O escândalo revelado pela Operação Dose Extra, conduzida pela Polícia Civil de Santa Catarina, expõe mais do que um suposto esquema milionário de fraude no SC Saúde, o plano de saúde dos servidores estaduais.
Esse esquema escancara uma distorção grave, e cada vez mais recorrente, no uso de instrumentos que deveriam garantir direitos, mas que, quando manipulados, passam a servir como atalhos para o desvio de recursos públicos.
As investigações apontam para uma engrenagem sofisticada, envolvendo médicos, advogados e empresários, que teriam se valido de decisões judiciais para viabilizar pagamentos inflados.
Não se trata apenas de superfaturamento, mas de uso estratégico do sistema de Justiça para legitimar despesas que, à luz dos números já apurados, desafiam qualquer razoabilidade. Uma cirurgia que salta de R$ 29 mil para mais de R$ 600 mil não é um desvio pontual, é um sintoma de um modelo vulnerável à exploração.
É preciso cautela: todos os investigados têm direito à ampla defesa e ao contraditório. Contudo, o que já veio à tona é suficiente para acender um alerta institucional.
Quando profissionais que deveriam zelar pela saúde e pela legalidade passam a figurar como suspeitos de integrar esquemas dessa natureza, o impacto ultrapassa o prejuízo financeiro. Atinge a confiança nas instituições, corrói a credibilidade de categorias essenciais e fragiliza ainda mais um sistema de saúde já pressionado.
Outro ponto que merece destaque é o mecanismo descrito pelas autoridades: a simulação de concorrência entre empresas pertencentes ao mesmo grupo econômico.
Trata-se de uma fraude que não apenas dribla controles administrativos, mas também compromete a própria lógica de mercado, ao criar uma falsa aparência de competitividade. Soma-se a isso o uso recorrente da judicialização como ferramenta para impor custos ao Estado, muitas vezes sem o devido escrutínio técnico.
Se, por um lado, é positivo que não haja indícios de participação de servidores públicos e que a investigação tenha partido de uma auditoria interna, por outro, isso não diminui a gravidade do caso. Pelo contrário: revela que, mesmo com mecanismos de controle, brechas continuam sendo exploradas com impressionante ousadia.
O prejuízo estimado de R$ 6 milhões, que pode crescer, não é um número abstrato. Representa menos cirurgias legítimas, menos atendimento, menos qualidade para os servidores que dependem do SC Saúde. Em última instância, é o cidadão que paga a conta.
Diante desse cenário, não basta punir eventuais culpados. É indispensável revisar protocolos, endurecer critérios para judicialização e ampliar a transparência nos contratos e autorizações.