A Quaresma é o período que vai da Quarta-Feira de Cinzas, um dia após o Carnaval, até a Quinta-Feira Santa, um dia antes da Paixão de Cristo.
A Quaresma em Paranaguá, no litoral do Paraná, sempre foi vivida com profunda religiosidade. Cidade histórica e tradicionalmente católica, mantém nesse período um clima de recolhimento, com celebrações mais sóbrias e intensa participação dos fiéis.
As missas, a Via-Sacra e as procissões da Semana Santa — especialmente na Catedral Diocesana de Nossa Senhora do Rosário — reúnem famílias e preservam costumes antigos. A abstinência de carne às sextas-feiras e o respeito ao caráter sagrado desse tempo reforçam uma tradição transmitida de geração em geração. Mais do que um período litúrgico, a Quaresma integra a identidade cultural e espiritual da cidade.
Meu caro leitor, quem nunca ouviu, nessa época, algum conselho vindo dos mais “experientes”? “Não saia na Quaresma”, diziam.
Muitos pais, receosos, advertiam as filhas: “Não dance na Quaresma, senão nasce um rabo”.
Não se sabe se era estratégia para impor disciplina ou apenas forma de manter viva a tradição.
Havia também outro alerta: “Se sair, vai encontrar o pé redondo”.
Histórias de lobisomens nas proximidades do Cemitério do Carmo e na distante Pixirica, relatos do boitatá cruzando caminhos escuros, visagens de mulheres que entravam em táxis e pediam para descer perto de antigos cemitérios — tudo isso parecia acontecer com mais frequência nesse período.
A Quaresma tornava-se o tempo em que o folclore se misturava à história e o imaginário ganhava força.
Entre as narrativas mais conhecidas está a lenda da Casa Afundada. Conta-se que, em certa Quinta-Feira Santa, o capitão-mor proibiu qualquer festividade, obedecendo às determinações da Igreja. Mesmo assim, um homem conhecido como Robert Inglês organizou um fandango às escondidas. Entre os jovens presentes estaria Lilica, que teria fugido de casa para participar do baile.
Durante a noite, uma discussão entre Pedro e Isabel teria marcado tragicamente os acontecimentos. À meia-noite, na passagem para a Sexta-Feira Santa, ouviram-se gritos e música ecoando na madrugada. Segundo a tradição, naquele instante a casa afundou misteriosamente.
Até hoje há quem diga que, nessa data, ainda se escutam, vindos do chão, sons de música e lamentos, como se o baile nunca tivesse terminado. A lenda ganhou versão cinematográfica em filme dirigido por Ciro Matoso, mantendo viva uma das narrativas mais marcantes do imaginário parnanguara.
Entre a fé, o respeito e as histórias que atravessam gerações, a Quaresma em Paranaguá continua sendo tempo de reflexão — e de mistério.
Caro leitor, na dúvida nesta época melhor descansar em casa, vai que…