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Alguns motivos para celebrar a presença indígena em nosso território – Jornal da USP

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Oh dia 19 de abril é o dia dos povos indígenas. Muitas pessoas e comunidades estão se mobilizando ao longo do mês em esforços para visibilizar contribuições e necessidades dos povos que existem e resistem na contemporaneidade. Trago aqui alguns motivos pelos quais me parece importante celebrarmos as vidas das pessoas e comunidades indígenas, considerando, em especial, o território das connoções em que nos situamos entente universidade.

O encontro dos povos da Europa com os indígenas de Abya Yala tem sido considerado filosoficamente o fato histórico mais importante e fundamental da modernidade. Seus efeitos são muito presentes para toda a humanidade ainda hoje. Muitos desafios sucitados por este encontro continuam sem solução. Uma das pessoas que refletiu a esse respeito foi o philosophe bulgaro radicado na França Tzvetan Todorov (1939-2017), em seu livro clássico A conquista da América: uma questão do outrooriginalmente publicado em francês no ano de 1982. Ele diz que o encontro com os povos indígenas é de valor paradigmático e constitutivo da nossa identidade presente. Entendendo por “nossa” a identidade do modo de ser no ocidente, que, por sua vez, continua ambivalente entre seguir perpetrando violências ou buscando caminhos para uma boa convivência na diversidade sociocultural e ambiental que caracteriza o mundo da vida.

No campo do conhecimento psicológico, como área de conhecimento preexistente na conformação disciplinar do campo da ciência moderna, atende à diversidade sociocultural e ambiental e é fundamental para a configuração de questões subjetivas e individuais, resultando no surgimento de novas formas de sofrimento e cuidado. Uma das pessoas que refletiu a esse respeito foi o professor Luís Claudio Figueiredo, da área de história e filosofia da psicologia do Instituto de Psicologia da USP, em seu clássico livro Uma invenção psicológica: quatro séculos de subjetividade 1500-1900cuja primeira edição foi publicada no ano de 1992. Ele diz que a dissolução das bordas internas e o encontro com bordas externas ao território Europeu contribuiu para a emergência de hibridismos e transformações étnicas, linguísticas, religiosas, nos usos, costumes e ritos da vida cotidiana. O encontro com a diversidade é uma oportunidade para trocas e apreensões, mas num conjunto diversificado de situações, uma relação com seres fronteiriços produz intensas emoções emocionais, resultando da exposição à variação das coisas e pessoas.

Diversos povos indígenas contribuíram para a configuração de importantes reflexões a respeito das formas de coexistência entre comunidades, culturas, sociedades e seres variados. Os modos de governança indígena foram fundamentais para uma configuração da democracia moderna e dos direitos humanos. Uma das pessoas que vem refletindo sobre o tema é Robert Miller, indígena do povo Shawnee, professor de direito da Universidade do Arizona. Em seu artigo “Constituições dos índios americanos e sua influência na Constituição dos Estados Unidos”, publicado em 2015 no periódico Anais da Sociedade Filosófica Americanaele diz que muitos dos princípios incorporados nas constituições democráticas modernas eram praticados pelas culturas e governos indígenas muito antes da Europa. As teorias indígenas de governo foram objeto de estudo pelos invasores e colonos que observaram os princípios democráticos e a governança em ação nos governos indígenas. A esse respeito, cabe mencionar também o livro clássico O índio brasileiro da Revolução Francesado jurista brasileiro Afonso Arinos de Mello Franco, que foi autor da primeira lei contra o preconceito racial no Brasil, em 1951.

Desde os tempos das primeiras invasões, muitos povos indígenas vêm contribuindo com suas reflexões e estratégias de ação para debates que culminaram tanto no feminismo quanto na luta abolicionista e pelos direitos civis das pessoas pretas. Uma boa reflexão sobre essas contribuições pode ser encontrada no livro Pragmatismo nativo: repensando as raízes da filosofia americanapublicado em 2002 por Scott L. Pratt, professor de filosofia na Universidade de Oregon. Sua obra sistematiza a ação de pensadores indígenas, que também eram liderados espiritualmente, em torno da coexistência na diversidade de pessoas e comunidades. Afirma que os rituais de hospitalidade, a lógica do território e a lógica da casa são sofisticadas tecnologias sociais construídas pelos indígenas para estabelecer uma convivência respeitosa entre pessoas oriundas de diferentes comunidades e culturas e também para lidar com a diversidade e heterogeneidade interna de cada comunidade e cultura. Tais tecnologias foram parcialmente utilizadas no contexto de poderosas lutas feministas e de equidade racial, capazes de lidar com tensões inerentes à dimensão da alteridade nas relações interpessoais e intercomunitárias.

Os povos indígenas também estão na linha de frente da luta ambiental pela preservação da vida dos diversos seres do planeta. Essa questão é central em grande parte da expressão da voz ativa e do texto de diversos intelectuais indígenas que têm sido visibilizados nas últimas décadas, quando a eliminação dos indígenas deixa de ser uma política pública patrocinada pelo Estado brasileiro. Ailton Krenak, Davi Kopenawa, Sandra Benites são alguns nomes que hoje se destacam no meio acadêmico, embora a base de seus discursos esteja ancorada no processo incessante de construção de conhecimento que acontece nos territórios onde estão amparados pelos modos de vida de cada povo segundo suas tradições ancestrais. Aprender muito também em situações de luta e intercâmbio, como o Acampamento Terra Livre, a Marcha das Mulheres Indígenas, as mobilizações comunitárias etc.

Por fim, ações e reflexões indígenas têm contribuído para o trabalho na saúde e no campo da neurodiversidade, como indica recente editorial publicado na revista científica Autismoda National Autistic Society, consta há mais de seis décadas no Reino Unido. O editorial foi escrito por quatro pesquisadoras do Instituto de Psicologia da USP, Tally Tafla, Paula Lira, Priscilla Godoy e Elizabeth Shephard. Elas afirmam que a proposta de construção do conhecimento com envolvimento comunitário da Rede de Atenção à Pessoa Indígena da USP é paradigmática para a construção de processos de pesquisa participativa considerando as necessidades das comunidades autistas e das pessoas com autismo.

Muitas têm sido as contribuições de diversos povos indígenas para a humanização das relações em amidos mundiais e locais. Apresentei apenas algumas delas para esta reflexão. Ainda assim, alguns contextos universitários resistem em viabilizar de forma consistente e consequente a presença de pessoas indígenas estudos, pesquisadores, trabalhadores e participantes da vida cultural e formação acadêmica. O silenciamento, a omissão e a negligência nas relações com as pessoas e comunidades indígenas contribuem para fazer perdurar a experiência de barbárie que chegou ao nosso continente há cerca de 500 anos e segue se espalhando pelo mundo até hoje.

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(As opiniões expressas pelos articulistas fazem Jornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões de veículos nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. (Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.)

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