• Home
  • Saúde
  • A.C.Camargo negocia acordos de compartilhamento de riscos para CAR-T com farmacêuticas

A.C.Camargo negocia acordos de compartilhamento de riscos para CAR-T com farmacêuticas

O A.C.Camargo Cancer Center está negociando com a Kite e com a Johnson & Johnson acordos de compartilhamento de risco para o tratamento de cânceres hematológicos utilizando células CAR-T, tecnologias com valores que podem chegar a R$ 3 milhões. Segundo o hospital, as conversas com as farmacêuticas estão avançadas em relação ao modelo, avaliando a sobrevida global dos pacientes, de acordo com premissas e critérios de elegibilidade.

“Serão modelos um pouco diferentes do que temos até hoje. O CAR-T tem uma tendência de checkpoints de avaliação e não pagamento se o paciente for à óbito durante esse acompanhamento. Não vai ser devolução, vai ser evitar o pagamento, o que, para operadoras de planos de saúde, tem uma operacionalização melhor”, disse Mariana Tripolone, head comercial do A.C.Camargo.

Os acordos devem envolver o Yescarta, da Kite, que atualmente possui indicação para linfoma de grandes células B e  linfoma difuso de grandes células B, e o Carvykti, da Johnson & Johnson, com indicação para mieloma múltiplo, ambos para pacientes adultos, recidivados ou refratários a outros tratamentos.

“Esperamos que esses acordos saiam ainda este ano, mas é preciso que se entenda que essas assinaturas, no caso da indústria, precisam de aprovação do escritório global. Tem todo um processo, mas não desistimos”, afirma Victor Piana, CEO do A.C.Camargo, em entrevista ao Futuro da Saúde.

A divulgação foi feita nesta terça-feira, 9, durante evento da instituição, que apresentou dados de tratamentos de pacientes do hospital com a tecnologia entre janeiro de 2023 e abril de 2026. Ao longo do período, 62 pacientes receberam a terapia gênica, entre 250 casos discutidos entre médicos da instituição.

“Mostramos os melhores perfis de pacientes que podem se beneficiar com essa terapia. Temos conseguido dados equivalentes ou até melhores que a literatura no manejo da síndrome de neurotoxicidade e de liberação de citocinas. Nossos dados de desfecho, de resposta e de sobrevida, também estão equivalentes aos da literatura. E podemos melhorar ainda mais”, afirma Jayr Schmidt Filho, chefe do Departamento de Hematologia no A.C.Camargo Cancer Center, Transplante de Medula Óssea e Terapia Celular.

O A.C.Camargo tem sido pioneiro em acordos de compartilhamento de risco na saúde suplementar. Desde 2022, a instituição trabalha em parceria com farmacêuticas nesse sentido, buscando transparência de dados e qualidade assistencial. Até o momento, dos seis acordos, foram devolvidos R$ 500 mil diretamente às fontes pagadoras.

“Não é a bala de prata do sistema, mas os acordos ajudam a garantir o acesso. As operadoras não estão financiando uma aposta, como acontece muitas vezes. Elas estão financiando um resultado. Se o resultado não vier, recebemos os valores ressarcidos pelas farmacêuticas e devolvemos ao sistema, como fizemos em três casos de falha ao longo desses quatro anos”, observa Aline Chibana, gerente do Escritório de Valor do A.C.Camargo Cancer Center.

Procurada, a Johnson & Johnson afirmou em nota que não comenta negociações específicas, mas que a companhia “segue aberta ao diálogo para entender as opções de modelos de acordos de acesso gerenciado que possam contribuir para a jornada de pacientes elegíveis às inovações”. Já a Kite não respondeu ao pedido de confirmação sobre as negociações.

Dados de CAR-T 

Com dados de prontuário médico e acompanhamento de pacientes em tratamento, utilizando Tasy e discussões no Tumor Board, o A.C.Camargo compilou as informações que trazem transparência aos resultados de tratamentos com CAR-T disponíveis no mercado. Além de ser importante para a própria instituição, pode trazer confiança para as operadoras e mostrar às farmacêuticas que os resultados estão dentro dos fornecidos em estudo, o que colabora com a formalização dos acordos de compartilhamento de risco.

Os 62 pacientes tratados tiveram um acompanhamento de sobrevida de 180 dias, variando de acordo com o tipo da doença e tratamento. As taxas de respostas para pacientes de mieloma foram de 90%, e, para indicação de linfoma, cerca de 58%, segundo o o chefe de terapia celular. 

Ao longo do acompanhamento, a taxa de mortalidade foi de 15%. O tempo médio de internação hospitalar foi de 15 dias, com 66,13% dos pacientes não precisando de atendimento em Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Dos 62 pacientes, 41 deles não precisaram de atendimento de pronto-socorro nos 30 dias após a infusão. 

“O principal desafio é realmente a própria doença de base. Óbito com a toxicidade é raro de acontecer, felizmente, mas em especial para a indicação de linfoma, onde o cenário é desafiador, a doença tem um comportamento mais agressivo. Muitas vezes, esses pacientes estão em um cenário mais adverso da doença. Ela pode recair até mais precocemente e levar esse paciente a óbito. Mas, fazendo a indicação no momento correto, espera-se que essas taxas vão reduzindo gradativamente, a ponto de praticamente não se encontrar mais esses óbitos”, explica Jayr Schmidt. 

Entre a indicação médica e o tratamento em si, o tempo de espera caiu de 179 dias em 2023 para 130 dias em 2026. A expectativa é de que, com a redução desse período, haja ainda mais eficácia das terapias. Para isso, a celeridade dos planos de saúde na liberação do tratamento é essencial. 

“Quanto mais se demora para fazer a terapia, ou seja, quanto mais tempo se perde para esse paciente fazer a solicitação e conseguir fazer a infusão, mais influência na taxa de óbito. Assim como também o número de linhas prévias. Fazer de uma maneira mais rápida e em um paciente menos politratado tem feito diferença”, observa o médico, que aponta que o ideal é que seja aplicado como 2ª ou 3ª linha de tratamento.

Segundo o médico, realizar um acordo de compartilhamento de risco para a terapia gênica celular é mais complexo que para os medicamentos que foram feitos parcerias até o momento. No entanto, ele afirma que isso já foi feito em outros países e que é possível criar mecanismos neste sentido. “Estamos falando de terapias que vão sendo pagas ao longo do tempo, diferente do CAR-T que normalmente tem um tratamento que é pago no momento da infusão. Para desenhar tudo isso e atrelar ao desfecho, realmente os cenários são mais complexos, mas quanto mais desafia, mais nos motiva a fazer”, afirma Jayr.

Estudo econômico e judicialização

Agora, o A.C.Camargo prepara um estudo para apontar o custo de pacientes não tratados com CAR-T, avaliando valores associados a outros tratamentos e o impacto na demora em fornecer a terapia celular. Os dados devem ser publicados e divulgados ao setor. 

“Conseguimos realmente avaliar o incremento de custo de pacientes que às vezes ficam um tempo esperando pela aprovação, seja pela via judicial ou pela própria autorização do convênio. Nesse meio tempo, esses pacientes acabam agravando a doença e isso gera uma carga de doença com uma carga financeira”, afirma Ana Paula Etges, cofundadora da PEV Consultoria em Saúde, líder e professora de Health Economics and Strategy Research do A.C.Camargo, atuando na linha de pesquisa em estratégia e economia da saúde.

A ideia do A.C.Camargo é mostrar que não tratar um paciente pode custar tanto quanto o tratamento, fazendo a comparação entre os dois cenários, com dados da própria instituição.

No cenário econômico, a avaliação do impacto da toxicidade dos tratamentos oncológicos também é um tema que merece atenção. Isso porque, em alguns casos, terapias podem demandar mais atenção hospitalar, com associação com outras medicações, para controlar seus efeitos colaterais, gerando custos indiretos que vão além do tratamento central.

“Muitas avaliações de toxicidade que medem a toxicidade química, mas cada vez mais as toxicidades financeira e de tempo, tem a ver com essa morosidade do acesso, que acaba causando danos de qualidade de vida e também de gravidade da doença”, observa Ana Paula.

Para Victor Piana, CEO do A.C.Camargo, a judicialização de CAR-T tem se mostrado um desafio para a instituição porque impacta diretamente os dados de eficácia. Em alguns casos, pode ser para pacientes que não teriam a indicação correta ou levar mais tempo do que o esperado para o tratamento.

“Não estimulamos a judicialização, mas às vezes o paciente encontra esse caminho. Já fizemos infusões que foram por essa via, mas esse problema tem ficado cada vez menos frequente. Temos conseguido aumentar o diálogo e conseguir resolver os casos por vias comerciais, para poder fazer a infusão no tempo certo. Precisamos encontrar caminhos estruturados para inserir a tecnologia aqui no Brasil”, observa o CEO. 

Clique aqui para acessar a Fonte da Notícia

VEJA MAIS