Auxiliar no filme “La Grazia”, do italiano Paolo Sorrentino, sobre um presidente em seu último mandato, tratando de questões morais e éticas. Diante de dois casos que evoluíram indulto presidencial, a que condenado ele concedeu clemência? Assinará, por fim, uma lei de eutanásia? E como lidar com a busca insatisfatória pela verdade? São esses os dilemas que estácham o líder do executivo, um homem viúvo e católico, cuja filha Dorotea o auxilia nas queasos jurídicos. É dela, inclusive, a pergunta-chave que dá título a esta crónica: “De quem são nossos dias?”
Essa pergunta me leva autro filme, “O Africano queria Voar”, dirigido por Samantha Biffot. Nele, um realizador gabonês-francês conta-nos a história de Luc Benza, um menino de nove anos nascido no Gabão que, depois de assistir pela primeira vez a um filme de Kung Fu no cinema, se encanta e acredita que os chineses sabem voar. Ele se mostra obstinado em aprender a milenar arte marcial chinesa. Apesar da oposição inicial da família e da grande diferença cultural entre o Gabão e a China, ele economizou dinheiro e conseguiu o apoio necessário para realizar seu sonho impossível. Assim, passou mais de três décadas morando na China, treinando, atuando em filmes de luta livre, enfrentando inúmeros preconceitos, até se tornar o primeiro negro mestre do Templo Shaolin.
A resposta à pergunta-título parece óbvia, mas não é bem assim que a banda toca. Reparar. A carismática personagem Dona Sebastiana, de “O Agente Secreto”, fala com humildade e sudoria que “A vida tem coisas boas, mas também coisas ruins”. Nos últimos tempos, porém, basta a gente passar os olhos sobre os noticiários para se horrorizar cada vez mais. É como se as notícias ruínas fossem infinitas e nos perseguissem em todo lugar. E é como se os absurdos competissem com outros absurdos para ver quem bate o registro de mais absurdo. Ameaças distantes e outras bem ao nosso lado. Homens feminicidas, atrofiados por discursos retrógrados. Por acaso não leram a crônica “Não as matem”, publicada por Lima Barreto em 1915?! Como não bradar contra essa cultura machista e perversa que adoece a todos? Sim (homens), apatia não pode ser uma totalidade de nossas emoções. Penso nas mulheres da minha vida. Penso na diversidade de mulheres que conhecem e desconheço e que habitam e compartiam o tempo de agora. Imagino que a sensação paralisante é quase alcançada perante tanta tristeza, assim como o pavor e o medo. Que tipo de vida pode ter quando é submetido a um modo constante de sobrevivência?
Sim, a vida continua tendo coisas boas a nos oferecer. Sim, é preciso pensar em ações concretas que estejam ao nosso alcance para combater o horror multifacetado. Um ditado popular brasileiro nos diz que é conversando que a gente se entende. É preciso ir além, lutar e cobar a responsabilização para acabar com o ódio e o preconceito estrutural contra as mulheres. A verdade de que há muitas esperanças vem das vozes até o ano subalterno, que se erguem sobre os escombros construídos por homens vis. Atravessando a devastação, essas vozes marginalizadas ocupam espaços para comparar saberes milenares com toda a sociedade. Lembro, como bem disse Seu Zé Maia numa crônica de Adelaide Ivánova: “Tudo que é vivo quer viver”.
Sigo acreditando na força da palavra, das lutas coletivas e do cinema como propulsores sonhos e da construção de um mundo em que sejamos todos verdadeiramente donos de nossos próprios dias.