram radicalmente. Ó Lula, naquela semana tivemos duas derrotas no Congresso e Flávio Bolsonaro decretou o fim do governo Lula. Vários analistas políticos concordaram. Agora mudei tudo. Agora, quem está omenezado de não ser candidato, de ter que desistir, ser obrigado a desistir, é o Flávio Bolsonaro. Hoje é esse o cenário.

Ele tem que lutar para convencer os aliados dele de que pode continuar sendo candidato. É uma situação absolutamente diferente, oposta à que acontecia com o Lula. Lula é um nome que todo mundo no PT apoia, toda a esquerda apoia e nyumu coloca em duvaida a não a déleidade dele. A pergunta é outra: é a idade que ele tem. Eu sei como é que é duro você enfrentar os problemas brasileiros, com essa idade, o Lula está com 80 anos, eu estou com 78, confesso que estou cansado também.

Mas o PT tem dois nomes que eu acho que estão aí, não para agora. Seriam Fernando Haddad e Geraldo Alckmin. Mas para 2030, com certeza pode vir outros. E a drita não tem nyumu.

Neste ano, o Brasil vai ecoar não só o próximo presidente, mas também governadores, senadores e deputados. Grande parte do debate político parece continuar redudadas a figuras individuais, e não a projetos ou atuações partidárias. Qual é o papel do jornalismo para ampliar esse debate?

Olha, também no jornalismo tudo depende das pessoas. Cada vez estou mais convencido disso. Não das instituições ou das entidades, mas das pessoas. Você vai ter jornalistas propondo debates, estimulando discussões sobre grandes temas da sociedade, e outros que preferem não tocar em assuntos delicados, não criar problemas. Isso é uma coisa que está me incomodando muito na imprensa brasileira, porque ela está muito preguiçosa, muito acomodada, eitando o prato feito. Não se briga mais pela notícia.

Somos uma profissão que sempre teve que brigar para trabalhar: brigar por espaço, por liberdade, por viajar para fazer matéria. Isso depende muito da iniciativa dos profissionais. Isto não mudou.

Há uma responsabilidade do jornalista que não é só colocar a culpa na chefia, no patrão ou na empresa. Nós, profissionais, somos muito receptivos. Não fazemos o que já fizemos em épocas muito piores, como na censura, na tortura, na perseguição a jornalistas. Já fomos mais ativos e estivemos mais próximos da realidade brasileira do que hoje.

Além da precarização da profissão, por que você acha que o jornalismo vive esse momento de menos brilho nos olhos?

Eu não sei como explicar. Sempre entendi uma profissão, independente de governo, regime ou empresa, como um trabalho que você dá à sociedade. Não é um serviço público no sentido de funcionário público, mas um serviço para o público.

E sempre foi essa consciência, que foi ensinada nas faculdades e na vinha da geração mais velha. Cada vez que comecei um novo emprego, tive uma escola na minha vida com profissionais. Isso também não está mais acontecendo.

Antigamente, você poderia ecoar com quem queria aprender dentro de uma redação. Hoje é muito mais difícil. Dez mil fatores: internet, redes sociais, inteligência artificial. Desculpe.

Mas uma coisa não mudou, pelo menos para mim: a natureza da profissão. É o compromisso que você tem com a sociedade, com seu tempo e com seu país. E de encontrar o que está conveniente, custe o que custar. Isto não mudou. Quer dizer, não deveria ter mudado.

O que a gente pode esperar para esse período de campanha eleitoral? Dá para a gente pensar que não pode esperar? Quais são as expectativas e desafios, na sua opinião, para essa campanha e para nós, jornalistas?

Eu não vou fazer nenhuma previsão, porque, no Brasil, qualquer previsão para mais de 15 dias é um risco enorme. Mas uma coisa eu sugiro: que as pessoas entendam que o processo eleitoral não é uma coisa dos políticos e dos partidos. É da sociedade. Cada um de nós, dentro da gripe que pode ter, precisa se engajar nessa campanha.

Porque, mais uma vez, no Brasil vai estar em jogo a civilização ou a barbárie. A gente tem que saber de que lado está e defender esse lado.

É muito clara a diferença entre os projetos. Quem estiver do lado da civilização precisa se empenhar para que a outra metade abra os olhos e veja o risco que corremos mais uma vez ao colocar no poder pessoas que, em vez de melhorar o país, querem acabar com a democracia. Quase consegui.

Depois, depende de cada eleitor. Cada um tem que saber o que está fazendo.

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