Em novo artigo, Thiago Torres, da Pipo Saúde, analisa o contexto financeiro das operadoras de planos de saúde
Após o pico da sinistralidade em 2022, impulsionado pela retomada da demanda reprimida por serviços de saúde no pós-pandemia e pelos fortes reajustes dos planos, o setor de saúde suplementar apresentou melhora relevante, em 2025, com o índice caindo para 80,5%. O lucro líquido agregado das operadoras médico-hospitalares chegou a R$ 24,4 bilhões, o maior da série histórica nominal, com retorno sobre patrimônio líquido (ROE) de 16,4% — superior ao período pré-pandemia.
No entanto, essa recuperação não foi homogênea: ela foi sustentada principalmente por aumentos de mensalidades acima dos custos assistenciais, maior controle de fraudes, ampliação da coparticipação e redução de reembolsos, além do impacto positivo das altas taxas de juros sobre os resultados financeiros. O cenário também revela concentração de lucro nas maiores operadoras e fragilidade em segmentos como autogestões, com prejuízos crescentes e riscos para milhões de beneficiários, enquanto indicadores como o VCMH apontam uma desaceleração da inflação médica, aproximando-se dos níveis gerais da economia.
O relatório da ANS documenta o sucesso das grandes. O que ele não capta com a mesma clareza é o que acontece no interior das empresas contratantes, que são, ao fim, quem paga a conta.
Parte significativa da melhora nos índices do setor foi financiada pelo bolso dos colaboradores e pela redução de cobertura, não por ganhos reais de eficiência assistencial. A pressão estrutural não desapareceu.
Os principais vetores de pressão de custo na saúde suplementar têm natureza estrutural e tendem a se intensificar no médio prazo. O envelhecimento populacional amplia de forma consistente a demanda por cuidados mais complexos e recorrentes, elevando a sinistralidade, enquanto a incorporação de novas tecnologias médicas — como terapias avançadas e medicamentos de alto custo — aumenta o gasto por paciente e reduz a previsibilidade atuarial. Em paralelo, a judicialização crescente fragiliza a lógica regulatória ao obrigar a cobertura de procedimentos fora do rol definido pela ANS, gerando custos adicionais e maior incerteza para o setor.
A reforma tributária surge como um risco relevante ao potencialmente elevar a carga sobre as operadoras, pressionando ainda mais um sistema que já opera com margens assistenciais apertadas. Esses fatores atuam de forma combinada: mais beneficiários idosos utilizando tecnologias mais caras, em um ambiente jurídico e regulatório menos previsível e possivelmente mais oneroso. Por isso, mesmo em momentos de melhora dos indicadores, a pressão estrutural de custos não desaparece, ela apenas é temporariamente compensada por reajustes, coparticipação ou efeitos conjunturais, como o cenário de juros elevados.
Essa distinção raramente aparece nos comparativos de mercado, mas é determinante para avaliar quem está de fato resolvendo o problema e quem apenas o está postergando. Operadoras com prêmios mais altos tendem a apresentar sinistralidade menor no papel sem necessariamente entregar mais saúde. Da mesma forma, empresas que elevaram coparticipação conseguiram reduzir o índice sem mudar o perfil de saúde da sua população.
O cenário para o próximo ciclo é de relativa estabilização com perspectivas mais favoráveis do que nos últimos anos, mas sem normalização plena. A tendência de reajustes menores deve se confirmar, sustentada pela queda do VCMH e pela sinistralidade comportada nas grandes carteiras. A janela de alívio é real e fará com que as operadoras sejam agressivas para ganhar novos clientes (e também reter clientes existentes com rentabilidade).
Soma-se a isso a possível elevação da carga tributária com a reforma em curso, que pode impactar diretamente a estrutura de custos das operadoras e, por consequência, o preço final dos planos.
O sistema permanece exposto a choques de demanda, como novas crises sanitárias, mudanças regulatórias abruptas ou até mesmo ciclos de represamento e liberação de procedimentos, que podem rapidamente reverter ganhos recentes. O ponto central é que a aparente estabilização atual não representa uma solução definitiva, mas um momento de acomodação sustentado por fatores conjunturais. Sem avanços consistentes em eficiência assistencial, coordenação de cuidado e modelos mais sustentáveis de financiamento, o risco é claro: o sistema continuará transferindo custo ao longo da cadeia — das operadoras para as empresas, e das empresas para os beneficiários —, aprofundando um ciclo que, no limite, compromete o acesso, a previsibilidade e a própria sustentabilidade da saúde suplementar no país.
*Os artigos publicados pelo Futuro da Saúde expressam a visão de seus autores e não representam, necessariamente, a posição do veículo. O objetivo é ampliar a reflexão e promover um debate qualificado sobre temas relevantes para a saúde.