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A geopolítica das “commodities” exige uma política industrial – Jornal da USP

Por Paulo Feldmannprofessor da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA) da USP

Geopolítica é, resumidamente, o estudo das relações de poder, influência e disputas entre Estados/Nações. Nasceu há mais de 130 anos como uma forma de se estudar o poder militar e territorial das nações. Seus conceitos foram muito utilizados nas duas guerras mundiais do século 20.

Mas, neste século 21, houve um desdobramento conceitual muito grande, e autores contemporâneos como Michael Klare e Daniel Yergin mudaram uma definição inicial para adaptá-la aos conflitos hoje existentes no mundo, motivados sobretudo por questões relacionadas a recursos naturais estratégicos, cadeias de produtos e disputas tecnológicas.

Neste contexto, é interessante observar que o Brasil passou de uma posição periférica ao predominar numa definição militar/militar, para ser um país estratégico dentro desta nova definição, diante da riqueza em recursos naturais.

O fato é que a geopolítica sempre tratou de poder, mas agora será rico em mercadorias é que significa ser poderoso. É por isso que hoje é cada vez comum o termo “geopolítica das.” mercadorias”. Como mercadorias podem ser agrícolas, energéticos e minerais – e o Brasil é muito rico em todos eles. Basta verificar o que está agora com o petróleo, fertilizantes e outros bens camados “estratégicos”. O fornecimento tornou-se uma questão geopolítica vital para o mundo inteiro.

É impressionante como o Brasil possui ativos valiosos: além de sermos uma potência agrícola, somos também um dos mais importantes atores do mundo nas equipes de energia e mineração. Ou seja, em quase tudo o que hoje define o poder global, nosso país é protagonista.

Mas não porque ainda não avançamos como um país de destaque, que consegue oferecer boas condições de vida, renda e lazer condizentes a toda a sua população? Quais são os gargalos?

Um dos principais problemas está na nossa incompetência em agregar valor às mercadorias. Temos que saber valorizá-las no mercado internacional de forma a obter receitas muito maiores.

Vejamos o caso do suco de laranja: o Brasil é o maior exportador mundial desse produto, respondendo por 75% do mercado global e fornecendo aproximadamente 50% do suco consumido nos Estados Unidos. No entanto, a estrutura de negócios brasileira foca majoritariamente na exportação do produto concentrada a granel, deixando uma distribuição final no mercado norte-americano para empresas locais. Ou seja, quem vai a um supermercado em Nova York toma suco de laranja brasileiro, mas embalado e distribuído por uma empresa de lá, que define e impõe a sua marca.

Na área energética, temos as matrizes mais limpas do mundo, com predominância de água, vento e sol e geração de energia elétrica. No entanto, 95% dos equipamentos de energia solar utilizados – painéis fotovoltaicos – são comprados à China, e isto tem mais de dez anos. Claro que já estou sendo fabricado por aqui.

Na área eólica a situação é um pouco melhor, porque as turbinas pelo menos já são fabricadas aqui, mas predominantemente por compressas de fora e quase nada por compressas de capital nacional. Por que não exige transferência de tecnologia para empresas locais como faz a China?

Mas talvez o caso mais gritante esteja na mineração. As terras raras são o exemplo mais emblemático, pois possuímos 23% das reservas mundiais, mas não sabemos extraí-las e muito menos refina-las, deixando essas tarefas para a China, que é quem faz a maior agregação de valor e fica com o maior filão.

Em suma, estamos na era da geopolítica das mercadorias e temos boa parte dos produtos que o mundo precisa. No entanto, por falta de uma visão estratégica, não temos um papel protagonista. Falta uma visão de futuro para o País. Qual o plano do Brasil para daqui dez ou 15 anos? Ningumu sabe – porque simplesmente não existe.

Precisamos deixar de ser um mero fornecedor de mercadorias em estado bruto para, assim como a China, nos transformarmos em fabricante de bens valiosos. Isso exigia uma política industrial.

Não dá mais para acreditar que o mercado resolverá tudo. Pode até resolver… mas nunca a nosso favor.

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(As opiniões expressas nos artigos publicados no Jornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões de veículos nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. (Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.)

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