Editorial: Um marco para o combate ao feminicídio

O lançamento do Mapa do Feminicídio em Santa Catarina é um divisor de águas na forma como o Estado enfrenta uma das mais graves expressões da violência de gênero. Desenvolvido pelo MPSC (Ministério Público de Santa Catarina), o documento não apenas organiza dados, ele ilumina uma realidade que por muito tempo permaneceu fragmentada e, por isso, combatida com menos eficiência.

Ao reunir informações policiais e judiciais, o Mapa do Feminicídio oferece uma radiografia precisa do problema, com diagnóstico contundente. A maioria dos casos ocorre dentro de casa, tem como autor companheiros ou ex-companheiros e atinge, sobretudo, mulheres em situação de vulnerabilidade social.

Mais alarmante: grande parte dessas vítimas já havia sofrido violência anteriormente, mas não estava inserida na rede formal de proteção. Isso revela, com clareza, que o problema não é apenas a violência em si, mas a incapacidade de o sistema chegar antes dela.

Outro dado que chama atenção é a interiorização dos casos. Embora os grandes centros concentrem números absolutos maiores, são as cidades do interior que apresentam as taxas mais elevadas.

Essa constatação exige uma mudança imediata de estratégia, porque não basta concentrar esforços onde há mais visibilidade, é preciso direcionar políticas públicas para onde o risco é maior, ainda que menos evidente.

O mérito do mapa está justamente em permitir essa virada de chave. Ao identificar padrões, perfis e territórios críticos, o Estado ganha condições de agir de forma preventiva e não apenas reagindo aos casos consumados e às tentativas. Segurança pública, assistência social e sistema de justiça passam a ter um norte comum, baseado em evidências e não em suposições.

De qualquer maneira, é importante ressaltar que não haverá redução consistente dos casos sem uma transformação mais profunda na sociedade. A identificação e a responsabilização dos agressores são necessárias, mas insuficientes. O feminicídio é o ponto final de uma cadeia de violências naturalizadas, que se alimenta de desigualdades de gênero ainda presentes no cotidiano.

Ao abrir os dados ao público e dar rosto às estatísticas por meio de iniciativas como a websérie “Ausências”, com quatro episódios que contam a história de quatro vítimas de feminicídio no Estado, o mapa também convoca a sociedade a sair da inércia. É um chamado coletivo à responsabilidade.

O Mapa do Feminicídio de Santa Catarina é um passo importante. O desafio agora é transformar informação em ação contínua, integrada e eficaz, porque cada informação contida nele precisa fazer parte da prevenção.

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