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Atividade física deve fazer parte do tratamento de pacientes com câncer

A recomendação de que pacientes com câncer precisam repousar ficou de vez para trás. Durante o XI Congresso Internacional Oncologia D’Or – Onco in Rio 2026, realizado no Rio de Janeiro, especialistas destacaram a importância do exercício físico durante o tratamento oncológico, demonstrando evidências de que a prática reduz efeitos colaterais e melhora o prognóstico da doença.

Uma das evidências citadas foi o estudo Challenge, divulgado em 2025, que avaliou o impacto da atividade física em quase 900 indivíduos com câncer colorretal. Os resultados indicaram que pacientes com um programa estruturado de exercícios tiveram redução de 28% no risco de recidiva e 37% de diminuição no risco de morte por qualquer causa.

“Se o exercício fosse uma pílula que reduzisse o risco de intercorrência em 28% e aumentasse a sobrevida global em 37%, não tenho dúvidas de que todo médico estaria prescrevendo. Muitas drogas que nós utilizamos com tantos efeitos colaterais não chegam a ter esse benefício”, disse Renata Cangussu, oncologista especializada em tumores femininos da Rede D’Or — Regional Salvador. 

Segundo Paulo Hoff, oncologista, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e presidente da Oncologia D’Or, o impacto do exercício nesse estudo foi semelhante ao da quimioterapia. “O exercício físico melhora a questão da estrutura do paciente, da musculatura, mas também diminui a inflamação. Se esse trabalho não convencer todo mundo do quão importante é a atividade física, eu não sei o que vai”, afirmou durante coletiva. 

 

Redução de sintomas e efeitos colaterais

A atividade física não atua apenas na prevenção do câncer, mas também é aliada durante todo o tratamento e depois dele. Entre os benefícios, destacam-se:

  • melhora da aptidão cardiorrespiratória e força muscular;
  • aumento da função física, autonomia e saúde óssea; 
  • melhora da habilitação pré-cirúrgica;
  • redução do tempo de internação pós-operatória;
  • diminuição da cardiotoxicidade provocada pelo tratamento oncológico; 
  • redução de sintomas de depressão e ansiedade;
  • melhora do sono e fadiga. 

“Em relação à fadiga, que é um dos principais efeitos — um sintoma quase universal para todo paciente que está em tratamento oncológico —, a prática de atividade física é considerada categoria um, a principal forma de prevenção e tratamento desse sintoma. Nós não temos nenhuma droga disponível que consiga realmente melhorar esse sintoma, mas a atividade física é extremamente efetiva”, explicou Cangussu.

Veja também: Fadiga do câncer: por que pacientes oncológicos sentem tanto cansaço?

 

Exercício deve ser prescrição médica

Recomendar para o paciente “faça atividade física” normalmente não basta. A especialista apontou que, quando há um detalhamento da orientação, a chance de adesão é muito maior. Nesse cenário, destaca-se a chamada prescrição FITT (especificando frequência, intensidade, tempo e tipo). 

“A atividade física deixa de ser uma recomendação opcional e passa a ser uma intervenção padrão, na verdade, que deve ser vista como um remédio nos diversos cenários para o paciente que teve o diagnóstico de câncer”, afirmou. 

Se o exercício age como um remédio, qual é a posologia? Ela detalha o cenário ideal: 

  • 150 a 300 minutos de atividade aeróbica de intensidade moderada por semana;
  • duas a três sessões semanais de atividades de resistência. 

De maneira geral, o exercício é considerado seguro e não há contraindicação para pacientes oncológicos. O que pode ocorrer é uma necessidade de avaliação extra (como a de um fisioterapeuta) quando há questões específicas, como metástases ósseas, plaquetas muito baixas, infecção em vigência ou anemia severa, por exemplo.

“Mas na maior parte das vezes, o que a gente precisa talvez seja de uma adaptação para essa paciente, então, a gente pode adaptar a modalidade, adaptar a intensidade, e não simplesmente limitá-la a deixar de fazer atividade física”, esclareceu.

A prescrição ainda não é prática geral nos consultórios dos oncologistas, mas deve se tornar em breve. “Se você me perguntar se está completamente adotado, acho que talvez ainda não, mas será e acho que é importante. Eventos como esse nos ajudam a disseminar essa ideia”, opinou Hoff.

 

Importância das políticas públicas

Pensar em políticas públicas voltadas para o movimento e colocar atividade física como um direito das pessoas também são pontos fundamentais nessa discussão, conforme apontou Fábio Carvalho, professor de educação física, sanitarista, doutor em saúde pública e tecnologista no Instituto Nacional do Câncer (Inca), na ocasião. 

“As pessoas ressignificam o movimento a partir da sua história de vida, do seu contexto. A atividade física não é a maior maravilha do mundo para todas as pessoas. ‘Ah, eu fui excluído na educação física escolar, eu tinha uma forma corporal que não era aceitável, eu não tinha habilidade e ficava de fora. Então, eu cresci não gostando de atividade física por um motivo muito prático’. Pensar nisso, ampliar o debate e dialogar com as pessoas e trazê-las para a atividade física novamente é essencial”, disse ele.

Veja também: Quem tem dores crônicas pode fazer atividade física? | Por Que Dói?

 

A jornalista viajou ao congresso a convite da Rede D’Or.

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