Poucos serviços públicos conseguem atravessar cinco décadas mantendo relevância, rigor técnico e utilidade direta para a população. O Programa de Monitoramento da Balneabilidade de Santa Catarina, conduzido pelo IMA (Instituto do Meio Ambiente), é um desses raros exemplos.
Desde 1976, o laboratório responsável pelas análises das águas do Litoral catarinense construiu uma base científica sólida, capaz de oferecer à sociedade algo essencial em tempos de informação dispersa: dados confiáveis sobre a qualidade das praias.
O resultado desse trabalho contínuo é expressivo. Monitorando atualmente cerca de 260 pontos ao longo da costa, o programa permite afirmar, com base em critérios técnicos estabelecidos pelas normas ambientais brasileiras, que a maior parte das praias permanece própria para banho.
Mais do que um indicador turístico, trata-se de um instrumento de saúde pública, prevenção de doenças e orientação para milhares de moradores e visitantes que frequentam o Litoral ao longo do ano.
A transparência também merece reconhecimento. A divulgação regular dos dados, as placas instaladas nas praias e a possibilidade de acesso às informações por aplicativos e QR Codes colocam o cidadão no centro da política ambiental.
Ao saber, em tempo quase real, se um ponto está próprio ou impróprio para banho, a população passa a participar ativamente do cuidado com o Litoral e da cobrança por soluções quando surgem problemas. Mas é justamente aí que surge uma reflexão necessária.
O monitoramento da balneabilidade é, antes de tudo, um diagnóstico. Um retrato científico da condição das águas. E, como todo diagnóstico, revela não apenas as boas notícias, mas também as fragilidades que ainda persistem. Santa Catarina convive há décadas com um problema estrutural que nenhum relatório consegue esconder: o atraso histórico no saneamento básico.
Não é raro que pontos tradicionalmente impróprios para banho continuem a aparecer nos boletins do IMA. Isso não ocorre por acaso. A presença de esgoto sem tratamento, ligações clandestinas, redes antigas e crescimento urbano desordenado segue impactando rios, lagoas e o mar.
O laboratório aponta o problema com precisão científica, mas a solução depende de investimentos, planejamento e responsabilidade compartilhada entre poder público, municípios e sociedade.
Se Santa Catarina deseja continuar exibindo um dos litorais mais valorizados do país, o próximo passo é transformar diagnósticos em soluções estruturais. Afinal, cuidar do mar começa mesmo em terra firme, e passa, inevitavelmente, por resolver de vez o desafio do saneamento básico.