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Bolha da IA É uma Possibilidade, Diz Gary Bolles

Divulgação/IT Fórum


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A trajetória de Gary Bolles com a tecnologia começou muito antes da IA — e até mesmo da internet. O chair de Futuro do Trabalho da Singularity University e autor do best-seller “The Next Rules of Work” seguiu os passos do pai, o escritor Richard N. Bolles, e dedicou a vida a entender as dinâmicas do mercado de trabalho.

Durante uma palestra no IT Forum Praia da Forte, evento realizado pelo IT Forum, frente de negócios do Itaqui, Bolles contou como, eventualmente, nos anos 1980, foi parar no Vale do Silício, onde liderou as áreas de comunicação e marketing de diferentes startups e conheceu as principais mentes e empresas da tecnologia global.

“Como tenho mais de 40 anos de experiência no Vale do Silício, já vi como utilizam palavras para influenciar as pessoas a sentirem que estão perdendo algo. É uma estratégia de marketing. Com a inteligência artificial não é diferente, o termo é mais uma construção mercadológica”, afirmou.

Em entrevista à Forbes Brasil, Gary Bolles também trouxe suas perspectivas sobre o futuro do trabalho, a “bolha da IA” e como o Brasil pode se destacar nesta nova era. Confira:

Forbes Brasil: Durante a apresentação, você disse que “a inteligência artificial não é inteligente, esse termo é mais uma construção de marketing do que algo prático”. O que isso significa?

Gary Bolles: “Eu não insisto nessa questão porque quero diminuir o trabalho das pessoas que criaram essas tecnologias incríveis. É, na verdade, para questionar a linguagem que usamos, porque ela carrega um significado. E, como tenho mais de 40 anos de experiência no Vale do Silício, já vi como utilizam palavras para influenciar as pessoas a sentirem que estão perdendo algo. É uma estratégia de marketing.

Um ótimo exemplo são os chatbots. Por que “chat”? É “chat” porque está hackeando o nosso cérebro. Nós fazemos uma pergunta como faríamos a um humano, e ele faz uma pausa e depois começa a nos enviar linha por linha, como um humano faria. Ele poderia simplesmente responder tudo de uma vez, em formato estruturado, mas assim não pareceria com um processo cognitivo.

O desafio é equilibrar constantemente a linguagem que usamos e a forma como abordamos essas tecnologias com o que elas realmente podem fazer. Precisamos estabelecer limites para não sermos sugados por elas.”

FB: Então, qual seria a melhor forma de lidar com as novas tecnologias?

GB: “Para começar, precisamos pensar na IA como um conjunto de processos que nos ajudam a resolver certos problemas, não como uma inteligência. Não é algo independente que, de repente, vai assumir ou substituir os processos cognitivos de um humano.

A tecnologia nos poupa muito tempo? Sem dúvida. Mas imagine um futuro em que utilizamos essas ferramentas cada vez mais para pensar por nós.

Se você gosta da palavra inteligência, ótimo, pode considerá-la uma inteligência de apoio. Mas o que estou sugerindo é que as pessoas não personifiquem a tecnologia.

Ao pensarmos nela como um ‘funcionário, colega ou amigo’, acabamos dando muito poder às empresas de tecnologia. E abrimos mão do poder de tomar as melhores decisões.”

FB: Quais são os principais riscos dessa narrativa distorcida sobre a IA?

GB: “Como essas ferramentas são muitas vezes de uso geral e podemos aplicá-las a diversos problemas, se não tivermos conhecimento sobre um assunto, não vamos questioná-la.

Não sei se vocês viram isso aqui no Brasil, mas nos Estados Unidos um ótimo exemplo são advogados que usaram o ChatGPT para gerar petições para um juiz, citando fontes jurídicas que não existem. Não havia precedente — a IA simplesmente inventou algo que não existia.

E, novamente, como eu disse no palco, chamamos isso de alucinações. Mas é, na verdade, um viés humano, e o viés humano com o qual muitas dessas tecnologias foram treinadas é o de ser amigável, de querer dar uma resposta e, mesmo quando não sabem, inventá-la. Esses comportamentos são muito difíceis de mudar nessas aplicações.”

Imagem ilustrativa de robôs humanoides

FB: Ainda sobre esse assunto, você destacou que estamos longe de alcançar a AGI (inteligência artificial geral) ou a superinteligência artificial. No entanto, estamos vendo investimentos maciços de gigantes da tecnologia. Isso poderia levar a uma bolha?

GB: “Essas ondas de hype sempre seguem esse ciclo: há um investimento enorme, depois vem o vale da decepção e, eventualmente, a empresa retorna do outro lado.

Porém, existem alguns fatores um pouco diferentes em relação à IA. A primeira é que as empresas que criaram essas tecnologias conseguiram levantar tanto dinheiro que conseguem manter os preços baixos.

E, enquanto permanecer barato e nós não soubermos o custo real — ou seja, “quanto você vai me cobrar no futuro?” —, continuaremos sem ver as reais condições de mercado dessas tecnologias.

Então, digamos, por exemplo, que eu aceite a narrativa e demita todos os meus funcionários humanos e passo a usar apenas a IA. Desta forma, eu fico à mercê da empresa que me fornece a tecnologia e, se ela aumentar o preço em 10 vezes, não tenho controle, porque me tornei dependente dela.

E uma das coisas que foi constatada pelo MIT [link para o estudo] é que os tipos de iniciativas que mais fracassaram foram aquelas em que as empresas tentaram criar suas próprias tecnologias. Elas simplesmente não geraram muito valor de negócio.

Estamos vendo esse grande investimento das Big Techs e, em algum momento, elas vão precisar que o mercado as remunere. Se não conseguirem, surge uma bolha.

Não estou dizendo que já estamos em uma bolha ou que ela vai estourar, mas a dinâmica é muito, muito semelhante.”

FB: O que mudou na dinâmica dos negócios de tecnologia no início do Vale do Silício nos últimos anos?

GB: “As antigas regras do Vale do Silício, nos primeiros dias da internet, eram muito, muito diferentes. As mentes inovadoras conseguiam construir empresas realmente incríveis e de grande porte — e muitas delas de fato cresceram assim.

Eu diria que essa dinâmica mudou radicalmente nos últimos 30 anos. As startups são como tartarugas marinhas e as grandes empresas de tecnologia são como tubarões.

A mãe tartaruga marinha põe os ovos na praia e, quando eles eclodem, as pequenas tartarugas começam a rastejar até o mar. Nesse percurso, são atacadas por insetos e pássaros, e apenas uma pequena porcentagem consegue chegar à água. Mas, quando chegam lá, o que as espera? Tubarões.

Hoje, temos seis grandes tubarões [Meta, Google, Amazon, Microsoft, Nvidia e Apple] circulando nas águas. Eles têm um enorme apetite e querem muitas tartarugas marinhas andando pela areia para observar quais conseguem ganhar tração e, então, investir ou comprá-las.”

FB: Olhando um pouco para o futuro, especialistas costumam falar sobre uma dinâmica em que a tecnologia realizará as tarefas básicas dos humanos. Com base nessa premissa, qual você acha que será o papel dos humanos? Corremos o risco de nos tornarmos obsoletos?

GB: “As condições macroeconômicas têm um enorme impacto nessa resposta. Se você está em uma economia em crescimento, ou em uma era de crescimento, há muita demanda. E leva tempo para implementar novas tecnologias, leva tempo para configurá-las para resolver problemas — e os humanos são solucionadores de problemas.

Se olharmos para a pandemia nos EUA, praticamente todos os trabalhadores da área de hospitalidade foram demitidos. Agora, a demanda é muito maior do que jamais foi. E acontece que é muito difícil automatizar o que alguém faz em um restaurante ou em um hotel.

Há setores, portanto, que são muito mais protegidos disso. Então, antes de tudo, essa retórica de que todos os empregos vão desaparecer, isso é apenas o marketing do Vale do Silício. Não vamos cair nessa narrativa.

Existe, em vez disso, um futuro possível em que ainda haverá muita demanda, mas certos cargos, em que as tarefas são relativamente fáceis de automatizar, vão mudar. Atendimento ao cliente, por exemplo: no futuro haverá menos atendentes.

As empresas de tecnologia vão contratar menos? Provavelmente sim, porque é importante para elas mostrar que conseguem automatizar muitos cargos.”

forbes ia agentes carreira trabalho

FB: Falando em poder e tecnologia, vivemos em um período complexo, marcado pela polarização e disputas de narrativas. Qual será o papel da IA no futuro da geopolítica global?

GB: “Essas relações são muito, muito complexas, mas vou trazer uma versão extremamente simplificada.

A dinâmica que precisamos acompanhar é a seguinte: não podemos entregar o nosso futuro a nenhuma fonte em que as pessoas tenham interesses que façam com que a solução delas seja “a solução”. As únicas soluções que queremos são soluções criadas em conjunto.

Então, seja a ideia de que os superpoderes da tecnologia vão se tornar superpoderes literais, seja a de que vamos encontrar uma forma mágica em que um grupo de pessoas terá a solução e todos os outros deverão segui-lo — eu rejeito esse futuro. Porque a história mostra que não é assim que os humanos constroem um mundo melhor.

Os humanos constroem um mundo melhor por meio da cocriação. Agora, é possível que as tecnologias nos ajudem a fazer isso? Com certeza.

Não precisamos nos concentrar na ideia de que haverá algum salvador que virá nos resgatar. Nós estamos aqui para nos salvar.”

FB: Não podemos falar sobre o futuro sem considerar o presente — e o impacto ambiental da tecnologia. Como você acha que as grandes empresas de devem se comportar diante desses desafios crescentes?

GB: “Antes de tudo, espero que as pessoas entendam — e reflitam — que é uma espécie de solução maluca usar tecnologias de IA que dependem de tanto poder de processamento, de tantos recursos naturais justamente em um momento em que também estamos tentando construir um planeta melhor.

Então, estamos nos convencendo de que, toda vez que fazemos uma consulta no ChatGPT ou no Gemini, não precisamos nos preocupar com toda a água e toda a energia que estão sendo consumidas.

Porém, as empresas de tecnologia podem fazer várias coisas para não nos empurrar essa narrativa de que tudo isso é “normal”. O primeiro ponto é a transparência.

Nesta semana, o Google foi a primeira Big Tech a divulgar um estudo mostrando quais eram exatamente as implicações energéticas a cada consulta feita no Gemini. Descobriu-se que o consumo equivale aproximadamente ao de usar o micro-ondas por um segundo. Ou seja, eles conseguiram torná-lo relativamente eficiente. Mas, ok: agora eu consigo entender que, ao fazer muitas consultas, é como se eu tivesse deixado o micro-ondas ligado por meia hora. Pelo menos temos uma noção clara do que isso significa.

O segundo ponto é que, neste momento, o caminho do desenvolvimento tecnológico segue a linha do escalonamento. O que tenho incentivado líderes de empresas de tecnologia a fazer é investir em alternativas. Porque esse modelo atual de IA generativa, baseado em LLMs, enfrenta um desafio constante de escala. Pessoas que eu admiro, como Gary Marcus, têm escrito há bastante tempo que isso é um beco sem saída. Você só consegue escalar até certo ponto, depois disso, os ganhos não acompanham.”

Getty Images

FB: Como países do Sul Global, como o Brasil, podem se destacar na era da IA?

GB: “Quando olhamos para o Sul Global, as necessidades são diversas. O primeiro fator é a falta de dados. A imensa maioria das informações textuais e até mesmo de imagens usadas para treinar esses LLMs foi criada no Norte Global, no Ocidente — em uma pequena fatia dos EUA e da Europa. O resto do mundo, especialmente o Sul Global, não está representado.

Por isso, o que costumo dizer é: quanto mais vocês digitalizarem e registrarem suas informações, de modo que sua cultura esteja refletida, que seu idioma esteja refletido, mais poderão construir seus próprios modelos. Quanto mais fizerem isso, melhores serão as ferramentas, independentemente de quais sejam.

O segundo ponto é pensar em como aproveitar sua própria infraestrutura. O Brasil, por exemplo, tem muita água. Esses recursos hídricos podem gerar bastante energia, assim como acontece na China com suas enormes usinas hidrelétricas. Portanto, quanto mais vocês compreenderem seus próprios recursos, mais poderão tomar decisões inteligentes sobre como usá-los — especialmente em relação às tecnologias que vão precisar adotar nos próximos 10 a 20 anos.

E o terceiro ponto é educação: como catalisar o sistema educacional para que ele dê um salto adiante? Não apenas para tornar a população dependente das tecnologias, mas para estimular uma nova mentalidade, voltada para o desenvolvimento do pensamento crítico e da solução colaborativa de problemas.”

FB: Durante sua palestra, um pai levantou uma preocupação muito genuína sobre as novas gerações, e você disse algo muito marcante: que os jovens de hoje são como uma nova espécie. Qual é o impacto da tecnologia e das redes sociais em crianças e adolescentes?

GB: Primeiro, eu sei que estou criticando bastante meus irmãos e irmãs da tecnologia, mas sinto que, depois de 40 anos no Vale do Silício, posso sugerir gentilmente a eles como mudar suas práticas.

E o que gostaríamos que tivesse acontecido com as redes sociais? Gostaríamos que elas tivessem seus próprios limites de proteção.

Toda empresa de tecnologia que opere qualquer tipo de rede social sabe quando alguém tem menos de 13 anos. Eles sabem, claro que sabem. Você não pode alegar que não sabe

Portanto, o que gostaríamos é que eles tivessem implementado esses limites por conta própria. Mas eles não têm nenhum incentivo comercial para fazer isso.

Depois, queremos equipar os pais com ferramentas para compreender o que é diferente nessa nova “espécie” e como podemos ajudá-los a ter vidas melhores no futuro.

As redes sociais têm características maravilhosas no sentido de nos mantermos conectados uns aos outros. No entanto, precisamos entender quais são os efeitos negativos e como identificá-los em nossas crianças.

Parte disso volta ao nosso sistema educacional. Quanto mais as crianças entenderem que seus cérebros estão sendo “hackeados” pelos dispositivos digitais de distração e souberem dizer não, melhor.”

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