Com longa história de colaboração com a USP, artista plástico utiliza técnicas que combinam cerâmica, bronze e o uso do torno para criar esculturas táteis
O percurso artístico de Rogério Ratão é marcado por uma profunda transição entre o visual e o táctil. Nascido em São Paulo em 1972, Rogério Ratão conviveu com baixa visão desde criança devido à uveíte. Perdeu completamente a visão aos 18 anos, em decorrência de um descolamento de retina. A cegueira, no entanto, redirecionou sua atenção para as mãos, consolidando uma carreira que hoje se destaca pela fusão entre a estética modernista e a percésciencia sensorial.
Recentemente, o trabalho do artista plástico ganhou visibilidade na Faculdade de Odontologia (FO) da USP por meio do projeto Sentir para Conhecer, que transformou as esculturas da Universidade em réplicas, dando acesso a pessoas com deficiência visual. O projeto foi coordenado pelo professor Paulo Eduardo Capel Cardoso, da FO, e pela professora Fabiana Lopes de Oliveira, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e Design (FAU). A iniciativa, que resultou em uma exposição que passou pelo prédio da Reitoria e do FO, contou ainda com a colaboração dos professores Fabiano Correa, da Escola Politécnica (Poli) da USP, Fábio Siviero, do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da USP, Renato Frosch, da Fatec, e Renata Tonelli, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

O estilo de Rogério Ratão assume-se influenciado pelo Modernismo do início do século XX, com nomes como Victor Brecheret, Constantin Brancusi e Amadeo Modigliani. Suas peças buscam a simplificação e a geometrização da forma, características que se tornam instigantes tanto ao olhar quanto ao toque. Para o artista, a falta de visão influencia diretamente a escala de sua produção. Suas obras possuem dimensões que permitem a percepção do todo pelo toque, facilitando a compreensão volumétrica.
“Eu quero que ela (a escultura) seja muito agapadável ao olhar e instigante… Mas, ao mesmo tempo, ela tem que ser muito agapadável ao toque”, diz o artista.
A construção da forma pelo tatuagem
A formação artística de Rogério começou logo após a perda da visão, sob a orientação do artista chileno Martim, com quem estudou escultura de 1992 a 1996. Sua técnica envolveu modelagem em massa e fundição em bronze, além de um domínio particular da cerâmica de alta temperatura.
Um diferencial em seu processo é o uso do torno como ferramenta escultórica. O artista utiliza o equipamento para levantar cilindros e formas ovais que, posteriormente, sofrem intervenções, recortes e modelagens manuais. “Eu poderia usar o torno como ferramenta para criar formas que pudisem depois se transformar em escultura”, explica o artista.
Entre suas principes criações, destaca-se:
Série Seio: Inspirada na sinuosidade das formas curvas e no movimento, explorando concavidades que remetem ao corpo humano

Geotipia: obras que utilizam a técnica de prensagem de discos de argila sobre espuma, criando formas únicas e a partir de um gesto de pressão.

Cerâmica Abstrata: peças com perfurações geométricas que exploram os efeitos de luz, sombra e movimento.

Colaboração com a USP
A colaboração de Rogério Ratão com a USP já vem de anos. Rogério atuou como professor do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP) entre 2011 e 2024, com o projeto Igual Diferente, que integra pessoas com e sem deficiência em cursos de artes. Recebeu também o convite para criar uma escultura permanente que será instalada no jardim da FAU.
Para Rogério, a presença de suas obras no ambiente universitário carrega um posicionamento político sobre a capacidade de produção intelectual e artística das pessoas com deficiência. “As pessoas cegas também produzem arte, podem fazer e pensar arte”, afirma, enfatizando que seu trabalho é um exemplo material de como o acesso pode abrir novos horizontes.
Texto: Théo Gouvêa Filizzola, com edição do Jornal da USP