Editorial: Mortes violentas, uma ferida que não cicatriza

Apesar da pequena redução no número de mortes violentas, que caiu de 46.409 em 2022 para 45.747 em 2023, conforme os dados do Atlas da Violência 2025, divulgados ontem pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), o Brasil continua sendo um dos países mais violentos do mundo. A média é de 125 mortes por dia.

Os dados apontam para uma melhora tímida, mas longe de ser suficiente para que a população se sinta segura. A violência, sobretudo a letal, é um reflexo profundo das desigualdades sociais, da falência das políticas públicas e da impunidade que ainda reina em muitas partes do país.

As causas da violência no Brasil são complexas e multifatoriais. A desigualdade social é um dos pilares dessa realidade. Milhões de brasileiros vivem em situação de vulnerabilidade, com acesso limitado à educação, à saúde e ao mercado de trabalho formal.

Em regiões onde o estado é ausente, o crime organizado ocupa o vácuo deixado pelo Poder Público, oferecendo “proteção”, emprego e até assistência social — ao mesmo tempo em que impõe o medo e controla territórios inteiros.

Outro fator é a lentidão do sistema judiciário, que muitas vezes é ineficaz, com baixíssimas taxas de resolução de homicídios, o que gera um sentimento generalizado de impunidade.

Para mudar esse cenário, é necessário ir além das ações pontuais e repressivas. O combate à violência exige um conjunto de medidas articuladas, com foco em prevenção, inclusão social e fortalecimento institucional.

Investir em educação de qualidade, políticas de emprego para jovens, urbanização de comunidades carentes e programas de reintegração social de ex-detentos são passos fundamentais. Do lado da Segurança, é urgente qualificar as forças policiais, valorizar o trabalho investigativo e modernizar o sistema penal.

O Brasil precisa tratar a violência como um problema estrutural, não apenas criminal. Enquanto houver miséria, abandono e desigualdade, a paz será apenas uma promessa distante.

A redução dos índices de mortes violentas deve ser comemorada com cautela, pois ainda estamos muito longe de garantir o direito básico à vida para todos os brasileiros.

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