A greve deflagrada pelo Sintrasem (Sindicato dos Trabalhadores no Serviço Público Municipal de Florianópolis) expõe, mais uma vez, um descompasso preocupante entre o legítimo direito de reivindicação e o dever inegociável de garantir serviços essenciais à população.
Em um cenário no qual a própria administração pública afirma ter mantido canais abertos de diálogo, com sucessivas rodadas de negociação e cumprimento de acordos, a paralisação soa menos como último recurso e mais como instrumento precipitado, de impacto desproporcional sobre quem mais depende do Estado.
É preciso reconhecer que a valorização do servidor é fundamental e deve ser continuamente buscada. No entanto, não se pode ignorar o contexto apresentado: reajustes aplicados, planos de carreira preservados, contratações expressivas e remunerações que, em alguns casos, superam significativamente os pisos nacionais.
Esses elementos indicam que há, ao menos, uma base concreta para a continuidade das negociações sem a necessidade de interromper atividades que afetam diretamente a vida dos cidadãos.
A decisão da prefeitura de descontar os dias não trabalhados, embora impopular entre os grevistas, encontra respaldo no princípio da razoabilidade administrativa. Não se trata de punição arbitrária, mas de uma medida que busca equilibrar direitos e deveres, sobretudo em respeito à maioria dos servidores que segue em atividade e à população que não pode ser penalizada por impasses corporativos.
Greve não pode ser compreendida como licença para ausência irrestrita sem consequências, especialmente quando há indícios de baixa adesão e continuidade parcial dos serviços.
Outro ponto que merece reflexão é a politização recorrente desses movimentos. Quando a paralisação se descola de pautas estritamente técnicas e passa a incorporar motivações ideológicas ou estratégicas, perde-se legitimidade perante a sociedade. O resultado é um desgaste que atinge não apenas a gestão pública, mas também a própria imagem do funcionalismo.
A cidade não pode se tornar refém de disputas que poderiam, e deveriam, ser resolvidas à mesa de negociação. O interesse coletivo precisa prevalecer sobre agendas específicas. Insistir na greve, diante de um cenário de diálogo aberto e avanços já consolidados, é insistir em um caminho que penaliza o cidadão e fragiliza a confiança nas instituições.