Durante 18 meses, a família de Eid Nael Abu Shaar, um palestino de Gaza, acreditou que o filho mais velho estava morto.
Eles vasculharam Gaza em busca de seu corpo, obtiveram uma certidão de óbito e ergueram uma tenda para lamentar sua perda, mas então um telefonema inesperado de um advogado confirmou que ele estava vivo e detido na prisão de Ofer, em Israel.
Terminou uma agonizante busca de um ano e meio pelo Eid, mas a revelação destaca a situação devastadora de milhares de outras famílias na Faixa de Gaza que ainda aguardam notícias sobre os seus familiares desaparecidos.
O seu destino permanece obscuro e as famílias não sabem se os seus entes queridos estão sob os escombros, se estão enterrados em valas comuns não identificadas ou se estão detidos em centros de detenção israelitas, como Ofer, onde a tortura é comum e os palestinianos enfrentam internamento por tempo indeterminado.
Uma busca desesperada entre os mortos
Eid desapareceu em 15 de dezembro de 2024, enquanto procurava trabalho para sustentar sua família perto do Corredor Netzarim, no centro de Gaza, também conhecido como o “Eixo da Morte”. Israel conquistou e ocupou esta faixa de terra que separava o norte de Gaza do sul e se tornou um lugar onde centenas de palestinos, incluindo crianças, foram mortos ou desapareceram.
Seu pai, Nael Abu Shaar, disse que a busca por Eid levou a família à beira do desespero.
“Eu dormia nas portas dos necrotérios e dos hospitais”, disse ele à Al Jazeera. “Sempre que anunciavam um corpo não identificado ou um mártir, eu corria dia e noite. Procurei nos hospitais de Al-Aqsa, al-Awda e Nuseirat.
A família contactou o Comité Internacional da Cruz Vermelha (CICV) e grupos de direitos humanos para tentar encontrar o seu filho, mas, vez após vez, chegaram a um beco sem saída. Sem registro de sua detenção, a família acabou cedendo ao peso das provas, abriu uma tenda de luto e obteve documentos oficiais do Ministério da Saúde classificando-o como morto.
Um milagre celebrado com doces
Mesmo assim, a mãe de Eid nunca perdeu a esperança de que o filho ainda estivesse vivo. “Todos me disseram que precisávamos realizar a oração fúnebre ausente, mas eu recusei. Meu coração me disse que Eid estava vivo”, disse Maha Abu Shaar.
Então, um raio de esperança surgiu há um mês, quando um detido libertado disse ter encontrado um homem chamado Eid Abu Shaar na prisão. A história foi finalmente confirmada na segunda-feira por um advogado, provocando uma onda de celebração em Gaza. A Al Jazeera transmitiu cenas da família Abu Shaar e seus vizinhos distribuindo doces em suas casas simples, transformando um local de luto na celebração de um “milagre”.
Ocultação sistemática
A história de Eid fornece uma rara boa notícia durante uma catástrofe humanitária, mas Nada Nabil, diretora do Centro Palestino para Desaparecidos e Desaparecidos à Força, disse que muito mais famílias estão presas no limbo. “O caso de Eid Abu Shaar faz parte de um padrão muito mais amplo”, disse ele à Al Jazeera. “Estimamos que entre 7.000 e 8.000 palestinos estão atualmente desaparecidos devido à guerra, e acredita-se que aproximadamente 1.500 deles tenham desaparecido à força dentro das prisões israelenses”.
A negação de informações por Israel sobre detidos como Eid não é um descuido administrativo, mas uma tática militar deliberada para prolongar a dor das famílias palestinas, disse Nabil. “A ocupação adopta intencionalmente uma política de sigilo total para aprofundar o sofrimento e a dor das famílias de Gaza”, explicou. “É um procedimento fácil emitir listas de detidos ou permitir o acesso do CICV, mas eles escolhem a ocultação como forma de tortura psicológica e punição coletiva”.
O fardo do ‘luto suspenso’
A situação tem levado as famílias a vivenciar um fenômeno conhecido pelos psicólogos como “luto suspenso” ou “perda ambígua”, que paralisa a vida de milhares de famílias que perderam entes queridos. As famílias que enterraram os seus familiares muitas vezes encontram uma forma de seguir em frente, mas aqueles que não têm informações sobre o destino dos seus entes queridos permanecem presos num “ciclo contínuo entre a esperança e o desespero”, disse Nabil.
“Este impacto não é apenas psicológico. É social e jurídico”, acrescentou Nabil. “As esposas não sabem se são viúvas ou ainda casadas, o que afecta questões (como) novo casamento e herança. Além disso, nas duras condições de deslocamento em Gaza, onde é necessária toda a mão para ir buscar água ou montar tendas, a perda de um jovem como Eid coloca um imenso fardo físico e económico sobre os restantes membros da família”.
Paralisia e medo internacionais
Nabil descreveu o “fracasso total” das organizações internacionais que operam em Gaza e como o CICV foi proibido de visitar as prisões israelenses ou de receber listas de detidos desde o início da guerra genocida de Israel contra os palestinos em Gaza. “Vivemos num mundo governado pelo poder, não pela lei”, disse Nabil. “A incapacidade global de obrigar Israel a seguir o direito humanitário internacional deixou as vítimas em Gaza vulneráveis a todo tipo de violação.”
Talvez o mais trágico seja o facto de as famílias temerem que denunciar o “desaparecimento” dos seus entes queridos possa torná-los alvo de um ataque aéreo punitivo israelita. “Outros temem que a divulgação do nome de um detido possa levar a uma tortura mais severa para a pessoa que está lá dentro”, disse Nabil.
Na casa de Abu Shaar, a distribuição de doces continua, mas a alegria continua incompleta. “Estou feliz, mas agora meu coração está ainda mais preocupado”, disse Maha. “Agora que sei que ele está vivo, temo pelo que ele está sofrendo naquelas celas. Não ficarei totalmente feliz até que o tenha em meus braços novamente.”