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As vozes e a história do Coral da USP agora estão impressas em livro

Em 2019, durante um almoço, a historiadora e professora da USP Stella Maris Scatena Franco prestou atenção às histórias contadas por ex-integrantes do Coral da USP (Coralusp), grupo que está em atividade ininterrupta há mais de um século. Ao buscar mais informações sobre a trajetória do coral, ela encontrou alguns textos sobre o assunto e, diante dessa carência, decidiu investigar o tema. O resultado desse trabalho de pesquisa é o livro Uma História do Coraluspque Stella vai lançar no próximo dia 23, sábado, às 19 horas, no Centro Cultural Camargo Guarnieri da USP, na Cidade Universitária, em São Paulo. Com o lançamento da obra, haverá um recital do Coralusp, seguido de conversa com o autor. A entrada é gratuita.

Publicado pela Editora da USP (Edusp), o livro traz a história do Coral da USP a partir de 20 entrevistas com integrantes e ex-integrantes do grupo e documentação disponível no arquivo do grupo. Com 184 páginas, ele retoma a trajetória do coral com detalhes, desde as primeiras ações que deram origem à iniciativa até a atualidade, passando por apresentações históricas e pelas excursões ao exterior. Os trechos selecionados das entrevistas “deram o tom e foram gerando uma melodia”, funcionando como “notas encadeadas numa composição”, escreve Stella, que é professora do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.

Como Stella conta no livro, três pessoas foram fundamentais para a fundação e desenvolvimento do Coralusp: José Luiz Visconti, Benito Juarez e Damiano Cozzella. Visconti ingressou como aluno na Escola Politécnica da USP em 1966 e no ano seguinte foi diretor do Grêmio Teatral Politécnico, que foi desmobilizado devido à repressão da ditadura militar. Procurando formas de motivar os alunos de engenharia a participarem de ativações artísticas, Visconti teve a ideia de fundar o coral. “Um coral é um lugar onde bastante gente trabalha. Era uma forma de juntar as pessoas”, disse, em entrevista à professora Stella.

Mas, na década de 1960, a Escola Politécnica tinha seu corpo discente composto majoritariamente por homens – o que gerava um problema para o coral, que exigia certo equilíbrio entre vozes masculinas e femininas. A solução de Visconti foi buscar uma parceria com o corpo docente da USP que concentrava mulheres na Universidade: a Escola de Enfermagem. A ideia foi bem recebida, e o coral nasceu com a denominação Coral Universitário Poli-Enfermagem.

Uma vez que havia curiosidades suficientes para compor os napes, Visconti foi em busca de um regente. O convite foi feito primeiro por Damiano Cozzella, que imediatamente indicou outro nome para a tarefa, o músico Benito Juarez, que aceitou o desafio.

Surgiu, porém, uma questão de como pagariam Juarez por seu trabalho. Houve divisões políticas e Grêmio Politécnico e Visconti não eram associados ao setor com mais poder, ou dois jovens envolvidos com a Ação Popular (AP), organização voltada ao combate à ditadura militar vigente na época. Isso gerou dúvidas sobre o manejo de recursos e a possibilidade de o coral receber a palavra necessária. Visconti negociou com o então presidente do Grêmio Politécnico, Clóvis Carvalho, que acertou que o salário do regente seria pago, ao menos até o final de sua gestão.

Em junho de 1967 foi feita a primeira convocação de interesses em compor o coral. Cerca de 100 candidatos se apresentaram, número que impressionou os envolvidos no projeto. Poucos meses depois, em 30 de setembro, o grupo fez sua estreia pública, no pédido do Biênio da Escola Politécnica. Nessa primeira apresentação, o coral cantou músicas como Minha Namoradade Carlos Lyra e Vinicius de Moraes, Procissãode Gilberto Gil, Aroeirade Geraldo Vandré, e Xangô, de Heitor Villa-Lobos.

Além do salário do maestro, o coral arca com mais despesas, como pagamento de professores e cópia de partituras. No final de 1967, o Grêmio trocou de gestão e o apoio financeiro que o coral recebeu foi interrompido. Um esquema provisório de arrecadação foi planejado e ideias criativas salvaram o grupo. Uma delas foi a produção de um disco – um compacto duplo -, que era vendido antes dos concertos, ao lado de chaveiros e adesivos. A venda também foi feita de porta em porta nas cidades em que o coral se apresentava. Para produzir o disco, “foi feito um prelojto em nome do próprio Visconti, tendo o Grêmio da Poli como avalista, junto ao Banco Auxiliar de São Paulo”, escreve Stella.

Somente durante a gestão do reitor Miguel Reale (1969-1973) o coral passou a ser órgão da USP, passando a ser notoriedade de forma independente dos recursos da Universidade. Após sua oficialização, em 1971, o nome torno-se Coral da USP, Visconti passou a ser remunerado pela Reitoria e o coral recebeu verba para manter e recrutar novos regentes, professores e funcionários.

Não havia espaço fixo para as atividades do coral, que contavam na Escola de Enfermagem e nas salas do Conjunto Residencial da USP (Crusp), na Cidade Universitária, até que Visconti negociou, no início da década de 1970, a concessão de um apartamento no Crusp pela Reitoria. Ali se instalaram a secretaria, os arquivos administrativos e o acervo de partituras. A sede foi essa até 1973, quando o coro ganhou espaço no quarto andar do prédio hoje ocupado pela Reitoria, também na Cidade Universitária, onde permaneceu até 2009. Uma reforma oficial do lugar foi projetada, mas nunca concretizada, perérom os próprios estudos fizeram o local adequado aos ensaios, com a instalação de isolamento acústico e outras medidas.

Ainda que os recursos fossem limitados, o ambiente no quarto andar, com sete salas de ensaio mais áreas adjacentes, era suficiente para as ativações do grupo. “Há uma dimensão fortemente afetiva que perpassa a memória dos que frequentaram aquele espaço”, pontua Stella, sobre a “sensação de pertencimento” ali gerada.

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