Florianópolis vive uma tragédia silenciosa sobre rodas. Enquanto o debate público frequentemente se concentra nos gargalos da mobilidade, nas filas intermináveis e nos congestionamentos crônicos, os números revelam uma crise ainda mais profunda: o trânsito da Capital tornou-se um espaço cotidiano de risco, violência e morte.
Registrar um acidente a cada 22 minutos não é apenas um dado estatístico. É o retrato de uma cidade que perdeu a capacidade de conviver de forma segura em suas ruas.
Os mais de 23,8 mil sinistros contabilizados em 2025 e as 56 mortes registradas no período representam o pior cenário desde o início da série histórica do Detran, em 2019. Mais grave do que o crescimento absoluto é a velocidade dessa deterioração.
Enquanto Santa Catarina viu o número de mortes no trânsito aumentar cerca de 20% no período, Florianópolis quase dobrou sua letalidade. A Ilha, conhecida por sua qualidade de vida, revela uma contradição alarmante: tornou-se proporcionalmente mais perigosa para motoristas, motociclistas, ciclistas e pedestres.
É evidente que a infraestrutura urbana não acompanhou o crescimento da frota nem da circulação diária. Florianópolis expandiu-se sem planejamento viário compatível com sua realidade atual.
A cidade depende excessivamente do automóvel, concentra fluxos em poucos corredores e convive com vias saturadas em praticamente todos os horários de pico. Mas atribuir a crise apenas à estrutura seria uma simplificação confortável e equivocada.
Os dados expõem também um problema cultural. Excesso de velocidade, uso de celular ao volante, desrespeito à sinalização e consumo de álcool continuam presentes de forma alarmante. O fato de domingos e madrugadas concentrarem proporcionalmente os acidentes mais graves evidencia que a imprudência ainda dirige boa parte do comportamento nas ruas. É um trânsito irresponsável.
Há ainda um custo coletivo frequentemente ignorado. Os acidentes representam um prejuízo estimado superior a R$ 6 bilhões. É dinheiro drenado do sistema de saúde, da economia, da produtividade e das famílias de Florianópolis.
Florianópolis parece ter naturalizado o caos viário. O acidente virou rotina, a imprudência virou hábito e a morte virou estatística semanal. Essa normalização talvez seja o aspecto mais perigoso de todos. Uma cidade que aceita perder uma vida a cada seis dias no trânsito está, aos poucos, desistindo do próprio espaço público.
O trânsito da Capital deixou de ser apenas um problema de mobilidade. Tornou-se uma questão urgente de saúde pública, segurança coletiva e responsabilidade social. Ignorar isso significa aceitar que a próxima vítima seja apenas mais um número em uma planilha.