O reconhecimento dos Saberes e Práticas Tradicionais Associados aos Engenhos de Farinha de Mandioca de Santa Catarina como patrimônio cultural do Brasil é um gesto de valorização da história viva que moldou comunidades inteiras e ajudou a construir a identidade cultural do país.
Ao registrar esse patrimônio no Livro dos Saberes, o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) reconhece algo que as comunidades catarinenses sabem há gerações: a farinha não é apenas um alimento.
Ela é resultado de uma longa cadeia de conhecimentos transmitidos entre famílias, vizinhos e povos que, ao longo do tempo, contribuíram para formar uma tradição única.
Antes mesmo da formação do Brasil, povos indígenas como os Guarani e Tupi-Guarani já dominavam a arte de transformar a mandioca – uma raiz naturalmente tóxica – em um alimento nutritivo e essencial.
Mais tarde, com a chegada dos açorianos ao Litoral catarinense e a contribuição de africanos trazidos à força durante a escravidão, esse conhecimento se ampliou e ganhou novas técnicas, ferramentas e formas de organização do trabalho.
Dessa mistura de culturas nasceu uma tradição singular, que se expressa na chamada farinha polvilhada, produto que distingue Santa Catarina no cenário nacional.
Mas o verdadeiro valor desse patrimônio não está apenas no resultado final. Ele reside, sobretudo, no processo coletivo que envolve o plantio da mandioca, a farinhada comunitária, as cantigas tradicionais, o trabalho compartilhado e o encontro entre gerações.
Nos engenhos, cada função tem seu significado: o forneiro que domina o ponto exato da torra, os agricultores familiares que iniciam o ciclo na roça, os mestres que guardam as técnicas ancestrais e os chamados “engenheiros de farinha”, capazes de conduzir todas as etapas da produção. São conhecimentos que não se aprendem em manuais, mas na convivência diária, na observação e na prática.
Mais do que preservar estruturas físicas, o registro valoriza aquilo que realmente sustenta essa tradição: as pessoas. Como bem dizem os próprios produtores, o segredo da farinha não está na máquina, mas em quem a faz.
Num momento em que tantas práticas tradicionais desaparecem diante das pressões econômicas e das transformações sociais, iniciativas como essa reafirmam a importância de proteger não apenas monumentos, mas também modos de vida. A cultura de um povo vive nas suas práticas cotidianas, na sua memória e naquilo que se transmite de geração em geração.