Por maioria de 56 votos a 8, o Conselho Universitário da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) aprovou a retirada do nome do professor João David Ferreira Lima — fundador e primeiro reitor da universidade — do campus da Trindade, em Florianópolis.
A decisão, embora regimental e dentro dos limites da autonomia universitária, não encerra o debate. A votação no conselho refletiu uma maioria conjuntural, mas não um consenso histórico.
O processo foi marcado por controvérsia desde o início. O relatório da Comissão Memória e Verdade da UFSC apontou suposta conivência de Ferreira Lima com o regime militar, sugerindo que ele teria perseguido professores e estudantes.
A defesa da família, entretanto, apresentou documentação contestando essas alegações, incluindo testemunhos que retratam um reitor conciliador, protetor e comprometido com a construção institucional da universidade.
O debate no Conselho foi acalorado. O ambiente democrático foi garantido, mas não sem falhas. A abertura ao público permitiu manifestações importantes, porém, também expôs o processo a discursos agressivos e atos de desrespeito, como os que ocorreram em sessões anteriores, com palavras de ordem, intolerância e até queima do jornal ND com a foto do ex-reitor.
Apesar das críticas — legítimas — é necessário reconhecer que a UFSC cumpriu seu rito. A deliberação do Conselho Universitário, por maioria, foi soberana e institucional. A decisão dos conselheiros deve ser respeitada, como exige a democracia.
Mas é preciso também dizer que o resultado não deve ser comemorado. Não se trata de blindar figuras públicas de escrutínio — mas de entender que biografias complexas, dentro de um contexto histórico muito particular que foi o regime militar pós-64.
A UFSC tem o direito de rever suas homenagens. Mas tem também o dever de fazê-lo com base em critérios consistentes, provas sólidas e ampla defesa — valores que ela mesma ensina a seus alunos e prega em seu discurso institucional.
Ao remover o nome de João David Ferreira Lima de seu campus, a universidade não apaga seu legado. Apenas transfere o debate para outra esfera — a da memória coletiva. O gesto é simbólico, mas sua repercussão ultrapassa os muros da instituição.