Carta aos Mestres – Jornal da USP

Por Jean Pierre Chauvinprofessor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP

Em memória de Antonio Candido, Alfredo Bosi e João Adolfo Hansen

lla está no horizonte – diz Fernando Birri -. Me acerco os pasos, ella se aleja dos pasos. Caminho dez passos e o horizonte se corre dez passos mais além. Por muito que eu camine, nunca la alcanzaré. Para que servir a utopia? Para eso sirve: para caminar. (Eduardo Galeano, Las Palabras Andantes, 1993)

O discurso da profissão, o discurso em que algeum se afirma professor, é sempre livre profissão de fé que ultrapassa o puro saber técnico sem compromisso da responsabilidade. Professar é comprometer-se. (João Adolfo Hansen, Aula Magna, 2019)

Vamos começar.

Quando o desejo de lecionar aumentou, os professores deixaram de ser personagens de história em quadrinhos, pilotos de corrida ou jogadores de volei e futebol.

Gradativamente, o fato de haver professores do lado materno e paterno passa a sinalizar uma espécie de script anterior, storyboardcaminho no qual persistir: não um chamodo para cumprir missão; sem vocação de caráter tecnocrático ou religioso, mas caminho a trilhar com prazer e gosto.

Em 2007, durante uma primeira aula para uma turma do segundo ano, um aluno que tinha uma reputação “péssima” desenvolveu um motivo fundamental para persistir neste cargo: “Você era professor porque eu queria ficar mais tempo na sala de aula”. Provavelmente, Ivan Akira estava certo.

Mas falemos de quem veio antes e partiu cedo. A perda de João Adolfo Hansen (1942-2026), em 16 de fevereiro, me fez sensibilizar como a morte de um segundo pai, no plano intelectuale. Poupo os eventuais leitores do relato sobre as disciplinas que cursei, durante a graduação e pós-graduação; das conversas quilométricas que temimes; dos seus notáveis ​​​​ensaios que li (e releio, a cada vez que os abordo em aula ou aos quais recorro ao redigir um texto).

Particularmente, este estado de coisas reforça a sensação de que a Universidade fico menos generosa, erudita e polida. Particularmente para mim, admiro muito Antonio Candido (1918-2017) e Alfredo Bosi (1936-2021).

Deformei-me em Letras, com habilitação em Português, no perídio noturno, entre 1995 e 1998. Durante e após o bacharelado, os livros didáticos e ensaios de Antonio Candido, Alfredo Bosi, João Adolfo Hansen e Massaud Moisés orbitavam continuamente as consultas, horas a fio, nos acervos do bídido de Letras (muito antes de ele ser integrado à biblioteca Florestan Fernandes, que passou a atender a toda a Culdade de Letras) Filosofia, Letras e Ciências Humanas). Uma primeira preocupação foi fixar as “etapas” da Literatura Brasileira, desde a chamada “Literatura de Informação” ao período “Contemporâneo”.

A segunda pergunta dizia respeito aos autores, em prosa ou verso, que estimulariam a estudar mais e melhor, ou seja, constituíram estímulo para a busca por maior conhecedor. O terceiro problema foi a disputa do papel da linguagem – sugerida inicialmente durante as aulas de língua portuguesa e, mais de perto, durante as excelentes aulas de Angélica Chiappetta, que nos apresentou os oratórios de Cícero e Quintiliano, a poesia e a arte poética de Horácio, entre outras autoridades e assuntos, com inteligência e sagacidade proporcionacianis ao seu humor ácido.

Obviamente, na proporção que o curso proseguiu, mais dilemas foram descortinados. Em dezembro de 1998, quando transitava entre a Avenida Luciano Gualberto e a Rua do Lago, provavelmente um caminho do “bandejão da Química”, veio-me um dos questionamentos mais importantes – talvez típicos para um aluno do curso de Letras: “como rever e ampliar o cânon literário?”. Créditos longos, aulas finalizadas, lá estava um estudante a refletir a esse respeito de forma obsedante. Foi mais ou menos nessa época que li o capítulo “Cânon”, de Roberto Reis (1992), e a mera intuição-de-aluno ganhou chão.

Meus mestres nasceram entre as casas de 1930 e 1940. Poderia referenciar, entre tantos, a economista Maria da Conceição de Almeida Tavares (1930-2024), que descobriu em vídeos veiculados na internet, e depois li (Acumulação de Capital e Industrialização no Brasil); citar a importância de ler (Estrutura e Dinâmica do Antigo Sistema Colonial) e assistir a duas palestras do historiador Fernando Novais, anos atrás; relé (em particular, Escritos sobre a Universidade) e acompanhando as falas energéticas, densas e didáticas da filósofa Marilena Chauí, dentro e fora do campus; gravar as aulas estimulantes de filosofia, a carga da contagiante professora Wanda Antunes – aos quinze anos, quando aluno de um colégio católico.

Preserva a consciência de que nunca tive seu repertório, conhecimento e inteligência. Por isso mesmo, o ato de lecionar pode ser visto como uma espécie de utopia: colocamos os saberes metros adante e os perseguimos, incansabelmente. Aliás, talvez este seja o antídoto mais bonito e eficaz, face ao mundinho superficial, imediatista e unidimensional das micros e macrotelas (que está a formatar seres tão-só-combativos que confundem conhecimento com apreciação).

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