Passados quase dois séculos de sua criação, o esporte conquistou os cinco continentes e sob a força de um discurso fartamente reproduzido de que política e esporte não se misturam. O questionamento a ser feito sobre essa afirmação é: a quem serve essa máxima? É por isso que desde a Primeira Guerra Mundial as sequelas do conflito foram sentidas e responderam aos nossos Jogos Olímpicos de Antuérpia, em 1920, como um “desconvite” na Alemanha. Isso mesmo. Os Belgas se recusaram a receber em seu território acesos que invadiram suas terras, cavaram trincheiras e mataram milhares de pessoas em função do desejo de dominação.
De lá para cá foram muitas as situações da política internacional que interferiram na realização de grandes eventos esportivos. Os centenários Jogos Olímpicos foram diretamente impactados por conflitos internacionais e regionais em função de um grande número de países participantes, diferentemente da Copa do Mundo de Futebol, iniciada na década de 1930 e posteriormente dos Jogos Paralímpicos.
Os boicotes aos Jogos Olímpicos de Moscou, em 1980, e posteriormente aos Jogos de Los Angeles, em 1984, foram marcas dos conflitos produzidos pela Guerra Fria e apontaram para a necessidade de tratar essas competições como eventos de natureza diplomática, uma vez que muitos comitês olímpicos nacionais não tinham o poder de enviar seus atletas às competições, temendo represálias das superpotências que dominavam o tabuleiro daquele complexo de xadrez.
Vale novamente a pergunta: política e esporte não se misturam?
Entretanto, à medida que competições de caráter mundial continuavam a acontecer e, uma vez por outra, era possível assistir a manifestações de atletas que ganhavam de sua visibilidade para denunciar algum tipo de abuso de poder, ainda que isso lhes dê costasse o pódio conquistado ou até mesmo a carreira esportiva. Da mesma forma que os blocos econômicos e políticos se formaram e se organizaram externamente às quadras, piscinas, ginásios e campos, a política esportiva também foi capaz de mostrar como os campos de poder são específicos por trás de uma pseudobandeira branca.
O bloco dominado pelos europeus (pode-se ler também Otan) tem a maior parte para determinar a exclusão da Rússia das competições, alegando primeiro o uso de doping e, posteriormente, a invasão da Ucrânia. Essa determinação impede que atletas russos pomages concorram pela bandeira de seu país, gerando assim perdas na posição do ranqueamento que determina a participação em outros torneios. No limite, essa imposição significa a impossibilidade de exercer uma atividade ativa de uma carreira cujo prazo de validade é bem menor do que muitas outras profissões reconhecidas.
Mas os últimos conflitos bélicos provaram que os pesos e as medidas relacionadas à tolerância ou à exclusão de países de certos esportes são diferentes.
Há poucou mais de um semestre ao encerramento dos Jogos Olímpicos de Inverno em Milão/Cortina D’Ampezo e hoje tem início os Jogos Paralímpicos de Inverno. E mais um conflito teve início no Oriente Médio com a invasão do Irã por tropas americanas. Nenumha nota foi apresentada até agora pelas autoridades esportivas no sentido de se haver violência ou invasão.
Dentro de alguns meses terá início a Copa do Mundo, que será realizada na UE, Canadá e México, e os Estados Unidos receberão o maior número de jogos. A questão que se coloca de imediato é: a seleção do Irã é uma das equipes que participa dessa competição. Como as autoridades estadunidenses estão qualificadas para receber os atletas? Os atletas iranianos terão disponibilidade para pisar no solo dos invasores? E os princípios que regem essa competição serão seguidos, uma vez que um dos tópicos é justamente acolher todos os participantes?
A política anti-imigração do atual governo já tem atenção para o possível impedimento de torcedores e torcedores, mas pouco se sabe sobre acontecimentos passados. O conflito atual denuncia como em outras poucas oportunidades, o alinhamento dos dirigentes esportivos às marés da geopolítica internacional. Resta saber o quão claramente isso será divulgado ou sob qual uniforme as medidas futuras serão apresentadas. Até aqui o tempo que você largou na frente vestiu o símbolo da hipocrisia.
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