Editorial: BR-101 Norte: o preço da omissão

Santa Catarina recebeu com indignação a notícia de que a repactuação do contrato da BR-101 Norte fracassou. O anúncio de que a ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) e a concessionária Arteris não chegaram a um acordo para ampliar investimentos na rodovia devolve o problema à estaca zero, e escancara algo ainda mais grave: anos de omissão, falhas de gestão e falta de prioridade com um dos principais corredores logísticos do Sul do Brasil.

A BR-101 é a espinha dorsal da economia do Estado. Por ela passam cargas que abastecem portos, indústrias, centros turísticos e cidades inteiras. Quando a rodovia trava, trava também uma parte significativa da economia regional. E é exatamente isso que vem acontecendo há anos, com congestionamentos diários, acidentes frequentes e gargalos estruturais que já deveriam ter sido resolvidos há muito tempo.

A frustração da sociedade catarinense não é injustificada. A repactuação do contrato vinha sendo tratada como uma oportunidade para corrigir atrasos históricos, destravar obras e implementar melhorias urgentes de segurança e mobilidade. O debate envolveu entidades, setor produtivo e representantes políticos, que apresentaram sugestões e apontaram os trechos mais críticos. O resultado, no entanto, foi o colapso das negociações.

O problema é que a crise atual não nasceu agora. É fruto de uma longa sequência de decisões adiadas, investimentos insuficientes e fiscalização falha. O próprio setor de transporte lembra que dezenas de obras já haviam sido apontadas como necessárias em 2015. Mais de uma década depois, grande parte dessas demandas segue apenas no papel.

Os prejuízos são concretos. Estimativas do setor de transporte apontam perdas de cerca de R$ 1,2 bilhão por ano, resultado da perda de produtividade, do aumento no consumo de combustível e do tempo desperdiçado em filas intermináveis. O impacto vai muito além das empresas: atinge trabalhadores, turistas, moradores das cidades do entorno e toda a cadeia econômica que depende da fluidez da rodovia.

Enquanto isso, trechos críticos entre Itapema, Balneário Camboriú, Itajaí, Penha e Joinville seguem operando no limite, ou além dele. A falta de terceiras faixas, marginais e novas estruturas viárias transforma deslocamentos simples em verdadeiras maratonas de paciência e risco.

Diante desse cenário, o fracasso da repactuação é um alerta de que o modelo atual de gestão da rodovia chegou ao limite. Persistir no mesmo caminho, sem obras estruturais e sem decisões rápidas, significa aceitar que o principal corredor logístico do Estado continue funcionando como um gargalo permanente. Santa Catarina não pode esperar mais uma década por soluções.

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