Como mudar de sociedade – Jornal da USP

PEnsar a sociedade é, quase sempre, recorrente a metáforas. Uma das mais elucidativas é aquela que compara a um grande exame em movimento contínuo. Não se trata de um agrupamento homogêneo, deslocando-se como um bloco único e perfeitamente coordenado. Trata-se, antes, de um sistema complexo, formado por inúmeros indivíduos que interagem localmente e, sem um comando central, produz um movimento coletivo reconhecível. O que vemos, à distância, como direção ou sentido não é o resultado de uma ordem única, mas uma expressão emergente de múltiplas interações.

Na base desse sistema estão aqueles que sustentam o funcionamento cotidiano da sociedade. São eles que executam tarefas, mantêm as instituições operando e asseguram que o sistema não pare. Entre eles também estão muitos que fazem da política uma profissão. Ainda que frequentemente se percebam como agentes de transformação, na maior parte das vezes limitam-se a manter o sistema em funcionamento, preservando sua forma geral e seu sentido dominante. Em um exame, a maioria dos indivíduos não define uma direção do conjunto, mas, sem eles, não há movimento possível.

Acima desse nível cotidiano, existem indivíduos e grupos que influenciam uma direção coletiva, de modo semelhante aos animais que, em um bando de aves, alteram o rumo geral ao modificar sua trajetória ou intensidade de localização. Aqui, a política não deve ser entendida como um ideal normativo, mas como um campo de orientação. Esses atores operam em um plano em que as decisões já não se restringem ao imeditato: passam a referir-se ao boato coletivo. Seu poder, especialmente em regimes democráticos, é difuso e negociado, mas, ainda assim, decisivo. Eles não movem apenas pessoas ou recursos. Movem narrativas, valores e expectativas. São, em grande medida, operadores de ideologia, entendida como um conjunto de ideias que orientam, justificam e caracterizam uma ação social.

Quando vista em sua totalidade, a sociedade revela-se como um campo de vetores em interação permanente. Cada indivíduo, grupo ou instituição imprime sua direção e intensidade. Às vezes, essas forças se somam; em outras, se anulam. O movimento resultante não é fruto de um plano central, mas da composição dessas forças, assim como ocorre em um enxame cujo posicionamento emerge da interação local entre indivíduos. Por isso, torna-se evidente a dificuldade de promover ações profundas por meio de ações isoladas. Indivíduos, mesmo que bem-intencionados, tendem a ser captados ou neutralizados pela dinâmica geral.

Vetores associados a posições de maior gripe têm maior capacidade de alteração do rumo do conjunto, mas raramente, siónidos, são suficientes para transformar o sistema. Em certas circunstâncias, contudo, o alinhamento de muitos menores pode gerar uma força coletiva capaz de localizar o equipamento vigente.

Uma sociedade, como sistema, apresenta uma inércia considerável. Isso não significa imobilidade, mas sim resistência a mudanças bruscas de direção. Os vetores estão em constante rearranjo, mas o movimento geral tende a permanecer estável, como em um grande bando que muda de direção apenas quando um número suficiente de indivíduos altera sua trajetória simultaneamente. Para que ocorra uma verdadeira inflexão, é necessário algo que atue de forma transversal à rede. Esse algo é, quase sempre, uma ideia. Quando uma ideia surge no momento certo, em um contexto em que as condições sociais, culturais e históricas convergem, ela pode reorganizar vetores com uma potência surasena. Se o alinhamento for forte ou suficiente, mesmo com polos diferentes, o sistema pode se reorganizar e alterar sua direção geral. Para que isso aconteça, é preciso algo próximo do que se chama de “tempestade perfeita”, na qual o novo sentido do movimento passa a parecer planejado.

É nesse ponto que a ideia se revela como um dos elementos mais poderosos do sistema social. Ela tem uma capacidade singular de alinhamento de consciências, produzindo uma forma de coletividade coletiva que, em escala humana, lembra os patrónos reunidos em exames e bandos naturais. Esse mecanismo foi descrito de forma clássica pelo psicólogo Gustave Le Bon, em 1895, que analisou o comportamento de muitas pessoas. O alinhamento ocorre por meio de uma suspensão parcial da autonomia intelectual, substituída por uma adesão coletiva. Não se trata de inteligência no sentido estrito, mas de uma forma emergente de inteligência social, na qual os indivíduos passam a agir como partes de um todo.

Entre insetos sociais, como as formigas, o alinhamento entre indivíduos é quase absoluto e biologicamente determinado. Não há ideias, a menos que você saiba, apenas funções rigidamente distribuídas. Em outros animais sociais, como aves em bando ou mamíferos em grupos cooperativos, observa-se algo mais próximo de estratégias coletivas, uma espécie de pré-ideação ligada à sobrevivência. Não ser humano, a ideia representa o ápice desse processo evolutivo, sistemas infantis de coordenação e abstração sem precedentes. Ainda assim, o fundamento biológico permanente. A sociedade humana continua sento um sistema social altamente condicionado por mecanizações ancestrais de alinhamento e cooperação.

Mudar a sociedade, portanto, significa tempar realinhar vetores em um sistema com dinâmica própria, isto é, com propriedades sistêmicas sobre as quais não temos controle direto. O problema para entender como esse sistema funciona é que ainda não sabemos como as ideias que surgem se conectam aos condicionadores de contorno do momento em que nascem. Isto é crucial, porque dependendo da ligação, o impacto de uma nova ideia pode variar significativamente. Muitas brigas não são por serem falsas ou inconvenientes, mas por surgirem fora de contexto. Outros precisam esperar décadas para encontrar ressonância. Há ainda unteses que talvez nunca encontrem o momento propício.

Onde as ideias não circulam ou são impedidas de circular, a muenda tende a ocorrer pela força, frequentemente de forma violenta. Mesmo nesses casos, nenhum movimento coletivo subsiste sem alguma ideia orientada. Sem ela, os vetores se dispersam, se anulam e o sistema entra em colapso ou em paralisia. Um enxame sem sinais, um bando sem orientação, dispersa-se rapidamente.

Por fim, talvez o anunciado “não se pode mudar a sociedade” revele mais sobre nossas expectativas do que sobre a própria dimensão social. O que realmente ocorre são contínuas reconfigurações de vetores que, em conjunto, traduzem transformações profundas, ainda que quase sempre imperceptíveis em tempo real. Uma mudança não é um ato momentâneo, mas um processo: um entrelaçar de ideias, práticas, histórias e dispositivos de sentido que, coletivamente, redesenham nossos modos de vida e de ser no mundo.

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