Cuba manifestou categoricamente sua recusa em considerar qualquer negociação sobre seu sistema político ou o mandato de seu presidente, Miguel Díaz-Canel, em discussões com os Estados Unidos. A declaração surge após a veiculação de reportagens indicando que Washington estaria buscando uma saída para o atual líder cubano, como parte de um possível acordo que flexibilizaria restrições comerciais.
Soberania Inegociável: A Posição Cubana
Em uma coletiva de imprensa, o vice-ministro das Relações Exteriores de Cuba, Carlos Fernández de Cossio, foi enfático ao confirmar que nem o sistema político da ilha, nem a permanência de seu presidente ou de qualquer outro funcionário cubano, são temas passíveis de negociação com os Estados Unidos. A afirmação reforça a postura soberana de Cuba em face de pressões externas, delineando os limites de qualquer diálogo bilateral em curso.
As Alegações de Washington e o Cenário Econômico
A rejeição cubana vem à tona uma semana após Havana reconhecer que estava engajada em negociações com o governo dos EUA. Esse diálogo ocorre em um momento de profunda crise econômica para a nação caribenha, exacerbada por um bloqueio petrolífero imposto pela administração do então presidente Donald Trump, que já havia declarado que poderia fazer “qualquer coisa que eu queira” com Cuba. Relatos do USA Today e do New York Times, citando fontes com conhecimento dos planos de Washington, detalhavam que Trump estaria preparando um acordo econômico que aliviasse as restrições comerciais, mas condicionado à saída de Díaz-Canel do poder, mesmo com dois anos restantes em seu mandato presidencial e cinco como líder do Partido Comunista. Essas mesmas reportagens indicavam que a proposta estadunidense supostamente não afetaria a família dos ex-presidentes Fidel e Raúl Castro, sendo que Raúl, aos 94 anos, mantém considerável influência mesmo após ter cedido a presidência a Díaz-Canel, hoje com 65.
Diferenças na Estrutura de Poder e Analogias Descartadas
A estratégia delineada pela administração Trump, segundo as notícias, buscaria replicar um modelo que os Estados Unidos teriam tentado aplicar na Venezuela, onde Maduro foi afastado, e o país, em seguida, cooperou com Delcy Rodríguez. Contudo, a realidade política cubana difere significativamente. Ao contrário da concentração de poder observada na Venezuela, a autoridade em Cuba é amplamente distribuída entre a alta cúpula do Partido Comunista, outros oficiais governamentais e as forças armadas, uma estrutura que persiste desde a revolução de 1959 até o atual mandato de Díaz-Canel, iniciado em 2018. Essa dispersão de poder torna qualquer tentativa de desestabilização da liderança mais complexa e menos suscetível a manobras externas pontuais.
Temas de Interesse Mútuo no Diálogo Bilateral
Apesar da intransigência cubana quanto à sua liderança, o vice-ministro Carlos Fernández de Cossio, que já esteve à frente do escritório do Ministério das Relações Exteriores dos EUA, confirmou a existência de diversos temas de interesse mútuo nas discussões bilaterais. Embora tenha se recusado a fornecer detalhes sobre o local e a periodicidade dos encontros, Cossio mencionou a pauta comercial, que sofreu um duro golpe com o abrangente embargo econômico dos EUA contra Cuba. Outro ponto central de interesse para ambos os lados é a questão de compensações econômicas de longa data. Cuba apresenta reivindicações por danos causados pelo embargo, enquanto os Estados Unidos registram 5.913 reivindicações de cidadãos americanos cujas propriedades foram nacionalizadas na ilha após a revolução de 1959. Cossio ressaltou que, embora complexas, essas são questões legítimas que exigem diálogo e um ambiente propício para discussões construtivas.
A postura de Cuba, portanto, delineia claramente as fronteiras do seu engajamento diplomático: há abertura para discutir temas de cooperação e resolução de antigas disputas, mas não haverá concessões quanto à sua autodeterminação e ao direito de escolher seus próprios líderes. O diálogo entre Cuba e Estados Unidos prossegue, mas com os termos de sua soberania firmemente estabelecidos por Havana.
Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br