Não é uma imagem que a sociedade brasileira deveria ver: um ministro do STF, em um estádio de futebol, reagindo com um gesto obsceno às vaias da torcida. Alexandre de Moraes, togado da mais alta corte do país, levantou o dedo médio, num gesto que não é apenas vulgar, mas simbólico da arrogância institucional que o STF tem cultivado.
Ministros do STF não são cidadãos comuns. Não podem agir como torcedores exaltados ou militantes de rede social. Carregam consigo a liturgia de um cargo que exige equilíbrio, discrição e sobriedade. É da toga que se espera compostura e não o dedo em riste.
Ao reagir emocionalmente às provocações da arquibancada, Moraes expôs algo ainda mais preocupante: revelou não ter equilíbrio emocional. Sua resposta foi impulsiva, pública e desrespeitosa com o próprio Judiciário.
E isso num momento delicado, horas após ter sido sancionado pelo governo dos Estados Unidos sob a Lei Magnitsky, um revés diplomático que ele mesmo ajudou a construir com ações controversas envolvendo censura a empresas e cidadãos estrangeiros.
O episódio no estádio é apenas o reflexo de uma distorção mais profunda. A Suprema Corte brasileira há tempos deixou de ser o bastião técnico e sereno da Constituição para se transformar em arena de celebridades togadas.
Juízes do STF se expõem como popstars, concedem entrevistas, antecipam votos, opinam sobre tudo e todos. Tornaram-se personagens públicos, quando deveriam ser guardiões silenciosos das leis.
Não é o primeiro caso. Em Nova York, em 2023, o ministro Luís Roberto Barroso reagiu a um manifestante com a expressão “Perdeu, Mané”, frase até então associada à linguagem de marginais. Mais uma vez, um ministro reagindo na rua como se fosse qualquer um.
A atitude de Alexandre de Moraes, portanto, não é isolada. É um símbolo de como parte da magistratura superior se distancia da responsabilidade institucional. A vaia no estádio foi apenas o estopim. A reação foi proporcional ao ego, não ao cargo.
A justiça deve ser cega, equilibrada, comedida. Quando vira espetáculo ou retaliação emocional, perde autoridade e respeito. E quando um ministro responde ao povo com o dedo do meio, o que ele mostra, na verdade, é o fundo do poço da liturgia judicial brasileira.