O recuo de 16,4% no gasto médio dos turistas durante a temporada de verão no Litoral catarinense, divulgado pela Fecomércio SC, ontem, confirma um movimento que vinha sendo alertado: há um limite para o quanto se pode cobrar antes que o visitante passe a consumir menos.
Ainda que o valor médio de R$ 8.224 seja o segundo maior da série histórica, abaixo apenas dos R$ 9.833 registrados no ano passado, o que fica claro é que o comportamento do turista mudou. Ele seguiu visitando as belezas do nosso Estado, mas passou a gastar com mais cautela, a escolher onde colocar seu dinheiro.
A leitura de “ajuste natural”, após um pico fora da curva em 2025, pode explicar parte do cenário, mas não o todo. Há um componente evidente de percepção de custo-benefício. Santa Catarina continua sendo um destino desejado e um dos mais visitados do país, mas cobrando cada vez mais caro por produtos e serviços.
A queda expressiva no consumo em bares, restaurantes e no varejo, aliada ao aumento do preparo de refeições em imóveis alugados, revela um turista que não deixou de viajar, mas que passou a evitar o que considera excessivo.
E aqui cabe a reflexão sobre explorar o turista e não o turismo. Preços inflacionados, serviços nem sempre compatíveis com o valor cobrado e a sensação de oportunismo em períodos de alta demanda contribuem para desgastar a experiência. O resultado aparece na redução do consumo. E isso, no médio prazo, pode ser ainda mais preocupante do que uma eventual queda no fluxo de turistas.
Nem mesmo a vinda em grande número dos visitantes estrangeiros, especialmente os argentinos, conhecidos pelo “da me dos”, foi suficiente para reverter essa tendência.Ainda que representem parcela significativa do público, também reduziram seus gastos, reforçando que o problema é estrutural.
Por outro lado, setores ligados à experiência e à hospedagem mostram que o turista segue disposto a investir quando percebe valor, o que reforça a necessidade de qualificação, equilíbrio e estratégia.
Santa Catarina tem um dos litorais mais atrativos do país e um alto índice de satisfação entre visitantes, mas isso, por si só, não garante competitividade permanente. Destinos concorrentes avançam, muitas vezes com preços mais acessíveis e melhor relação entre custo e entrega. O desafio está posto.
A fidelização dos turistas não se constrói com exploração pontual, mas com consistência, com produtos, serviços e preços adequados. A temporada de 2026 não foi ruim. Foi, acima de tudo, um aviso. E ignorá-lo pode custar caro nas próximas temporadas.