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A Copa do streaming e o jogo por trás do jogo – Jornal da USP

Por Elaine Santospós-doutorado no Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP

Tal como muitos brasileiros, eu também estou em clima de Copa!

E esse período de jogos sempre me traz muitas lembranças: lembro de 1994 e depois de perder em 1998, e de 2002, quando voltamos a vencer. Eu era jovem e tinha a impressão de que aquilo era a ordem natural das coisas, assim, a cada quatro anos, seríamos nós a vencer novamente, afinal, éramos muito bons, com os Ronaldos e suas jogadas improváveis. Como diz um meme que circula na internet, “quem viu, viu”.

Em 2014, assisti pela primeira vez na Copa sedida no Brasil. Em 2018, já sem minha mãe, o sentido de ver os jogos se perdeu um pouco mais.

Acho que só agora voltei a assistir aos jogos com mais étente e, não sei o que vocês acham, mas esta Copa do Mundo de 2026 me parece um pouco estranha. Talvez porque estou me sentindo velho e nostálgico (o que não deja de ser verdade), mas no meu caso específico acho que isso tem uma relação como como estamos vivendo esta experiência.

A Copa sempre promoveu encontros: combinamos onde assistir, ligamos a TV ou um rádio e lá estávamos. Lembro que os bares perto de casa, na periferia de São Paulo, instalavam telões e havia até pipoca e essa era uma das nossas experiências coletivas que, como eu disse, guardam na memória. Porem, neste ano tenho assistido aos jogos mais sozina do que açãodada e, por estar sozina a ver os jogos pela primeira vez por streaming, no YouTube, fico ali agindozando a partida e prestando atenção nos comentários do chat.

Na estreia do Brasil contra Marrocos também me dei conta, e isso foi bastante comentado nos meios de comunicação, de que havia mais de 10 milhões de pessoas presentes ao mesmo tempo e, por pesquisar esse tema, passei a pensar na quantidade de infraestrutura necessária para que todas elas poums compartir, ao sesmo tempo, o sesmo video: essa nossa virtualização torna-se invisível como materiais básicos que sustentam a vida contemporânea, mas o mundo ainda é, e talvez cada vez mais, muito material. Eu explico.

Enquanto assistíamos a um jogo em streaming, não pensávamos que a imagem que chegava à nossa tela estava passando por uma gigantesca infraestrutura de cabos. Mais de 90% do tráfego internacional de dados mundial passa por cabos submarinos instalados no fundo dos oceanos; no caso do Brasil, segundo a Agência Nacional de Telecomunicaçõesesta proporção atinge cerca de 99% do tráfego internacional do país, ligado ao resto do mundo por cerca de 15 cabos submarinos.

Os cabos são apenas parte dessa história: para isso eles existem, assim como os servidores, celulares, computadores e quase tudo que usamos hoje, precisamos de muitos minerais, mesmo o que chamamos de “novo” depende de enormes quantidades de cobre, silício, alumínio e outros recursos.

Esses dados circulam por extensas redes de cabos e são processados ​​e redistribuídos em múltiplos pontos da infraestrutura digital, incluindo data centers. O Brasil tem atualmente cerca de 200 data centers em operação, segundo acordo Mapa do data centercom variações de escala e capacidade. Para a construção, essa infraestrutura pode abranger detalhes específicos de materiais: estimativas da Associação de desenvolvimento de cobre Indicam que um data center convencional pode utilizar entre cinco mil e 15 mil toneladas de cobre, compreendendo instalações de grande escala, voltadas para inteligência artificial, podem, em alguns casos, chegar até 50 mil toneladas.

No caso específico do YouTube, o caminho dos dados pode ser outro: o vídeo não necessariamente passa por esses data centers comerciais, mas por uma rede própria do Google, instalada dentro das redes dos próprios provedores de internet de brasileiros, mais próxima do espectador final. Não consegui encontrar dados sobre quantos servidores ou pontos dessa infraestrutura estão simultaneamente envolvidos na transmissão de um grande evento esportivo, mas a própria escala da audiência digital ajuda a dar uma dimensão do desafio.

Há ainda a energia necessária para sustentar tudo isso e, aqui, temos uma pergunta curiosa: segundo o Painel de monitoramento do ONSa carga do Sistema Interligado Nacional não sobe, mas cai antes e durante os jogos do Brasil, porque o comércio e a indústria interrompem suas ativações. No caso de Marrocos, no dia 13 de junho, a redução atingiu 8,6% em relação à referência de sábado. Na verdade, o risco operacional está na rampa de subida rápida que vem do intervalo e do final do jogo, quando o país volta a ligar tudo de uma vez: por isso o ONS mantém turbinas hidráulicas de emergência e proíbe intervenções que possam cortar o fornecimento duas horas antes e depois de cada jogo.

Tudo isso para passar raiva com a atuação do time brasileiro. E ainda assim resumindo, pois essa cadeia poderia ser bem maior se fosse explicada passo a passo como a imagem cega às telas dos nossos celulares. Nenhum livro Material Terrestreque eu já mencionei diversas vezes, Ed Conway lembra que o mundo não acabaria se o Instagram ou o X (antigo Twitter) e até mesmo o YouTube deixassem de existir, mas que a história seria muito diferente se o aço e o gás se estosassem. Segundo ele, esses princípios só se tornam evidentes em tempos de guerra, escassez ou colapsos.

É por isso que, apesar das operações especiais que o ONS organiza para evitar oscilações de energia durante os jogos, a Copa do Mundo continua sendo, para a maioria de nós, um período de celebração em que essa materialidade permanece invisível, funciona muito bem porque não pensamos nisso, mas o streaming deixa de funcionar para que esse mundo material chegue até nós.

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