Durante décadas, o Vale do Itajaí aprendeu a conviver com um roteiro repetido e cruel: chuva intensa, rios transbordando, cidades alagadas, prejuízos bilionários e famílias tentando reconstruir a vida.
Em Santa Catarina, poucas regiões carregam uma memória tão dolorosa das enchentes quanto o Vale. E justamente por isso causa indignação constatar que estruturas estratégicas para salvar vidas e proteger o patrimônio público tenham permanecido por tantos anos abandonadas, sem manutenção adequada e sem modernização compatível com os desafios climáticos do presente.
As barragens de contenção não são obras secundárias, elas representam uma das principais linhas de defesa contra tragédias anunciadas. Quando o próprio governo reconhece que as estruturas passaram décadas praticamente esquecidas, admite-se também uma sucessão de omissões administrativas que custaram caro à população catarinense. Trata-se de segurança pública, planejamento e responsabilidade com milhares de famílias que vivem sob constante ameaça das cheias.
Por isso, o investimento de mais de R$ 94,7 milhões anunciado pelo governo do Estado merece reconhecimento. Ainda que tardio, o esforço de recuperação, automação e ampliação das barragens do Alto Vale representa uma mudança importante de postura diante de um problema histórico. Modernizar estruturas construídas nas décadas de 1970 e 1990 é obrigação de qualquer gestão comprometida com prevenção e proteção civil.
É preciso reconhecer também que os eventos climáticos extremos se tornaram mais frequentes e intensos. A velha lógica de apenas reagir após as tragédias já não atende mais a realidade catarinense.
Investir em prevenção é mais inteligente, mais humano e muito mais barato do que contabilizar prejuízos depois das enchentes. Nesse aspecto, Santa Catarina parece finalmente compreender que Defesa Civil não pode atuar apenas na emergência, mas principalmente na antecipação dos riscos.
Outro ponto positivo é o avanço dos estudos para novas barragens em municípios estratégicos do Vale do Itajaí. A ampliação da capacidade de retenção demonstra visão de longo prazo e reforça a necessidade de um sistema integrado de proteção hídrica. Da mesma forma, o acordo firmado com comunidades indígenas impactadas pela Barragem Norte mostra que obras de infraestrutura precisam caminhar junto com responsabilidade social e diálogo institucional.
Que os investimentos atuais sirvam não apenas para modernizar barragens, mas também para consolidar uma nova mentalidade administrativa: a de que prevenção não pode ser lembrada apenas quando a água sobe.